ABC - sexta-feira , 10 de julho de 2026

Reembolso, convênio e projetos sociais são saídas para custear terapia de TEA

Tratamento para TEA depende de laudo bem fundamentado e terapias multidisciplinares com profissionais especialistas. (Foto: Divulgação)

O tratamento para o TEA (Transtorno do Espectro Autista) envolve uma série de terapias, nem sempre encontradas na rede de saúde pública. O custo destes tratamentos é elevado e o RD já mostrou em reportagens reclamações de pais que tiveram o convênio cancelado unilateralmente após encaminhamento para terapias. Em geral os pacientes conseguem retomar o tratamento por liminares na Justiça. Mas o atendimento por plano de saúde em clínicas conveniadas ou por reembolso é ainda o meio mais comum de atendimento, mas há opções que podem ser negociadas de forma particular ou entidades assistenciais que fazem esse trabalho, mas com longa fila de espera.

As principais terapias encontradas nas clínicas são: ABA (Applied Behavior Analysis ou Análise do Comportamento Aplicada), Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia e Musicoterapia entre outras. A frequência também é importante segundo os especialistas ouvidos pelo RD, além do envolvimento da família no tratamento, dois fatores cruciais para o avanço no aprendizado, autonomia e autocontrole do paciente.

O avanço dos diagnósticos, o preparo das redes de educação e saúde para a identificação das necessidades dos alunos e os laudos mais precisos são fatores que aumentaram a procura pelas clínicas e a demanda também pressiona preços. Há também uma percepção de que há mais casos surgindo, além de apenas mais diagnósticos. Na esteira, novas clínicas também surgiram no ABC nos últimos anos para dar vazão à demanda.

Mais frequência nas terapias

Segundo a psicopedagoga e coordenadora da clínica Potencializa, em Santo André, Aline Ferracini, os pacientes com TEA, precisam de frequência nas terapias, só assim vão conseguir melhor interação, avanços na sua autonomia e, para os não verbais, o início das primeiras palavras e frases, mas nem sempre isso se consegue pelo SUS e no particular nem sempre se consegue todas as terapias num mesmo lugar ou a família consegue arcar com esse custo.

A Potencializa criou um plano de tratamento, como um programa social, a custo mais acessível que pode variar de R$ 800 a R$ 1 mil conforme o plano de trabalho. “Nem sempre se encontra as terapias ABA, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional no SUS, e quando consegue não passa de 45 minutos semanais, quando o ideal é pelo menos duas horas de terapia uma vez por semana. Dessa forma já se tem resultado de acordo com o feedback que recebemos das famílias”, explica a especialista.

Cada caso é único e por isso cada paciente em um plano de trabalho específico, por isso os custos variam. “A gente analisa o déficit da criança e cria um plano. Se não é verbal tem de ser trabalhada a comunicação, se ela tem comportamento disruptivo, precisa trabalhar esse controle. O custo é elevado porque o estudo individualizado exige muito do profissional. Tem paciente que pode ser trabalhado em grupo, outros só individualmente”, diz Aline. O papel da família é fundamental para o resultado das terapias. Além do trabalho na clínica tem os exercícios para fazer em casa e a família precisa participar.

Na clínica, o reembolso também pode funcionar para famílias com convênio médico. “O mais importante é a informação; a família tem de ser acolhida e ter todas as informações e opções de terapias”, completa a psicopedagoga da Potencializa.

Uma das clínicas que surgiu recentemente na região e já precisou ampliar instalações diante da demanda é a Speranza, em Diadema. Segundo Cláudia Ribeiro, diretora clínica e proprietária, recentemente os atendimentos mudaram de endereço para um lugar mais amplo e, ainda assim, planeja abrir nova unidade. “Porém, neste momento, nossa prioridade é fortalecer e cuidar da unidade atual, garantindo que cada atendimento continue sendo realizado com acolhimento, atenção individualizada e foco na evolução e no desenvolvimento de cada paciente”, explica.

O crescimento da demanda motivou o investimento recente. A demanda por terapias voltadas a neurodivergentes tem crescido significativamente e isso já é perceptível dentro da nossa clínica, devido à grande procura por visitas e às mensagens que as famílias nos enviam com pedido de informações sobre as terapias. “Hoje as pessoas têm mais acesso a informações sobre a neurodivergência. Com isso, famílias e escolas conseguem perceber sinais com maior facilidade e encaminham a criança para uma avaliação médica e terapêutica, o que permite confirmar uma suspeita diagnóstica ou identificar casos que antes passavam despercebidos”, diz.

