A inadimplência na região cresceu 8% nos últimos 12 meses, segundo o SPC Brasil. A pesquisa compilada pela CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de São Caetano, aponta que o valor médio da inadimplência na região é de R$ 5.889,06, mas a maioria das dívidas, 38,69%, são de até R$ 1 mil. Em média o inadimplente da região leva dois anos e meio para resolver suas pendências financeiras. Para o economista e presidente da CDL sancaetanense, Alexandre Damasio Coelho, sem políticas públicas claras e coercitivas de educação financeira, as famílias tentem a repetirem dívidas e nunca saírem deste ciclo.
Coelho aponta que a inadimplência caiu de janeiro para cá, mas por fatores já conhecidos da economia, visto que início de ano traz de arrasto dívidas das festas de fim de ano e despesas de tributos, como IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículo Automotor) além de despesas com material escolar e matrículas.
“A gente vem de queda na inadimplência, em janeiro, que era de quase 16%, estamos em 8,33% em comparativo, mas isso continua não sendo bom. O problema é que o espelhamento de janeiro vem das contas extraordinárias de fim de ano, vem dos excessos de Black Friday, que acontece em novembro e vão entrar na negativação exatamente em janeiro. Agora se tem uma taxa mais quotidiana, não tem mais grandes eventos de compra, mas sim eventos quotidianos. Esse apontamento de aumento de 8% atravessa o período do semestre em queda, mas no período de três anos, nós continuamos avançando na inadimplência da região”, diz o presidente da CDL.

A inadimplência variou mais em Santo André, onde subiu 10,13%, o que puxou para cima a média do ABC de 8,33%. Em Ribeirão Pires a inadimplência cresceu 8,30%, em Rio Grande da Serra subiu 8,05%; em São Bernardo a alta foi de 7,81%; depois 7,66% em São Caetano; 7,65% em Diadema e em Mauá a alta ficou em 7,34%. “Em cidades a gente vai fazer um comparativo por empregabilidade, para depois ver se a criação de empregos tem sido suficiente para o pagamento de dívidas, então não é porque você tem empregabilidade na cidade que se tem a remuneração adequada para aquele condicionamento social. Tem reflexo do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), de empregabilidade e onde estamos alocando os novos empregos. Na macroeconomia a gente tem juros altíssimos, cesta básica cara e, ainda, perdurando o endividamento das famílias. Então é a bomba perfeita”, analisa Damásio Coelho.
Segundo o economista a opção de crédito, quase nunca barato, tem sido a opção das famílias e com isso vem o endividamento e a inadimplência. “A inadimplência é o final de uma ação econômica que nasce com a tomada de crédito, então quanto mais tomada de crédito, quanto mais rica a cidade, maior a oferta de crédito e aí isso reflete proporcionalmente na inadimplência”, analisa. No caso de Santo André ter registrado uma alta maior da inadimplência essa pode ser a explicação. “A cidade tem população maior, maior taxa de empregabilidade no decorrer do tempo, portanto maior concessão de crédito. Esse é o principal fator. Você condiciona a concessão de mais crédito quando se tem uma empregabilidade que paga mais”, explica.
Damasio Coelho chama atenção para São Caetano onde a dívida média aumentou acima de dois dígitos e hoje está em R$ 7.142,81, a maior média da região. “A São Caetano que deve aumentou quase 14% o valor da dívida em relação há um ano. A cidade tem grande parte da população que vive de aposentadoria e a gente consegue ver o aumento da dívida por conta do sistema financeiro. Hoje o aposentado sofre uma série de assédios; é o consignado, é o cheque especial mais barato, limite maior, e hoje ele continua arcando com despesas que talvez não tivesse um tempo atrás. São Caetano é o reflexo do empobrecimento de uma população nativa. Quando se faz o recorte dos mais velhos é uma população nativa que não produz mais renda ou tem produzido renda cada vez menor”.
