Diante do temor do avanço cada vez maior do e-commerce, aliado ao medo de seguir o mesmo caminho de grandes varejistas que estão fechando lojas, o comércio se vê cada vez mais acanhado em vendas e seus donos com medo de investir, diante da complexidade de concorrer com as vendas digitais e enfrentar os custos de ter as portas abertas. O economista da Strong Business School, Sandro Maskio simplifica a equação e sustenta que a sobrevivência do comércio de rua está baseada no investimento em comunicação com o público alvo, além de conhecer bem quem é esse cliente e o que ele quer consumir. Ele também cita a importância dos poderes públicos em tornar as ruas e avenidas locais bons de comércio, munindo o espaço público de infraestrutura.
“A pandemia foi um ponto de virada, pelo bem ou pelo mal, ela nos forçou a usar o e-commerce e a compra on-line ganhou impulso, então ela foi um ponto de virada. Claro que o comércio de rua, ou de shopping, tem outros atrativos e, mesmo a pandemia não foi o fim dessas modalidades de compra, mas o e-commerce passou a figurar com uma participação maior”, diz o economista.
Realizando periodicamente pesquisas relacionadas a datas importantes para o comércio, como o Dia das Mães, dos Pais, Natal e outras, na Strong, Maskio não vê ainda um efeito danoso suficiente para alarme do setor comercial. “As pesquisas não apontam grandes mudanças. O comércio de rua, seja do bairro ou do Centro têm em torno de 25% das preferências, aí tem shopping e o comércio on-line. O comércio de rua tem mantido certa estabilidade em relação as preferências de locais de compra. Tem conseguido manter, segundo nossas pesquisas, a sua participação no mercado”.
Vantagens
Se a internet facilita buscas e comparação de preços, o comércio de rua tem um trunfo, tão velho quando a própria atividade comercial, que é a de cativar o cliente, manter a fidelidade e a experimentação do produto, o que a internet não consegue suprir. Para Maskio esse é o grande diferencial.
“O comércio de bairro ou mesmo o do Centro têm a facilidade da localização, a proximidade de onde a pessoa mora ou de onde trabalha, então o comércio de rua tem como um dos diferenciais essa proximidade o que torna mais próximo de alguns grupos que preferem ter essa experiência visual, do tato, de olhar a roupa, o sapato, o livro ou o equipamento que ele vai comprar ou o presente. Essa proximidade está no dia a dia, onde o shopping e o e-commerce não está. Comércio de bairro tem essa vantagem de personificar o atendimento, tratar o cliente pelo nome”, destaca Maskio.
Que as pessoas mais velhas têm menos frequência no e-commerce e estão mais acostumadas ao atendimento presencial, enquanto o mais jovem é acostumado ao on-line, não é novidade, mas o critério renda é importante para destacar quem está mais afeito a uma modalidade ou outra de compra. “Quem tem maior a renda tende comprar mais pelo e-commerce por conta do melhor acesso aos meios digitais que permite a comparação”, aponta o professor da Strong Business School.
“A diversidade de produtos maior da internet é inquestionável e imbatível no e-commerce. O pequeno não consegue ter uma diversidade tão grande de produtos como as grandes plataformas. Importante que que o pequeno comerciante consiga focar no público alvo dele. Essa é uma estratégia importante, entender qual é seu entorno e seu público alvo. O que não significa que o pequeno comerciante não possa participar do comércio on-line, seja nas plataformas já existentes, seja por site próprio”, orienta o economista.
Há, no entanto, ganhos e dificuldades com a escolha da plataforma conhecida e o site próprio. “A vantagem das grandes plataformas é que elas têm um público muito grande já navegando por elas. A dificuldade é que o fluxo de concorrentes é muito maior. Saber diferenciar e ter uma estratégia de comunicação é fundamental para vender on-line. Isso é fundamental se for para grande plataforma ou site próprio. Tem que saber onde vai fazer e para qual público”, continua o economista.

Experimentação
As lojas de todos os tipos viraram mais local de experimentação e de um conhecimento mais profundo do produto. A venda pode ser fechada depois uma grande plataforma ou em site do próprio fabricante. Na área de alimentação a experiência do atendimento pode ser o diferencial, segundo o professor da Strong.
“A pandemia fez surgir as cozinhas que não têm atendimento presencial, só entrega on-line. Atende o público do entorno com a rapidez que consegue fazer a entrega. Tem que saber qual é a preferência do seu entorno e saber atender esse público. Mas também tem o consumidor que está disposto a ir ao local, que pode ser até o mesmo que compra para entregar. Mas sair demanda tempo e custo mais ele vai ao restaurante para curtir o espaço, é um outro momento. Tem dia que ele está disposto a ir presencialmente, isso ocorre mais em fim de semana.
Grande varejo
Com os grandes varejistas reduzindo o número de lojas o pequeno comerciante também se vê assustado. Para Maskio essa redução do grande volume de lojas é fruto de uma nova dinâmica do mercado, um ajuste de estruturas muito grandes. “Você tem uma disputa com o online. No setor de eletro você até pode ir à loja ver como é aquela geladeira e depois vai no site do produtor e olha em várias outras lojas e aí compra on-line, isso porque o produto é padrão, ele é o mesmo, a garantia ou a assistência técnica são as mesmas também. As lojas viraram mostruário e isso dificulta muito as grandes redes que têm que espremer as margens e reduzir custos. Para alguns segmentos é importante ter loja física e mostrar que está vivo, mas tem que escolher quais vai fechar porque as vezes está concorrendo com outra que está perto, não precisa ter cinco lojas num mesmo município. A dinâmica comercial mudou. A forma como se opera o comércio mudou”, analisa.
Infraestrutura
Para Maskio os poderes públicos podem contribuir indiretamente para fomentar o comércio físico, seja criando vias só para pedestres, que podem ser fechadas aos carros aos fins de semana, estimulando a caminhada, andar de bicicleta, ou seja, melhorando a circulação de pessoas na calçada. Mas também é preciso aparelhar melhor os espaços públicos.
“Precisa ter iluminação, acesso fácil, lugar para estacionar, tem que ser bonito, mas isso é planejamento urbano. O consumidor tem que ir até as lojas e aí você garante o fluxo de pessoas. Mas a cidade está formada e não se consegue fazer grandes modificações estruturais, mas a preservação da infraestrutura urbana, a segurança e a limpeza tem como mudar”, orienta.
Por fim o economista não acredita no fim das lojas físicas, mas numa acomodação do mercado, desde que haja investimento para fomentar o setor. “Muito dificilmente as lojas vão deixar de existir nos centros comerciais, como a Oliveira Lima, em Santo André, por exemplo. A gente ainda tem um fluxo de pessoas muito forte e isso sustenta o comércio, mas a medida que se trata melhor a estrutura urbana o ambiente atrai mais consumo. Consegue ter atratividade para um maior número de pessoas. É possível ir planejando a mudança e vai fazendo aos poucos”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
