
O ABC tem pelo menos três casos suspeitos de sarampo em investigação: um em São Bernardo e dois em Santo André, em um momento em que a cobertura vacinal permanece abaixo dos 95% recomendados pelo Ministério da Saúde para impedir a circulação do vírus.
Segundo especialistas, a queda da vacinação, impulsionada pela hesitação vacinal e pela disseminação de fake news, reduziu a proteção coletiva e aumentou o risco de novos surtos da doença.
Apesar do reforço das campanhas de imunização e das iniciativas adotadas pelos municípios, a cobertura vacinal ainda não atingiu a meta considerada ideal.
Ao RD, o infectologista Guilherme Barbosa, que atua nas unidades do Hospital Santa Helena do ABC, explica que a redução da cobertura vacinal nos últimos anos é o principal fator para o retorno da doença.
“Tivemos quedas importantes nas taxas de vacinação, impulsionadas por movimentos antivacina, pela hesitação dos pais e, mais recentemente, pelos impactos da pandemia de covid-19. Como o sarampo é extremamente contagioso, coberturas abaixo de 95% tornam inevitável o surgimento de surtos, especialmente quando há casos importados”, afirma.
Cobertura vacinal preocupa
Entre os municípios que responderam ao RD, São Bernardo apresenta a situação mais próxima da meta nacional, com cobertura de 92,20% para a primeira dose da vacina tríplice viral e 78,93% para a segunda, aplicadas em crianças de 12 e 15 meses, respectivamente. Em Santo André, os índices são significativamente menores: 37% para a primeira dose e 32% para a segunda.
Rio Grande da Serra informou que aplicou 581 doses da tríplice viral entre janeiro e julho de 2026, ante 384 no mesmo período do ano passado. Apesar do aumento, o município ainda precisa vacinar cerca de 100 pessoas do público-alvo para atingir a cobertura de 95%.
Já Diadema informou apenas que aplicou 8.219 doses da vacina até 29 de julho, sem divulgar o percentual de cobertura.
Desde janeiro, São Bernardo aplicou 12.189 doses da vacina contra o sarampo, além de 1.156 doses zero, adotadas após orientação do Ministério da Saúde para ampliar a proteção diante do cenário epidemiológico. Além disso, o município ampliou temporariamente o público-alvo da vacinação.
Dose extra em São Bernardo
Como medida preventiva, São Bernardo passou a oferecer a vacina tríplice viral para todas as pessoas entre 6 meses e 59 anos, independentemente da situação vacinal. A estratégia busca ampliar rapidamente a proteção da população diante do risco de circulação do vírus.
Segundo o infectologista Guilherme Barbosa, a oferta da dose adicional funciona como uma estratégia de reforço temporário da imunidade, mas não substitui o esquema vacinal previsto no Programa Nacional de Imunizações.
“A dose extra funciona como um reforço temporário da imunidade, mas o mais importante é receber as duas doses previstas no Programa Nacional de Imunizações. Adultos vacinados com esquemas antigos também devem ser revacinados para garantir uma proteção equivalente aos calendários atuais”, explica.
A orientação também vale para pessoas que moram em outros municípios, mas circulam diariamente por São Bernardo para trabalhar ou estudar.
A dose adicional não deve ser aplicada em gestantes nem em pessoas imunossuprimidas. Já para pessoas com 60 anos ou mais, a revacinação não é recomendada, pois a maior parte dessa população provavelmente já teve contato natural com o vírus ao longo da vida e desenvolveu anticorpos.
Sintomas e grupos de maior risco
O sarampo costuma provocar febre alta, manchas vermelhas pelo corpo, tosse, coriza e conjuntivite. Segundo Barbosa, crianças menores de cinco anos, gestantes e pessoas imunossuprimidas estão entre os grupos mais vulneráveis às complicações da doença.
“Pacientes com HIV, pessoas em quimioterapia, transplantados, além de crianças menores de cinco anos e idosos, têm maior risco de desenvolver formas graves da doença e complicações como pneumonia, otite e até comprometimento neurológico”, alerta.
O especialista orienta procurar atendimento médico caso a febre persista por vários dias, haja piora dos sintomas respiratórios ou apareçam sinais como confusão mental, convulsões ou rebaixamento do nível de consciência.
Multivacinação segue até setembro
As ações de combate ao sarampo ocorrem paralelamente à Campanha Nacional de Multivacinação, iniciada nesta segunda-feira (3). A mobilização segue até 1º de setembro e terá um Dia D em 22 de agosto, quando as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ampliarão o atendimento para facilitar o acesso às vacinas.
A campanha é voltada para crianças e adolescentes de até 14 anos, 11 meses e 29 dias, com foco na atualização da carteira vacinal e na identificação de doses em atraso.
A vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola e integra o Calendário Nacional de Vacinação.
Meta é superar 95%
Para o infectologista, manter altas coberturas vacinais é a única forma de impedir novos surtos. “O sarampo permanece por longos períodos no ambiente e é altamente transmissível pelas vias respiratórias. Quanto mais próxima de 100% estiver a cobertura vacinal, menor será a possibilidade de novos surtos. Mesmo os 95% recomendados pela Organização Mundial da Saúde podem não ser suficientes em algumas regiões, por isso é fundamental ampliar ainda mais a vacinação”, destaca.
A vacina contra o sarampo está disponível gratuitamente em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da região.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
