
A advogada, escritora, palestrante e consultora parlamentar Natalia Viotti esteve em Ribeirão Pires para visita institucional ao prefeito Guto Volpi. Nesta quinta-feira (02/07) no Paço Municipal, durante o encontro, foram discutidas ações voltadas à inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com destaque para os desafios enfrentados por adultos autistas e a necessidade de ampliar o acesso à informação, ao diagnóstico e às políticas públicas.
Diagnosticada com autismo aos 38 anos, Natalia transformou sua história em uma missão de conscientização. Ao compartilhar sua experiência pessoal e profissional, ela defendeu que o acolhimento das pessoas autistas depende da união entre sociedade e poder público e anunciou a intenção de levar sua editora para a Feira Literária de Ribeirão Pires (FLIRP).
Com uma atuação que reúne Direito, literatura, educação e consultoria legislativa, Natalia Viotti desenvolve um trabalho voltado à construção de políticas públicas e à conscientização sobre o autismo. Além de advogada e palestrante, ela auxilia parlamentares na elaboração de projetos de lei e na formulação de propostas voltadas à inclusão.
Durante a visita, Natalia explicou que sua atuação nasceu da própria vivência. “Eu sou uma mulher autista e o meu diagnóstico só veio aos 38 anos de idade. Hoje estou fazendo 43. É uma vida de prejuízos, e não sou só eu. Muitas mulheres também recebem seus diagnósticos já na idade adulta”, afirmou. “Não ter o diagnóstico na época certa tira da pessoa a oportunidade de pertencer à sociedade. O autista adulto nível 1 de suporte sofre em casa, onde ninguém vê. Quem está de fora costuma dizer: ‘não parece autista’. Mas deficiência não é aquilo que necessariamente está visível”, completou.
A advogada destacou que precisou reconstruir completamente sua trajetória profissional após compreender sua condição. “Eu tive que reestruturar toda a minha vida profissional, jogar a carreira praticamente para o alto. Trabalhei em grandes escritórios de advocacia e precisei redesenhar o meu futuro. Tudo aquilo que eu imaginava que seria não vai acontecer, porque eu simplesmente não consigo.”
Ela também explicou que a facilidade para falar em público ou escrever não elimina os desafios diários. “As pessoas olham para mim falando e pensam que está tudo bem. Mas comunicação e escrita são o meu hiperfoco. É claro que nisso eu sou boa. Isso não afasta os prejuízos em casa, nem a necessidade de ficar horas em silêncio para conseguir me recuperar.”
Natalia chamou atenção para a falta de conhecimento sobre o autismo adulto e para os impactos dessa realidade na saúde mental. “Poucas pessoas falam sobre o autismo adulto, poucas falam sobre o autista nível 1 de suporte. A ignorância mata. Pessoas autistas têm índices muito maiores de sofrimento psíquico e vivem, em média, menos do que a população em geral. Estamos diante de um problema de saúde pública.”
Outro tema abordado foi a dificuldade de inserção no mercado de trabalho. “Apenas uma pequena parcela dos autistas adultos está no mercado formal. Muitos acabam trabalhando sozinhos porque as empresas ainda não sabem lidar com pessoas autistas. Tem muita gente que nem sabe que é autista porque nunca teve acesso ao diagnóstico.”
Ela utilizou uma comparação para ilustrar a realidade das deficiências invisíveis. “Se uma pessoa tira os óculos e não consegue ler um cardápio, ninguém diz que ela não parece ter miopia. Mas com o autista acontece isso o tempo inteiro. Dizem para a gente se esforçar mais para socializar, quando, na verdade, estamos falando de uma deficiência.”
Como parte de seu trabalho de conscientização, Natalia fundou uma editora especializada em publicações sobre autismo e inclusão. Segundo ela, a iniciativa surgiu a partir da escrita, seu principal hiperfoco, e do contato com outras mulheres em busca de informação e acolhimento.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
