
“Antes de decidir o que uma pessoa autista consegue fazer, dê a ela a oportunidade de experimentar.” A frase dita pelo adolescente Guilherme Faci, 13 anos, foi o momento que mais emocionou os participantes da Oficina Inclusiva com Famílias, realizada nesta terça-feira (22/09), em São Bernardo. Autista de nível de suporte 1, o garoto aproveitou o espaço para falar sobre as próprias experiências e defender que pessoas com deficiência tenham acesso a oportunidades antes que alguém determine seus limites.
A atividade reuniu cerca de 50 pessoas no Plenarinho da Câmara Municipal e integrou a Semana da Pessoa com Deficiência, promovida pela Secretaria de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA (SDPD). O encontro teve contação de histórias, depoimentos e uma oficina coletiva em que os participantes construíram, com caixas de pizza, uma maquete da “cidade dos sonhos”.
Para Guilherme, a cidade ideal é aquela em que pessoas com deficiência podem experimentar diferentes caminhos. Estudante do 7º ano do Ensino Fundamental, ele já passou por sete escolas e enfrentou dificuldades ao longo da vida escolar. A trajetória, no entanto, também ganhou novos capítulos nos últimos anos.
O adolescente foi escolhido entre concorrentes para protagonizar o curta-metragem brasileiro “Eu, Léo”, escrito e dirigido por Ricardo Cioni Garcia. No filme, ele interpreta um personagem autista de nível de suporte 3. A produção aborda o cotidiano de famílias atípicas, além de temas como empatia, diversidade, acolhimento e as barreiras enfrentadas no ambiente escolar e social.
A experiência no cinema ajudou a ampliar a confiança de Guilherme, segundo a mãe, a educadora Márcia Viana Faci. Ela conta que o filho foi alfabetizado tardiamente por ela própria, diante das dificuldades encontradas nas escolas pelas quais passou. Márcia, que durante 20 anos trabalhou como consultora de Recursos Humanos, mudou a trajetória profissional para acompanhar o desenvolvimento do filho e, há dez anos, passou a atuar na educação.
Hoje, ela é professora do 4º ano do Ensino Fundamental na EMEB Benedito José de Morais, no Jardim Silvina. Ao acompanhar a participação de Guilherme na oficina, viu no filho não apenas alguém falando sobre autismo, mas um adolescente ocupando um espaço que, durante muito tempo, foi preenchido por outras pessoas.
“Para mim, como mãe, ver o Guilherme participando de momentos como esse é muito emocionante e tem um significado enorme. Mais do que estar presente, é muito importante que ele tenha espaço para ser ouvido, para se expressar e para mostrar quem ele é”, afirmou.
Márcia também destaca a mudança percebida no comportamento do filho depois da experiência no filme. “A voz do Guilherme importa. O que ele pensa, o que ele sente, o que ele gosta e a forma como ele enxerga o mundo também precisam ocupar esses espaços. E é justamente aí que eu vejo a verdadeira importância da inclusão.”
Durante o depoimento, Guilherme contou que conhecer os bastidores do cinema foi uma experiência marcante e defendeu que outros jovens tenham contato com diferentes profissões e ambientes a partir de seus próprios interesses.
“Meu nome é Guilherme. Sou autista. Tive a oportunidade de conhecer o cinema por dentro e participar de um filme. Foi uma experiência importante para mim, e gostaria que outros jovens autistas também pudessem conhecer lugares e profissões a partir das coisas de que gostam”, disse.
A oficina teve justamente como uma de suas propostas discutir a eliminação de barreiras e a construção de uma cidade mais acessível. O secretário de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA, Estevão Camolesi, afirmou que a participação da população é fundamental para a formulação das políticas públicas.
“Queremos eliminar barreiras físicas e atitudinais em toda a cidade, e essa construção só é possível com a união entre o poder público e a nossa comunidade”, afirmou.
Para a secretária adjunta da pasta, Joyce Quintino, ouvir as pessoas com deficiência permite identificar demandas e potencialidades que devem ser consideradas pelo poder público. “A inclusão é um caminho que vai ter desafios, mas é ouvindo que o poder público consegue enxergar as potencialidades da cidade e acolher as demandas das pessoas com deficiência”, avaliou.
Semana da Pessoa com Deficiência
A programação começou no dia 21 de setembro, Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, com o Feirão da Empregabilidade PCD, organizado pela CTR+ (Central de Trabalho e Renda +), e segue até domingo (27).
Na sexta-feira (26), São Bernardo realiza a Balada Inclusiva e Feira de Empreendedorismo, das 14h às 20h, no hall da Câmara Municipal. A primeira edição da balada terá como tema os anos 1980 e contará também com feira de empreendedorismo de mães atípicas. Para participar, é necessário fazer cadastro pelo telefone (11) 2630-4497.
No sábado (27), das 8h às 10h, será realizado um jogo amistoso de Futsal Down no CREC da Vila São Pedro, na Rua Santo Antônio, 300, na Vila São Pedro.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
