Correr, pedalar ou caminhar deixou de ser, para muita gente, uma atividade solitária. No ABC, grupos esportivos têm transformado ruas, praças e parques em pontos de encontro para adeptos de diferentes idades, ritmos e níveis de condicionamento. A corrida de rua ganhou espaço como porta de entrada para quem busca uma atividade física, mas também como oportunidade para fazer amigos, criar uma rotina, participar de ações sociais e encontrar uma comunidade com objetivos semelhantes.
O professor e personal trainer João Victor Filgueira explica que a prática coletiva ganhou força, sobretudo, com grupos criados e divulgados pelas redes sociais. Para Filgueira, a convivência funciona como estímulo nos momentos de desânimo e favorece a regularidade dos exercícios. “Nós somos seres humanos, somos animais sociais”, afirma.
Segundo Filgueira, a presença de outras pessoas ajuda quem deseja começar uma atividade e quem precisa manter a disciplina. O profissional também relaciona o fenômeno ao período posterior à pandemia, marcado por isolamento e problemas de saúde mental. “Ajuda muito na coragem e no desempenho da prática, seja para iniciar um exercício físico ou para alcançar a famosa consistência, que faz toda diferença”, diz.

Além da dimensão social, a corrida oferece benefícios para a saúde. A modalidade contribui para o fortalecimento do coração, auxilia no controle do peso, fortalece músculos e ossos e melhora a capacidade respiratória. A prática também pode reduzir o estresse e a ansiedade, favorecer o sono e elevar a autoestima, graças à sensação de conquista e superação de metas. Com baixo custo e possibilidade de adaptação a diferentes níveis de condicionamento, a corrida se tornou uma opção acessível para quem deseja sair do sedentarismo.
ABC Run transforma treinos em rede de amizades
O ABC Run surgiu em dezembro de 2024, criado por Jefferson Pavanatti após sua primeira prova de corrida. A experiência despertou o interesse pela modalidade, mas Pavanatti encontrou dificuldade para localizar grupos de corrida na região. A solução foi criar a própria equipe. Depois do surgimento do ABC Run, Pavanatti conheceu outros grupos de Santo André e de cidades da região. Alguns projetos também nasceram a partir de participantes do ABC Run e, mais tarde, deixaram a equipe para criar seus próprios grupos ou levar a experiência para outras regiões.
Hoje, o ABC Run se aproxima de 22 mil seguidores no Instagram e se consolidou como uma referência entre os grupos de corrida do ABC. Os treinos regulares ocorrem às terças e quintas-feiras, às 20h, com percursos de aproximadamente 5 a 7 quilômetros, e são gratuitos. Às terças-feiras, o grupo faz o aquecimento no jardim do Golden Square Shopping, em São Bernardo, e depois segue para a avenida Kennedy. Às quintas, o ponto de encontro é a Praça Municipal.
Cada encontro costuma reunir entre 80 e 120 pessoas. Em treinões especiais, o público aumenta. O último, realizado na Estrada Velha, reuniu cerca de 350 participantes e contou com medalhas. A atividade não teve caráter de prova, mas serviu como um treino especial.
O grupo mantém uma estrutura de coordenadores para acompanhar os participantes. Há pessoas que correm com os iniciantes, outras que acompanham ritmos moderados e mais fortes e também integrantes responsáveis por acompanhar quem prefere caminhar. A orientação para quem começar é respeitar o próprio nível e evitar excesso de esforço. Pavanatti ressalta que o grupo não possui professores de Educação Física entre os responsáveis pelos treinos, mas oferece orientação para que cada participante escolha um ritmo adequado. Os coordenadores acompanham os novos integrantes ao longo do percurso.
A estrutura também inclui água e café nos treinos. O grupo consegue custear parte dessas despesas por meio da venda de camisetas e de outras ações. Nos fins de semana, o ABC Run também promove treinos em locais diferentes, com alternância de programação.
A entrada de novos integrantes ocorre pelo Instagram, WhatsApp e boca a boca. O acolhimento aparece como um dos principais fatores de crescimento do grupo. Pavanatti afirma que as pesquisas de satisfação realizadas com os participantes apontam a boa recepção como um dos aspectos mais citados. “Fui muito bem recebido” é, segundo o fundador, uma das avaliações mais frequentes entre os integrantes.
Para Pavanatti, o ABC Run representa algo maior que uma comunidade esportiva. “A gente pode dizer hoje que tem muitos amigos dentro do ABC”, afirma. Segundo o fundador, participantes passaram a marcar encontros para ir ao cinema, sair juntos e participar de outros programas fora da corrida. Um dos exemplos foi um evento inspirado no Homem-Aranha, no qual os integrantes aceitaram a proposta de usar fantasias. O grupo também já realizou campanhas de doação para ONGs. “A gente tem muitos amigos. As pessoas fazem amigos. Acho que ficou um lugar realmente de apoio e de amizade também”, resume Pavanatti.
O projeto prepara ainda uma nova etapa. No dia 24 de agosto, o ABC Run pretende lançar uma assessoria esportiva paga, com valores abaixo dos praticados no mercado. A iniciativa também prevê acompanhamento com nutricionista. A criação da assessoria surgiu após a percepção de que muitos integrantes procuravam serviços semelhantes fora do grupo e encontravam preços mais altos.
