
A.C.J., de 19 anos, a mulher que entrou em trabalho de parto e teve o filho em uma calçada de Santo André na segunda-feira (27/04) e depois o abandonou na porta de uma casa, está presa. Em depoimento, admitiu que, em 2024, em outra gestação aos 17 anos de idade, fez igual e entregou o filho em um hospital dizendo que o tinha encontrado em uma praça. Na ocasião deixou a criança e desapareceu sem ser identificada. Para psicóloga ouvida pelo RD, vários fatores podem ter levado a jovem a abandonar o filho, que vão desde questões sociais, econômicas, psicológicas e também fruto de uma vida de abandonos.
Policiais do 2° Distrito Policial de Santo André cruzaram informações, seguiram rastros de sangue e chegaram até Ágata, que foi presa em casa na terça-feira (28/04) menos de 24 horas depois do abandono da criança que foi resgatada e segue internada. A mãe que abandonou o filho mora a cerca de 600 metros do local do abandono, no Jardim Santo Antônio.
Para a doutora em Psicologia Social, mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo e docente no curso de Psicologia da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Rebeca Daneluci, em casos como esse a mãe que abandona o filho é sempre condenada pela opinião pública, mas é preciso um atendimento multidisciplinar, com amparo psicológico para entender as razões pelas quais a mulher abandona o próprio filho.
Segundo a docente, que pesquisa o tema, primeiro é preciso entender se essa mulher tem a consciência de que o ser que ela deu à luz é um filho, depois entender a história de vida dela, se passou por episódios de abandono e se o ato de abandonar tem o mesmo peso para ela, do que o peso que a sociedade dá a este ato.
“Hoje se tem conhecimento de que a maternidade não é algo instintivo, para que ocorra a função materna precisa-se tanto de recursos internos como de recursos externos e muitas vezes esses recursos falham ou não são suficientes para se exercer a função materna. Esse bebê que foi gerado não necessariamente ela sente como um filho, ela pode não sentir condições ou mesmo disposições para exercer a função materna, pois nem toda a mulher tem o amor incondicional ao filho que ela gera. Não dá para dizer, no caso de Santo André, o que aconteceu, precisaria fazer uma escuta da história dessa mulher, entender a história dessa gestação para pensar no que aconteceu para esse desfecho. É restritivo pensar que só o parto teria desencadeado isso. Provavelmente há outros fatores”, diz a especialista.
Para Rebeca há muitos casos publicados de mulheres que abandonaram os próprios filhos e, com a ajuda de uma equipe, posteriormente consegue exercer a função materna. “A equipe de saúde funciona como uma prótese até que essa mulher consiga exercer a função materna desde que ela queira, mas para isso tem que acompanhar e escutar essa mulher”, explica.
Cobrança social
Para a professora da USCS, casos como o dessa jovem são tratados apenas como crime. “Muitas vezes situações assim são vistas apenas como caso de polícia e não como caso de saúde. Tem mulheres que, de fato, não conseguem ou não podem exercer a função materna, mas há uma cobrança social de que ela deveria, o que desemboca em uma situação como essa. Pode ser que a mulher não perceba que ali está um filho, talvez por um transtorno mental ou pela dependência química. Isso não quer dizer que toda mulher que tenha transtorno ou dependência química não possa exercer a função materna. Mas precisa de recursos internos quanto externos e muitas vezes falham os dois e, nesse caso, o meio funciona mais como um lugar que vai culpá-la e julgá-la e não irá cuidá-la”, analisa.
Outro ponto levantado pela psicóloga é o entendimento das questões sociais, do acesso às políticas públicas e se a mulher teve cuidados enquanto filha também. “Precisamos saber que manifestações de maternidade e cuidado ela teve ao longo da vida, como foi cuidada enquanto filha, como ela é olhada como alguém que gesta, porque esses olhares têm impacto bastante importante no desfecho de uma gestação. A situação pode tanto estar associada a transtornos, dependência e a questões sociais, culturais e econômicas. Não são apenas mulheres pobres que abandonam, mulheres com poder aquisitivo têm outros meios de fazer isso, que não seja deixando o filho na rua”, diz.
O que fazer
Para a especialista, não há garantias de que uma mãe que inicialmente abandonou o filho terá condições de cuidar dele, nem mesmo depois de atendida, ou que ela não irá repetir o ato. Rebeca Daneluci diz que também é preciso envolver o pai da criança.
“Ela não fez o filho sozinha e pouco se convoca o pai. Precisa-se saber o quanto essa mulher levou essa gravidez sozinha. A mulher é julgada e responsabilidade de fato ela tem, mas o filho não é gerado só por uma pessoa e o peso que se dá socialmente é como se toda a culpa fosse da mãe. Se ela tem uma companhia e um apoio, ela divide a responsabilidade. Numa situação dessa de desamparo é porque também faltou rede de apoio, não pode esquecer onde estão os homens nessa discussão”, aponta a psicóloga.
Por fim Rebeca diz que a Ágata pode ter repetido comportamentos dos quais foi vítima. “Pode refletir uma vida de muitos abandonos. Abandonar uma criança pode não ter o peso que se tem quando a sua vida já é marcada por abandonos. Essa é uma questão importante de se considerar. Deixar o bebê no portão de alguém pode dizer que ela não dá conta, mas alguém pode dar”, conclui.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
