
Um estudo internacional publicado em maio na revista científica Nature trouxe avanços importantes na compreensão do envelhecimento cerebral e sua relação com doenças neurodegenerativas. A pesquisa contou com a participação do neurologista Renato Anghinah, professor titular do Centro Universitário FMABC e referência nacional em neurologia cognitiva e eletroencefalografia.
O trabalho utilizou registros de eletroencefalogramas (EEG) associados a modelos de inteligência artificial para identificar diferenças entre a idade cronológica das pessoas e a chamada “idade cerebral”. Segundo os pesquisadores, essas discrepâncias podem indicar processos ligados à neurodegeneração e também refletem desigualdades sociais e fatores de saúde que impactam diretamente o cérebro.
O estudo analisou a atividade cerebral de 1.228 participantes de 10 países, com indivíduos saudáveis, pessoas com comprometimento cognitivo leve (MCI) e pacientes com doença de Alzheimer ou demência frontotemporal. A partir da análise das chamadas oscilações alfa do EEG (relacionadas a funções cognitivas como atenção, memória e processamento mental), os pesquisadores observaram que pacientes com doenças neurodegenerativas apresentaram envelhecimento cerebral acelerado em comparação à idade cronológica.
Outro achado considerado relevante foi a constatação de que fatores ligados à desigualdade estrutural tiveram impacto ainda maior sobre o envelhecimento cerebral do que aspectos como escolaridade, cognição e sexo.
De acordo com Renato Anghinah, os resultados reforçam a importância de analisar o envelhecimento cerebral também sob a perspectiva social. “O estudo conclui que, por meio do EEG, conseguimos demonstrar que o envelhecimento cerebral varia conforme os níveis de vulnerabilidade social, tanto do ponto de vista econômico quanto educacional e nutricional. Isso é importante porque permite identificar esse padrão com um equipamento de baixo custo”, destaca.
Formulação de políticas públicas
O pesquisador também ressalta o potencial das descobertas para a formulação de políticas públicas. “É um achado relevante por apontar caminhos para ações que os governos podem adotar em países com condições econômicas adversas”, afirma.
A pesquisa integra um amplo esforço colaborativo internacional com pesquisadores da América Latina, Europa e Estados Unidos. “Essa colaboração entre os países vem de longa data. Trata-se de um consórcio chamado Eurolat, composto por mais de 15 países. Tenho a honra de representar o Brasil e o Centro Universitário FMABC”, explica Anghinah.
Segundo o neurologista, investir em estudos dessa natureza é fundamental para compreender como as desigualdades sociais impactam diretamente a saúde cerebral da população. “É importante investir em pesquisas dessa natureza para quantificar o impacto dessas diferenças sociais no envelhecimento cerebral e pensar em soluções para reduzir esse impacto”, conclui.
Os autores apontam que a utilização do EEG como ferramenta de avaliação pode representar um caminho mais acessível e escalável para o rastreamento populacional de doenças neurodegenerativas, especialmente em regiões com poucos recursos e menor acesso a tecnologias avançadas de diagnóstico.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
