
São Paulo, setembro de 2026. Uma mulher preta arquiteta e urbanista tem 91% menos chances de alcançar as faixas de renda média-alta da profissão do que um homem branco com perfil educacional equivalente no estado de SP. O dado integra a pesquisa Diversidade na Arquitetura e Urbanismo no Estado de São Paulo, realizada pelo Cebrap por encomenda do CAU/SP, com metodologia mista: survey com 2.003 profissionais registrados no Conselho e cinco minigrupos focais com arquitetos, empregadores e representantes de entidades do setor.
Desigualdades construídas na formação
Profissionais pardos e pretos concluem a graduação significativamente mais tarde do que brancos: pardos têm cerca de cinco vezes mais chances de ter formado após 2011, dado compatível com o impacto das políticas de democratização do ensino superior. Os custos do curso, como maquetes, plotagens, softwares, deslocamentos e alimentação, foram descritos nos grupos focais como proibitivos para estudantes de menor renda. A carga horária integral, combinada à necessidade de trabalhar para se manter, limitou o acesso a viagens técnicas, intercâmbios e cursos complementares valorizados no mercado.
O ambiente acadêmico é descrito como racialmente homogêneo e hostil. Relatos nos grupos focais incluem presença de apenas um ou dois estudantes negros por turma, reprovações percebidas como motivadas por preconceito e ao menos um caso em que a mobilização estudantil resultou na exoneração de um docente após denúncia formal de racismo.
Redes e elitismo estruturam o acesso ao mercado
A inserção profissional depende fortemente de indicação pessoal. Empregadores descreveram como prioritária a contratação por redes de confiança previamente constituídas, favorecendo quem já circula nos círculos estabelecidos da profissão. A instituição de formação também opera como filtro: faculdades “tradicionais” são associadas a maior preparo técnico, mesmo sem evidência empírica que sustente essa generalização.
Para profissionais negros, o cenário se agrava pela discriminação nos próprios processos seletivos. Participantes dos grupos focais relataram casos em que recrutadores demonstraram surpresa ao constatar, na entrevista presencial, que a candidata qualificada era uma mulher negra. O canteiro de obras aparece como espaço de assédio sistemático: episódios de assédio sexual foram relatados espontaneamente por três participantes, todas havendo mudado de área de atuação após os incidentes.
Recomendações
A pesquisa conclui com agenda construída em cocriação com a Comissão de Políticas Afirmativas do CAU/SP (CPAF). As frentes prioritárias incluem: ampliar o acesso de estudantes negros ao mercado durante a graduação por meio de estágios com recorte afirmativo; revisar práticas de recrutamento dependentes de redes informais; fortalecer mecanismos de enfrentamento ao assédio e à discriminação; e institucionalizar a agenda de diversidade no CAU/SP como política permanente. O estudo também recomenda transformações curriculares que incluam arquitetura africana e trajetórias de profissionais negros e indígenas historicamente invisibilizados.
Sobre a pesquisa
A pesquisa Diversidade na Arquitetura e Urbanismo no Estado de São Paulo: desigualdades, barreiras e oportunidades para uma agenda de inclusão e equidade foi realizada pelo Cebrap por encomenda do CAU/SP e da CPAF-CAU/SP, no âmbito do Programa de Ações Afirmativas aprovado em julho de 2024. Coordenação quantitativa: Victor Callil e Luiz Felipe dos Anjos. Coordenação qualitativa: Monise Fernandes Picanço, Gabriela Trindade e Sabrina Guimarães. Coordenação geral: Tomás Wissenbach. O documento integral está disponível no portal de transparência do CAU/SP.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
