
A população em situação de rua cadastrada em Santo André aumentou 67,7% nos últimos três anos. Passou de 381 pessoas, em abril de 2023, para 639 no mesmo mês deste ano, segundo dados do Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal (CadÚnico).
O crescimento chama atenção para um problema que ultrapassa as fronteiras da cidade e atinge toda a região, com municípios que lidam com a circulação constante dessa população e demanda cada vez maior por assistência social.
Uma pessoa pode dormir em Santo André, buscar atendimento em São Bernardo, trabalhar em Diadema ou se deslocar para a Capital em busca de oportunidades, serviços ou vínculos familiares. Esse é um dos desafios enfrentados pelas prefeituras.
Essa característica torna o retrato da população em situação de rua mais complexo. Não existe, hoje, um número único e comparável para os sete municípios. As prefeituras utilizam diferentes indicadores, como CadÚnico, registros de abordagem social, atendimentos em Centros POP e Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e acolhimentos. Os números, portanto, não representam necessariamente pessoas diferentes nem podem ser simplesmente somados para chegar a um total regional.
Ainda assim, os dados disponíveis apontam para uma pressão crescente sobre a rede de assistência social. Em Santo André, além das 639 pessoas registradas no CadÚnico em abril deste ano, a média mensal de atendimento no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) chegou a 584 pessoas em 2026. O Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS), por sua vez, registra média de 238 pessoas abordadas por mês.
A Prefeitura ressalta que pode haver sobreposição entre os públicos atendidos pelos diferentes serviços e que os registros de atendimento não equivalem a um censo da população em situação de rua.
População que não cabe em um número
A dificuldade de estabelecer um número preciso não é exclusiva de Santo André. Em Diadema, por exemplo, os dados estão em processo de atualização devido à realização do Censo da População em Situação de Rua. No entanto, quem vive na cidade comenta observar cada vez mais pessoas em situação de rua. Alberto Carlos da Silva, de 64 anos, diz que no bairro onde, no Canhema, o número de moradores só cresce com o passar dos anos.
“Antigamente não tínhamos muitos moradores de rua e nem pedintes por aqui, mas desde a pandemia começaram a surgir e percebemos que esse número só cresce, ano após ano”, diz. Segundo o morador, a Prefeitura já foi acionada algumas vezes para realizar serviços de abordagem em sua rua e endereços adjacentes, mas a demanda continua. “Já vieram aqui para fazer abordagem, chegaram até a levar algumas pessoas, mas sempre voltam”, conta.
Deslocamento para cidades vizinhas
Em Rio Grande da Serra, a Prefeitura trabalha com os registros do Creas e aponta forte rotatividade desse público. Em 2024, a cidade tinha 34 pessoas referenciadas pelo serviço, mas o número caiu para 25 ano passado, mas já chegou a 40 em 2026. A Prefeitura afirma que não é possível atribuir o crescimento a uma causa específica, mas considera, entre as hipóteses, a possibilidade de deslocamento de pessoas de outras regiões da Grande São Paulo.
Já Mauá informa ter 251 pessoas em situação de rua referenciadas pela Secretaria de Assistência Social. Segundo a Prefeitura, houve aumento nos últimos três anos, associado à migração de outras cidades, às ações de busca ativa e a fatores como os impactos da pandemia, problemas de saúde mental, uso de substâncias psicoativas e conflitos familiares.
Em São Bernardo, as equipes municipais atendem, em média, 270 pessoas por mês em 2026. Em 2025, a média foi de 320 atendimentos mensais. A administração destaca que a cidade funciona como corredor entre a Capital e o litoral paulista, o que contribui para a circulação dessa população.
O que está por trás dos números?
Para o sociólogo, professor e historiador de Rio Grande da Serra, Henrique Correa Campos, o crescimento dos registros em Santo André precisa ser analisado a partir de um conjunto de fatores sociais e econômicos, mas também evidencia a necessidade de uma estratégia regional para lidar com uma população que não se importa com as divisas municipais.
“A situação de rua é resultado de um processo de vulnerabilização que envolve diferentes fatores. A perda do emprego e da renda, a dificuldade de acesso à moradia, o rompimento de vínculos familiares e questões relacionadas à saúde mental e ao uso de substâncias podem se somar e levar uma pessoa a essa condição. Por isso, não é possível olhar para esses números de forma isolada”, afirma.
Para o especialista, a própria dinâmica do ABC exige que o problema seja pensado para além de cada município. “Estamos falando de uma região metropolitana onde as cidades estão muito próximas e as pessoas circulam em busca de trabalho, atendimento, acolhimento e até de vínculos familiares. Se essa população circula entre os sete municípios, também é preciso pensar em políticas que acompanhem essa circulação”, explica.
Maior articulação regional
Nesse sentido, Campos defende uma maior articulação regional das ações de abordagem e atendimento. “Hoje, cada município organiza sua própria estrutura de abordagem e acolhimento, mas a situação de rua não termina na divisa da cidade. Seria importante discutir, dentro de uma estrutura, como o Consórcio ABC, a criação de estratégias regionais de abordagem, identificação e encaminhamento dessas pessoas, para que os municípios possam compartilhar informações e construir fluxos conjuntos de atendimento”, sugere.
Segundo o sociólogo, uma atuação regional poderia evitar que a pessoa em situação de rua seja tratada de maneira fragmentada conforme circula pelo território. “Não se trata de retirar a responsabilidade dos municípios, mas de criar uma rede regional capaz de acompanhar essas trajetórias. Se uma pessoa é atendida em Santo André hoje e amanhã está em São Bernardo ou Diadema, o atendimento não deveria começar do zero. É preciso construir mecanismos de articulação para que ela possa ter continuidade no acompanhamento”, ensina.
Abordagem e encaminhamentos
Diante desse cenário, as cidades mantêm uma rede que vai desde a abordagem nas ruas até o acolhimento e os encaminhamentos para trabalho, saúde e documentação. Em Santo André, o SEAS atua na abordagem social e o Centro POP oferece atendimento técnico, alimentação, banho, lavanderia, rouparia, oficinas, inclusão no CadÚnico, acesso a benefícios e encaminhamentos para outras políticas públicas. O município também mantém serviços de acolhimento para pessoas que necessitam de proteção.
São Bernardo conta com Centro POP, Casa de Passagem e Serviço Especializado em Abordagem Social. Durante períodos de frio, a capacidade de acolhimento é ampliada. O município também mantém o Consultório na Rua para atendimento de saúde. Em Mauá, a rede inclui Centro POP, abrigos, alimentação, atendimento social, Consultório na Rua, cursos de qualificação, Educação de Jovens e Adultos e encaminhamentos para oportunidades de trabalho.
Rio Grande da Serra concentra o atendimento no Creas e conta com Casa Abrigo durante períodos de baixas temperaturas. Diadema mantém Centro POP, acolhimento institucional e abordagem social.
Reinserção social
O objetivo, segundo as administrações municipais, não é apenas garantir abrigo ou atendimento emergencial, mas criar condições para que as pessoas recuperem documentos, reconstruam vínculos, tenham acesso a tratamento quando necessário e encontrem caminhos para geração de renda e moradia.
Para Henrique Correa Campos, esse é justamente o principal desafio. “É fundamental que assistência social, saúde, habitação, trabalho e geração de renda atuem de maneira integrada. O acolhimento é importante, mas é preciso criar condições para que essas pessoas possam reconstruir sua autonomia e tenham alternativas concretas para sair da situação de rua”, avalia.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
