
O mês de setembro marca a importância da conscientização sobre as doenças cardiovasculares, o Setembro Vermelho. Só no ano passado, ocorreram, no Brasil, mais de 270 mil mortes por doenças cardiovasculares registradas, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia.
O órgão estima que até 80% dessas mortes poderiam ser evitadas com prevenção, hábitos saudáveis e diagnóstico precoce. Entre os fatores de risco modificáveis para prevenir este tipo de doença, estão: hipertensão, colesterol alto, obesidade, tabagismo, sedentarismo e diabetes.
Para trazer informações e esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto, o cirurgião cardiovascular e docente do curso de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), professor Eduardo G. Chamlian, respondeu algumas questões. Veja a seguir:
1. Existe idade ou gênero com maior probabilidade de ter uma doença cardiovascular?
Eduardo Chamlian: Os homens têm um fator de risco maior para terem doença coronária do que as mulheres. Sobre as mulheres, o que sabemos é que nas mulheres no período pré-menopausa, as manifestações de doença coronária são mais raras, aumentando abruptamente essa incidência depois da menopausa (por conta da baixa do estrogênio, hormônio que protege as artérias, melhora o perfil do colesterol e dá flexibilidade aos vasos sanguíneos), chegando, algumas vezes, até a três vezes mais probabilidade de ter doença arterial coronária e um consequente infarto. Em relação à idade, à medida em que os anos passam, aumentam as chances da ocorrência de infarto do miocárdio. Entre 40 e 50 anos, a chance de ter uma doença coronária é de aproximadamente 2%, já aos 80 anos, essa chance vai para 22%, então quanto mais avançada a idade, maior o risco.
2. A dieta é um fator que influencia no risco?
EC: A dieta é um fator de risco bem estabelecido. Entre os fatores nutricionais que podem contribuir no aumento da chance de infarto estão alimentos com alto índice glicêmico que quando ingeridos promovem uma grande liberação de insulina pelo pâncreas; o consumo de refrigerantes ou sucos adoçados artificiais; o baixo consumo de frutas e vegetais, o alto consumo de carne vermelha e de alto consumo de carnes vermelhas e de alimentos com gordura trans (produtos ultra processados, frituras e batatas fritas, embutidos, dentre outros), e o baixo consumo de alimentos ricos em fibras, pois a pouca ingestão de fibras contribui para maior incidência da doença coronária.
3. O que o senhor sugeriria para prevenção de problemas cardíacos?
EC: A Associação Americana de Cardiologia (American Heart Association – AHA) chama de “Life’s Essential 8”, ou seja, os oito fatores essenciais para diminuir o risco e ter saúde cardiovascular adequada. São eles:
• não fumar,
• ser fisicamente ativo(a),
• ter a pressão arterial normal/controlada,
• ter o nível de açúcar no sangue normal,
• ter o nível de colesterol normal,
• estar no peso adequado,
• ingerir uma dieta saudável,
• e ter um padrão de sono adequado.
Esses hábitos contribuem para a prevenção das doenças cardiovasculares.
4. Quais sintomas sugerem o aparecimento das doenças cardiovasculares?
EC: Na avaliação com um paciente, analisamos seu histórico clínico, fazemos a anamnese, se a família já teve alguma doença cardiovascular, sua idade, se tem histórico de diabetes, colesterol, hipertensão, se fuma ou faz uso de outras drogas. Geralmente esses pacientes se apresentam com dor torácica, típica ou atípica, que pode irradia para o braço esquerdo, pode ficar situada entre a mandíbula e o estômago, pode ir para o dorso (costas), sintoma que geralmente chama a atenção do médico e faz com que ele peça um eletrocardiograma de imediato. Outros sintomas como falta de ar, cansaço, muitas vezes náusea, sintomas de indigestão com vômitos, sudorese difusa, tontura, cansaço… todos fazem parte desse quadro geral, e variam de paciente para paciente. Essa associação de o paciente ter os fatores risco, mais o tipo de dor, faz com que o médico tome as medidas iniciais para fazer o diagnóstico.
A recomendação dos especialistas é que tanto homens quanto mulheres comecem a monitorar a saúde do coração desde o início da vida adulta e consultem o médico regularmente.
Estudo sobre predominância de risco por gênero
Tendo em vista a incidência de os homens desenvolverem doença arterial coronariana (DAC – caracterizada por um estreitamento ou obstrução das artérias do coração causado pelo acúmulo de placas) 10 anos antes do que as mulheres, um estudo publicado no início de 2026, no Journal of the American Heart Association, buscou descobrir se o fator gênero também se aplica nos casos de outros tipos de doença cardiovascular, como insuficiência cardíaca e AVC.
O estudo “Diferenças entre os sexos na idade de início da doença cardiovascular prematura e seus subtipos: Estudo CARDIA – Desenvolvimento de Risco de Doença Arterial Coronariana em Adultos Jovens” (Sex Differences in Age of Onset of Premature Cardiovascular Disease and Subtypes: The Coronary Artery Risk Development in Young Adults Study ), contou com mais de cinco mil participantes de quatro estados dos Estados Unidos, com idades entre 18 e 30, incluídos entre 1985 e 1986 e acompanhados até agosto de 2020. O estudo teve início antes mesmo de surgirem os riscos cardiovasculares em parte deste público, o que os autores consideram uma vantagem, pois foi possível medir com precisão quando as doenças foram surgindo.
O grupo examinou a doença cardiovascular precoce, definida como a doença que ocorre antes dos 65 anos, e analisou tanto a doença cardiovascular geral quanto subtipos específicos: doença cardíaca coronariana, AVC e insuficiência cardíaca. Homens e mulheres até os 30 anos apresentavam riscos cardiovasculares de curto prazo semelhantes. Por volta dos 35 anos, começaram a surgir divergências entre os gêneros.
Ao longo dos anos, foi verificado que os riscos gerais e para subtipos como doença coronariana mostraram-se nos homens de 7 a 10 anos antes do que nas mulheres. Em relação aos riscos de AVC, não foram encontradas diferenças significativas de variação de idade entre homens e mulheres. No caso de insuficiência cardíaca, houve diferença significativa (taxa de incidência maior em homens) a partir dos 65 anos.Conforme os achados do estudo, a idade prevalente para os riscos cardiovasculares passou de 40 para 35 anos. Nesta faixa etária, os resultados também levantam questões sobre a busca e monitoramento dos serviços de saúde, maior entre as mulheres, principalmente pelo cuidado com a saúde reprodutiva.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
