
Nesta segunda-feira (11/5), ao celebrar os 18 anos do Corredor Verde, um projeto realizado pela Next Mobilidade no corredor Metropolitano de ônibus do ABC, o professor de patologia da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador das doenças causadas pela qualidade do ar nas cidades, Paulo Saldiva, sugeriu a criação de um laboratório ao ar livre para pesquisar o nível de poluentes absorvido pelas árvores plantadas ao longo da via exclusiva para ônibus.
A proposta vem no momento em que a Next quer aferir a exata quantidade de carbono sequestrada do ar pelas árvores que plantou ao longo de 90 quilômetros de vias exclusivas para ônibus, que ficam paralelas avenidas de grande movimento.
A estimativa potencial é de resgate de 1.800 toneladas de CO², tiradas do ar pela ação das árvores que se alimentam do carbono no seu crescimento. O corredor ABC de ônibus tem mais de 13 mil árvores inventariadas, de 160 espécies diferente, dentre elas 19 que estão ameaçadas de extinção. Uma equipe composta por 22 jardineiros é responsável pelo plantio e manutenção desses canteiros que ladeiam o corredor que vem da Capital, no bairro de São Mateus, passando por Mauá, Santo André, São Bernardo e Diadema para voltar à Capital no bairro do Jabaquara.
A empresária e fundadora da Next Mobilidade, Maria Beatriz Setti Braga destacou que Saldiva foi o orientador do projeto iniciado há 18 anos, que aproveitou os canteiros entre o corredor e as avenidas, que antes só tinham grama, em plantação de árvores. “Ele (Saldiva) nos indicou as espécies e nossas árvores foram crescendo, assim vamos mitigando o pouco que a gente pode da poluição. Hoje o nosso corredor verde é considerado um corredor exemplo para muitas cidades. Vamos lançar mais uma etapa respeitando o meio ambiente”, disse a empresária falando sobre o corredor BRT ABC em construção. “Estamos nesse milhão de quilômetros por mês e uma volta e meia na Terra todos os dias em quilômetros, com isso (plantio de árvores) estamos dando nossa contribuição ao planeta”, aponta.
Pesquisa
Depois de orientar o plantio de árvores no Corredor Metropolitano ABD, professor da USP sugere avançar no projeto com o uso dos laboratório das universidades locais para pesquisar o quanto de carbono tem sido sequestrado da atmosfera com as árvores deste corredor.
“Como as cidades foram se transformando em um deserto de concreto e asfalto, isso gera calor e queda de umidade, o que traz muito mais do que o arder do olho; a gente vê chuvas torrenciais e o lixo acumulado transforma-se em ambiente de criar mosquito que traz dengue e febre amarela, mas vou me ater ao problema da poluição. As pessoas respiram aquilo no momento em que se locomovem e cheirar cano de escapamento não faz bem para ninguém. As chaminés das fábricas estão cedendo espaço para as novas chaminés que são os corredores de tráfego em que se respira nível de poluição de quatro a cinco vezes maior do que a média da cidade e quanto mais tempo você fica num corredor de trânsito mais poluição recebe. Os ônibus a diesel hoje poluem muito menos do que poluíam há 20 anos, mas, embora a poluição das cidades tenha caído, o tempo que se fica no trânsito aumentou muito”, explica Saldiva.
O pesquisador em saúde e patologista diz que vê o efeito desta poluição nas autópsias que faz no Hospital das Clínicas, com os pulmões com manchas mesmo em pessoas que nunca fumaram. “Fica como uma tatuagem de fuligem dentro do pulmão, é o carbono impregnado de substâncias tóxicas. Se a pessoa perde três horas no trânsito é o equivalente a quase dois cigarros, para algumas pessoas isso não é nada, mas tem gente que, por já conviver com fumantes, faz câncer.
O professor da USP sugere estudar as folhas e as próprias árvore do corredor para quantificar o quanto foi absorvido de carbono por elas. Manchas amarelas nas folhas indicam essa poluição em excesso e a análise do sistema reprodutor, ou seja da produção de pólen também seria analisada. “A Ideia é fazer uma biópsia das plantas e medir o acúmulo como indicador de poluição. Como aqui é o único corredor que tem jardineiro pode se criar um laboratório natural de exposição utilizando uma estrutura para estudo. Como vai ter vários níveis de intensidade pode ver a influência dos modais de transporte. Já foi feito esse estudo nas cascas de árvore perto do polo petroquímico de Capuava”, diz Saldiva. A proposta do laboratório ao ar livre, foi recebida com empolgação pela fundadora da Next.
A visita de Saldiva, aconteceu na garagem da Next, no bairro Planalto, em São Bernardo. De lá, a bordo de um dos coletivos da Next, a direção da empresa, o médico patologista e jornalistas percorreram o corredor de ônibus até o terminal Ferrazópolis, também em São Bernardo. No local, Saldiva participou do plantio de dois pés de manacás e foi agraciado por Bia Braga, com uma placa em sua homenagem.
Saldiva sugere restringir circulação de veículos com rodízio ou pedágio urbano
A cena de filas intermináveis de carros parados no congestionamento e o corredor metropolitano de ônibus livre é vista diariamente nas principais vias de trânsito do ABC. Para Saldiva, os veículos elétricos não são a solução, pois continua-se com a mesma lógica do transporte individual e sua produção também é muito poluente. Para o especialista nas doenças ocasionadas pela poluição a solução, já adotada em alguns países, é restringir a circulação de carros com medidas como rodízios ou pedágios urbanos e essas providências devem ser tomadas com coragem pelos prefeitos.
“A gestão do transporte na região metropolitana é um dos grandes nós na ausência de um parlamento metropolitano. Nem sempre os prefeitos são do mesmo partido, então tem uma parte política e de gestão operacional, mas tem uma parte de costumes nossos. Tem gente que tira o carro para ir na padaria que fica a 350 metros, as pessoas são educadas assim. Os corredores de ônibus começaram na gestão Covas (governador Mário Covas), e eu lembro de uma foto de jornal que mostrava a avenida 23 de Maio, congestionada e o corredor livre e se dizia que o corredor de ônibus estava atrapalhando trânsito. Esse era um conceito que acabou mudando, antes demorava mais agora muda mais rápido”, diz Saldiva.
Para o patologista os protestos contra o aumento de tarifa em 2013 pautaram a eleição de vereadores e prefeito de ponte para transporte. “Demorou 10 anos e hoje acontece mais rápido, então o próprio desconforto com essa congestão, essa trombose nas artérias da cidade vão criar condições para que você mude para lugares mais próximos reduzindo a demanda e lutando por um transporte público de qualidade. Hoje o Uber está tirando passageiro do transporte público, porque umas pessoas têm necessidade de sobreviver com o carro e outras têm necessidade de chegar rápido e, se puder pagar essa pessoa não vai pensar se o carro dela está emitindo mais CO², ela quer ir sentada, ouvindo música e em ambiente climatizado”, analisa o professor.
As restrições à circulação serão medidas necessárias em futuro breve, segundo o patologista. “A alternativa que não vejo prefeito nenhum fazer é a que adotou o prefeito de Londres, isola uma área do Centro e também cobrar o pedágio urbano, esta e outras cidades estão fazendo”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