Clínica Speranza, que fica em Diadema. (Foto: Divulgação)

A gestora da clínica Speranza diz que hoje também há uma conscientização maior sobre o TEA e isso contribui para que tratamentos comecem mais precocemente com maior chance de resultados. Observa dois cenários: pais que percebem os sinais precocemente e buscam ajuda profissional rapidamente, mas também os que ainda apresentam dificuldade para identificar alguns sinais.

“E isso não está necessariamente errado, pois muitos alimentam a esperança de que determinada dificuldade seja apenas uma fase da idade da criança e que irá passar naturalmente, quando, em alguns casos, não é o que acontece. Por isso, é muito importante que os pais recebam incentivo e orientação dos próprios familiares, amigos e da escola, para que a busca por avaliação e acompanhamento especializado aconteça o quanto antes”, afirma.

Cláudia Ribeiro diz que a clínica quer ampliar a gama de terapias. Tem planos de incluir novas modalidades terapêuticas, como a musicoterapia e a equoterapia que auxilia na melhora do equilíbrio, da postura e da coordenação motora, além de promover socialização, autoconfiança e diversos outros benefícios. A proposta é que seja em São Bernardo. A proprietária da clínica Speranza não fala em valores, mas diz que a clínica trabalha com reembolso, em que a família faz o pagamento e depois pede reembolso do plano de saúde, que pode ser parcial ou total, conforme a operadora.

Gratuito

Inaugurado em 2023 pela empresária Cinthia Fernandes Albuquerque, o Incca (Instituto Nacional a Crianças Carentes Autistas), com sede em Santo André, oferece as terapias gratuitamente para pessoas de baixa renda através de doações e patrocínios. Mas a fila de espera é grande. O instituto prioriza crianças de até 14 anos cujas famílias se encontrem em extrema vulnerabilidade social, com renda igual ou menor a de um salário mínimo.

“São crianças muito pobres, por isso, além do tratamento, uma vez por semana as famílias retiram também um cesta básica, que montamos com doações. Também recebemos doações de roupas e calçados”, diz a empresária. A sede da entidade fica na avenida Dom Pedro I, 2419, na Vila América. O instituto recebe doações através da chave PIX 53.070.674-0001-29. Mantimentos e roupas podem ser doados na sede da entidade.

O que analisar na hora de escolher a clínica? 

A neuropsicóloga, psicopedagoga e coordenadora do NEA-FMABC (Núcleo Especializado em Aprendizagem da Faculdade de Medicina do ABC), Alessandra Caturani Wajnsztejn, explica o que os pais precisam saber na hora de escolher a clínica para as terapias.

Neuropsicóloga Alessandra Caturani, docente da FMABC. (Foto: Divulgação)

Alessandra diz que independente de qualquer quadro do transtorno do desenvolvimento é importante observar se a clínica está regulamentada frente aos conselhos como o Conselho Regional de Psicologia, de Fonoaudiologia, ou de Medicina, caso ela seja multidisciplinar. Ter indicações das escolas ou de médico que já acompanham a criança ou mesmo de profissional da área multidisciplinar.

Importante saber se os profissionais são formados e especialistas no Transtorno do Espectro Autista, se há um supervisor técnico e se a clínica também se atualiza. “No NEA estamos em constante formação, temos mestres e doutores especialistas, portanto no diálogo com a clínica é preciso saber sobre as especialidades e formações”, orienta Alessandra.

A coordenadora do NEA-FMABC sustenta que o ideal é que as terapias ocorram sempre que possível no mesmo local, pois, dependendo do nível de suporte que o autista está, os deslocamentos muito longos ou diversos trajetos entre clínicas pode trazer distúrbios comportamentais. “No nível 2 e 3, a gente sabe que o deslocamento é um fator importante para o paciente. Uma consulta médica a distância para nível 3 pode oferecer desafios importantes e quando se tem uma clínica que consegue agregar uma avaliação multidisciplinar isso pode ser muito favorável. Se agregar as mesmas terapias e os profissionais tendo diálogo entre si, isso, sem dúvidas, será um fator favorável, mas não necessariamente regra”, analisa.

A busca na internet sobre o currículo dos profissionais e nos conselhos regionais de cada especialidade é indicada por Alessandra. “Hoje a possibilidade de termos conexão de plataformas nos permite termos informações dos profissionais. O que considero mais importante é que, na visita às clinicas, que o diálogo seja aberto, que perguntem sobre graduação, especialização, e cursos de especialização”, ensina.

“A gente acredita que todo procedimento de avaliação ou intervenção não feito por especialista podem impactar a qualidade da avaliação, afetar diagnóstico e influenciar no prognóstico. Não ser especialista nos traz uma possibilidade muito maior de ter um falso positivo ou falso negativo, e tomar decisões que podem não ser favoráveis para o paciente podendo ocasionar regressão e piora no quadro”, completa Alessandra.

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