
São Bernardo planeja fazer amplo censo para levantar quantos moradores estão envolvidos com a agricultura urbana e periurbana no município, trabalho que poderá ser realizado junto com a Universidade São Judas, com a qual busca parceria.
O objetivo é levantar quantas hortas existem, número de pessoas envolvidas e idade, quais as dimensões das áreas destinadas ao cultivo, o que produzem e dificuldades enfrentadas, a fim de desenvolver políticas públicas para impulsionar o trabalho e fortalecer redes de cooperação entre os agricultores urbanos.
A iniciativa é a segunda etapa de um processo que começou em setembro de 2025, quando a Prefeitura deu passo importante com foco na estruturação de uma política municipal de agricultura urbana e periurbana, com a participação de profissionais da administração em curso de formação da FGVces (Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas). O processo de capacitação resultou na criação de um grupo formado por servidores públicos e sociedade civil organizada, inclusive com agricultores locais, para discutir e desenvolver projetos piloto com apoio da FGV.
Um dos projetos foi a realização de um estudo piloto, em parceria com a FGV, que envolveu 31 agricultores de São Bernardo que atuam nas regiões das vilas Vivaldi e São Pedro para embasar a realização do censo. O levantamento permitiu levantar dados acima das questões preliminarmente definidas no escopo do projeto-piloto.
O levantamento mostrou, por exemplo, alguns aspectos sociais dos agricultores que são relevantes para a análise da agricultura urbana e periurbana no município. Segundo o levantamento, homens formam a imensa maioria da força de trabalho nas hortas, com 77%, enquanto as mulheres representam 23%. Com relação à faixa etária, 45% têm acima de 65 anos, 38,7% têm entre 56 e 65, o que indica uma população majoritariamente idosa entre esses trabalhadores. Outros 12,9% estão na faixa de 36 a 45 e 3,2% têm de 46 a 55 anos.
“O perfil do agricultor traçado por este censo aponta a necessidade de um olhar atento para a questão etária. Como a maioria das pessoas é idosa e trabalha sob condições de exposição prolongada ao sol, muitas vezes permanecendo longos períodos em pé, observa-se que o local das hortas frequentemente não oferece condições mínimas de conforto, como sombra ou bancos para descanso. Nesse sentido, seria interessante oferecer ou estimular alternativas para melhorar o conforto dessas pessoas, como o uso de protetor solar, bonés e garrafas de água, além de estruturas de descanso”, aponta trecho do relatório preparado pela equipe da Secretaria de Meio Ambiente com base nos resultados da pesquisa.
Produção variada
O estudo realizado junto a agricultores que atuam em hortas das duas regiões apontou variedade considerável de alimentos produzidos, com destaque para hortaliças, frutas, plantas condimentosas, medicinais e plantas alimentícias não convencionais (Pancs). Ainda segundo o levantamento e explicado no relatório, 77,4% deles comercializam a produção, e 92% das vendas são realizadas de forma direta aos consumidores. Entre os que não vendem seus produtos, 37,5% têm a intenção de comercializar.
Em números absolutos, 24 dos entrevistados afirmaram vender seus produtos. Contudo, apenas 20 declararam possuir renda proveniente da agricultura, o que se explica pelo fato de que alguns agricultores vendem uma quantidade pequena de mercadoria e não consideram esse valor parte da própria renda. Revela ainda que apenas 11 dos 31 entrevistados possuem renda proveniente da agricultura superior a 25% da renda familiar. Ou seja, trabalhar com agricultura urbana ainda não impacta de forma significativa na geração de renda da maioria dessas famílias.
O trabalho também revelou que os agricultores têm dificuldade no escoamento da produção, inclusive em casos de doação, na medida em que há episódios de alimentos serem descartados por haver oferta maior que a demanda. Em outras situações, os produtos se esgotam rapidamente, o que pode variar também conforme o tipo de alimento. Esse cenário é reforçado pelo fato de a maior parte das vendas ser realizada por meio do contato direto com moradores do entorno das hortas, o que pode dificultar o acesso a mercados que exigem fornecimento periódico e regular, aponta o relatório.
Todos esses pontos e outros apontados no relatório produzido a partir dos levantamentos de campo foram apresentados a agricultores urbanos e periurbanos de São Bernardo na tarde de terça-feira (7/7), durante encontro na chamada ‘Horta do Profeta’, localizada em área de dutos da Transpetro na Vila Vivaldi. Organizado pela Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Proteção Animal, foi planejado também para permitir a troca de experiências e fortalecimento do segmento em São Bernardo, assim como orientações sobre dois temas que podem beneficiar os trabalhadores: Cadastro da Agricultura Familiar (CAT) e feiras agroecológicas.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
