A superdotação, também conhecida como altas habilidades, vai além da facilidade para aprender ou do bom desempenho escolar. A condição, marcada por um potencial acima da média em áreas como raciocínio, criatividade e linguagem, também pode estar associada a desafios emocionais e sociais quando não é identificada e acompanhada adequadamente.
Em entrevista ao RDtv, a psiquiatra e professora da Faculdade São Leopoldo Mandic, Leticia Amici, explica que as altas habilidades não são consideradas um transtorno e alerta para a importância de diferenciar essa característica de outros diagnósticos.

“Estamos falando de uma condição dentro da normalidade. São indivíduos que apresentam esse potencial diferenciado, mas isso não é entendido como um transtorno ou uma doença”, afirma.
A especialista ressalta que a presença de altas habilidades não exclui a possibilidade de outros diagnósticos, como autismo ou TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Segundo ela, a superdotação pode, inclusive, mascarar sinais desses transtornos, dificultando a identificação dos sintomas.
As altas habilidades costumam ser identificadas com mais facilidade a partir dos seis anos de idade e podem estar associadas a capacidades elevadas em áreas como raciocínio lógico, criatividade, memória e linguagem. Leticia destaca, no entanto, que a avaliação não se restringe ao desempenho acadêmico.
“Antigamente, dependíamos muito da medida da inteligência por meio do QI. Hoje sabemos que a superdotação vai além desse indicador, porque entendemos que a inteligência não é apenas acadêmica”, explica.
Pessoas com altas habilidades costumam aprender com mais facilidade e, muitas vezes, são autodidatas. Na infância, porém, algumas podem ser vistas como desinteressadas, “problemáticas” ou emocionalmente difíceis, justamente por terem dificuldade de se adaptar a ambientes com poucos estímulos. De acordo com a psiquiatra, é importante que os pais estejam atentos, já que essa situação pode gerar impactos na vida adulta.
Entre as principais consequências estão dificuldades no desenvolvimento emocional, sensação de não pertencimento, excesso de cobrança e inadequação constante. Além disso, essas pessoas podem conviver com ansiedade intensa, perfeccionismo, isolamento social e sofrimento psíquico.
“Essa característica pode gerar ansiedade. Elas querem fazer tudo em um padrão muito elevado e tendem ao perfeccionismo. São crianças que se cobram demais, o que pode aumentar a ansiedade e, eventualmente, levar à depressão”, relata a professora.
Na vida adulta, as habilidades cognitivas, como raciocínio lógico, criatividade e memória, permanecem. No entanto, os desafios emocionais podem se manifestar de outras formas.
“São pessoas que passam a perceber melhor o ambiente, captar detalhes que a maioria não percebe e, às vezes, interpretar situações além do necessário. Isso pode favorecer quadros de ansiedade mais graves ou dificultar a adaptação social, já que seus interesses costumam ser muito diferentes dos das outras pessoas, o que também pode levar à depressão”, afirma.
Entre os sinais que merecem atenção estão ansiedade excessiva, perfeccionismo intenso, medo constante de errar, sensação de inadequação social, isolamento, dificuldade para criar vínculos, hipersensibilidade emocional, frustração diante de ambientes pouco estimulantes, oscilações de humor, irritabilidade e exaustão emocional.
A psiquiatra também recomenda o acompanhamento terapêutico desde a infância para ajudar no desenvolvimento emocional e evitar que o sofrimento psíquico se intensifique ao longo da vida.
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