O custo de vida também é parte importante do endividamento e inadimplência. “Em São Caetano o peso dos impostos são muito maiores, é uma cidade mais regulada, não se tem áreas ocupadas. Os impostos como o IPTU, os aumentos da conta de luz, o preço da cesta básica, influenciam enquanto você tem uma faixa grande da população que perdura com a mesma receita”, diz o presidente da CDL.
Desemprego
Para Coelho ter quase 40% da população que deve até R$ 1 mil parece pouco, mas quando se fala da massa salarial, com pessoas que ganham um salário mínimo de R$ 1,7 mil é muito representativo. “A pessoa precisa ficar três meses e meio sem comprar nada, sem comer nada, para quitar”.
Para quem deve pouco, mas esse pouco representa muito na sua renda, a flutuação do nível de emprego é muito significativa, na análise do economista e presidente da CDL sancaetanense. “O trabalhador que fica seis meses no seguro desemprego, não vai usar para pagar dívida, porque esse é um valor de subsistência, aí se percebe como o impacto do desligamento acaba sendo importante para o acúmulo destas dívidas até R$ mil. Uma cidade que paga muito mais se preocuparia menos com o tíquete da dívida. Com a desindustrialização a região passa a ter um novo patamar de salário, que é muito inferior ao da indústria”, aponta.
“Essa realidade ingrata de diminuição de empregos de qualidade e aumento do efeito do empreendedorismo é maléfica. Historicamente não se tem faculdade para virar empresário. O dinheiro mais barato para investir é o da rescisão, mas se já está endividado o banco come uma parte. Aí ele,que adora comer pizza, tem a ideia de montar uma pizzaria, sem saber como administrar aí é uma confusão. Por isso se tem que fazer educação financeira dentro das empresas e também como política pública”, diz Coelho ao criticar a inércia de governos. “Quando oferece oportunidade de quitar dívida de impostos, como os Refis, tem que explicar que parcelamento é dívida e impacta no orçamento. Tem que fazer o contribuinte assistir um vídeo de 5 minutos, nem que seja pelo whatsapp, tem que ser coercitivo”, continua.
Saúde
Alexandre Damasio Coelho aponta que 86% das pessoas têm impacto físico das dívidas que contrai. Isso leva a perdas ainda maiores para essas pessoas, para as empresas e para a saúde pública também. “Na empresa tem o presenteísmo, que é o funcionário que está lá na empresa, mas pensando em pedir a conta para pagar as dívidas, esse não produz mais com qualidade. Tem também o absenteísmo, é aquele que já não vai, que está com Burnout, está completamente esgotado fisicamente por conta das dívidas. O departamento de Recursos Humanos percebe isso, essas características de adoecimento são gravíssimas”.
BETs
Não bastassem a falta de uma educação financeira, o assédio de bancos e financeiras oferecendo crédito consignado, empréstimos ainda tem as lojas virtuais de apostas, as BETs, que chegam para garfar mais uma fatia do já disputado bolso do trabalhador. Para o economista da CDL os danos são grandes, mas ainda não estão mensurados.
“A BET é um mau econômico que a gente não consegue ainda mensurar. Se o trabalhador comprava 12 pães para uma família, se ele apostar R$ 10 na BET volta para casa só com quatro pães. Então as pessoas mais humildes estão indo fazer compras e não têm mais dinheiro para comprar a mesma quantidade de coisas. O índice Scielo do ramo de padaria mostra que as pessoas estão indo com menos dinheiro para a padaria. A BET faz parte deste empobrecimento sistêmico”, sustenta Coelho.
O presidente da CDL de São Caetano diz que é importante investir na educação financeira nas escolas, mas não há tempo para esperar a chegada desses consumidores preparados ao mercado, devem ser tomadas providências já para estancar esse endividamento. “Tem que ter uma grade de educaçao financeira para expor pequenas pílulas de educação financeira”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