A assessoria será opcional. Os treinos regulares de terça e quinta-feira continuarão gratuitos. Instagram: @abcrunclube
Arbok Run Club reúne cerca de 450 pessoas por semana em Mauá
Criado em janeiro de 2025 por Guilherme Fávaro, o Arbok Run Club já reúne cerca de 450 pessoas por semana nos encontros de quinta-feira, às 20h, no Parque da Juventude, em Mauá. O grupo possui ainda aproximadamente 1.988 integrantes em dois grupos de WhatsApp e 12 mil seguidores no Instagram.

A participação é gratuita e aberta ao público. Não há necessidade de inscrição prévia: basta chegar ao ponto de encontro no horário marcado. O grupo recebe novos integrantes todas as semanas, com participantes de diferentes idades, gêneros e níveis de condicionamento. A corrida é dividida por ritmos, do pace mais rápido ao percurso de 3 quilômetros.
Para começar, Fávaro recomenda o grupo de 3 km. Caso o participante sinta dificuldade, a orientação é reduzir o ritmo ou retornar antes do fim. Com a evolução, a pessoa pode passar para o “Corre y Anda”, de 5 km, e seguir para grupos com ritmos maiores.
Crianças também participam, sempre ao lado dos pais. Famílias inteiras, pets e pessoas com carrinhos de bebê fazem parte dos encontros. A média de idade do grupo passa dos 30 anos. Para Fávaro, o crescimento do Arbok está ligado à busca por coletividade. “A corrida em si é um esporte individual, mas, em grupo, entra a parte da socialização, segurança e também o hype”, afirma. A proposta, segundo o fundador, é transformar a corrida em uma experiência de convivência.
Para manter o interesse dos participantes, o grupo promove corridas temáticas, sorteios, brindes e desafios. Também realiza eventos mensais, como o Corre das Mulheres, além de participar de provas oficiais com tenda e apoio aos corredores. A atuação do grupo também ultrapassa o esporte. Uma vez por mês, o Arbok promove um corre solidário, com arrecadação de alimentos para instituições de Mauá. A iniciativa já reuniu mais de 1,5 tonelada de alimentos.
Outra ação é o Desbrava Mauá, corrida pelas ruas da cidade com apoio da Secretaria de Trânsito. Segundo Fávaro, o Arbok foi pioneiro, entre os grupos que conhece, na realização de uma atividade desse tipo com auxílio do trânsito para garantir a segurança dos participantes. O grupo também oferece apoio a alguns corredores com roupas e inscrições para provas. Fávaro cita ainda a ajuda a trabalhadores da coleta de lixo de Mauá.
Com o crescimento do número de participantes, o Arbok passou a adotar um termo de responsabilidade obrigatório. A regra também reforça os cuidados com as crianças, que devem permanecer ao lado dos pais durante os percursos. A estrutura do grupo, no entanto, mantém a porta aberta para quem nunca correu. A recomendação de Fávaro é começar com calma, respeitar o próprio ritmo e avançar conforme o condicionamento melhora. Instagram: @arbok.club
Pertencimento ajuda na rotina, mas limite precisa ser respeitado
Na avaliação de Filgueira, a sensação de pertencimento pode ter papel decisivo para quem enfrenta dificuldade para manter uma rotina de exercícios. Com formação inicial em Filosofia, curso de Psicanálise e experiência em consultório antes da Educação Física, Filgueira relaciona a busca por grupos à necessidade humana de pertencer a uma “tribo”.
Para Filgueira, essa lógica aparece em diferentes espaços da sociedade, como igrejas, clubes, futebol, esportes e clubes de leitura. No exercício físico, o princípio se repete: encontrar pessoas com objetivos semelhantes pode ajudar na permanência da atividade. “A gente tende a precisar de uma tribo, de um senso de pertencimento. É essencial olhar e ver uma comunidade com os mesmos objetivos”, afirma.
Filgueira, porém, faz um alerta sobre o outro lado da motivação coletiva. A empolgação do grupo pode levar iniciantes a ultrapassar os próprios limites. O profissional cita situações no crossfit nas quais a pressão positiva dos colegas — com frases como “você consegue” e “é só querer” — pode fazer uma pessoa sem preparo buscar um desempenho incompatível com sua condição física. O resultado, segundo Filgueira, pode ser o chamado ego lifting, quando o praticante deixa de considerar sua condição real e tenta alcançar níveis próximos aos de atletas preparados.
Por isso, a recomendação é conhecer o próprio corpo, respeitar os limites e avançar de forma gradual. “Devagar e sempre”, resume. O profissional também chama atenção para a importância de exames de rotina e de avaliação médica antes do início de atividades que exijam maior esforço.
A socialização, na avaliação de Filgueira, também ganhou espaço dentro das academias. O professor afirma que muitas pessoas procuram esses ambientes não apenas pelo exercício, mas para encontrar amigos, conversar e participar da rotina social. “Academia se tornou evento social, um rolê onde todos se arrumam e comparecem para a resenha”, brinca.
Para Filgueira, o convívio é positivo, desde que não retire o foco do exercício e dos objetivos de cada pessoa. No ABC, os exemplos de Arbok Run Club e ABC Run mostram como essa lógica ganhou força na corrida de rua. Os participantes chegam em busca de atividade física, mas encontram também acolhimento, amizades, ações sociais, eventos e uma rede de pessoas com interesses semelhantes.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
