
A produtividade das polícias Civil e Militar no primeiro trimestre de 2026 foi menor que o verificado no mesmo período do ano passado. A queda em praticamente todos os quesitos analisados na estatística publicada pela Secretaria de Segurança Pública, é maior no número de veículos recuperados, quase 60% inferior ao ano passado, e nos flagrantes de porte de arma (-35,94%) e de posse de entorpecentes (-22,22%). Para especialista em segurança pública, ouvido pelo RD, a queda da produtividade, mesmo associada ao declínio de alguns tipos de crime, não significa necessariamente que a criminalidade está sob controle. Para David Pimentel Barbosa de Siena, professor de direito penal e coordenador do Observatório de Segurança Pública da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), a sensação de segurança da população deve ser considerada e ela é muito impactada por crimes muito violentos.
Os números apontam que nos primeiros três meses do ano passado foram recuperados 1.201 veículos e no mesmo período deste ano foram 495, queda de 58,78%. O porte de arma caiu 35,94% (64 para 41 ocorrências), percentual semelhante ao de armas apreendidas, 34,15% (no primeiro trimestre de 2025 foram 164 e neste ano 108). O porte de entorpecentes caiu 22,22%, como também as prisões em flagrante e por mandados de prisão; 0,76% e 10,89%, respectivamente. Dos 14 itens tabulados na estatística da Secretaria de Segurança Pública, em apenas cinco houve aumento da produtividade, são eles: tráfico de entorpecentes (6,52%), apreensão de menor (1,30%), flagrantes lavrados (3,03%), total de prisões (0,71%) e tráfico de entorpecentes (1,55%).
Essa produtividade menor tem duas análises possíveis, uma é que esses tipos de crime tiveram queda no período e outra estaria ligada a eventuais problemas operacionais das polícias como falta de pessoal. Para Siena, uma produtividade menor não significa automaticamente uma segurança melhor ou pior na região. “Alguns números em queda podem, sim, refletir uma redução real de determinadas modalidades criminais. Se há menos roubos, furtos ou ocorrências associadas a determinados mercados ilícitos, é esperado que alguns indicadores operacionais também diminuam, como apreensões, flagrantes ou recuperação de veículos. Nesse sentido, a queda de produtividade pode estar parcialmente relacionada à própria redução da criminalidade registrada”, analisa.
O professor da USCS sustenta que os dados de produtividade devem ser analisados juntamente com os crimes registrados, com a estrutura física da polícia e o desempenho nos inquéritos policiais. “A produtividade policial também depende de diversos fatores administrativos, operacionais e institucionais, como distribuição territorial das equipes, prioridades investigativas, integração entre órgãos, uso de tecnologia, capacidade de análise criminal e forma de registro das ocorrências. Portanto, a queda da produtividade policial não decorre de uma única causa”, explica.
Os números do trimestre, quanto aos crimes registrados demonstra um recuo dos crimes contra o patrimônio, como roubos e furtos, na região, mas não em todas as cidades. Em Santo André, os roubos caem de 1.439 para 1.047 casos, redução de 27,24%. Em São Bernardo, o número passa de 955 para 762, recuo de 20,21%, enquanto Diadema registra queda de 622 para 475, variação de -23,63%. O roubo de veículos segue a mesma tendência, com Santo André redução de 250 para 117 casos, queda de 53,20%, e Mauá de 96 para 48, redução de 50%. Porém em Ribeirão Pires os roubos aumentaram de 38,89% (de 36 para 50 casos). Furtos também crescem em pontos específicos, como em Diadema, com alta de 9,99%, passando de 766 para 851 crimes.
Insegurança
Siena diz que, mesmo com os crimes do ABC apontando para queda juntamente com a redução da produtividade policial, isso não significa dizer que o crime está sob controle. “É possível extrair um elemento positivo desses dados. Quando há queda simultânea de determinados crimes e de algumas ações reativas, isso pode indicar um ambiente menos pressionado por ocorrências criminais de massa. Contudo, a existência de crimes graves, inclusive bárbaros, impede qualquer conclusão simplista de que a segurança está plenamente resolvida. A percepção social de insegurança é fortemente impactada por crimes violentos e de grande repercussão, mesmo quando as séries históricas mostram redução em algumas modalidades”, sustenta.
Quanto à estrutura e a eficiência da polícia a queda da produtividade não quer dizer que a polícia trabalhou menos. “A interpretação mais equilibrada é a seguinte: a queda de alguns indicadores de produtividade não significa, por si só, piora da atuação policial. Ela pode estar associada à redução de determinadas ocorrências criminais, à mudança de dinâmica do crime ou à reorganização das prioridades operacionais. Ao mesmo tempo, esses dados não autorizam uma leitura excessivamente otimista”, completa David Barbosa de Siena.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
