
O único abrigo LGBTQIA+ com funcionamento 24 horas no ABC, a Casa Neon Cunha, em São Bernardo, mantém as portas abertas em meio a dificuldades financeiras e depende de doações para sustentar o atendimento. Criada para acolher pessoas expulsas de casa, em situação de violência ou vulnerabilidade social, a instituição se tornou referência regional, mas ainda não conta com financiamento público estruturado, o que limita sua capacidade de atuação diante da alta demanda.
Com sede fixa desde 2021, a ONG acolhe, em média, 600 pessoas por ano – cerca de 3 mil desde a criação. Mesmo com a alta demanda e o atendimento a moradores de todo o ABC, o presidente e fundador, Paulo Araújo, afirma que a instituição ainda não conta com apoio estruturado do poder público da região.
“Hoje a gente atende uma demanda que não é só de São Bernardo, mas de todo o ABC, e mesmo assim não existe um financiamento contínuo ou um reconhecimento formal do nosso trabalho”, afirma. Segundo ele, a principal dificuldade está na falta de recursos e de integração com a rede pública. “Existe uma dificuldade grande dos equipamentos em reconhecer e apoiar o nosso serviço”, completa.
Ausência de políticas públicas
Para Araújo, o problema vai além da manutenção da ONG e reflete a ausência de políticas públicas efetivas voltadas à população LGBTQIA+. “É muita política que não chega na ponta. A gente precisa que as gestões avancem com ações concretas”, diz. O presidente da ONG também defende que o fortalecimento deve vir do poder público, e não da criação de novas iniciativas independentes. “Queremos que o Estado cumpra o papel dele”, ressalta.
A realidade enfrentada pela população LGBTQIA+ no Brasil chama atenção para a falta de políticas públicas em todo País. Para se ter ideia, o Brasil segue liderando o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis, segundo levantamento de 2025 da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Dados da entidade ainda apontam que 94% dessas pessoas já sofreram discriminação em atendimentos de saúde, enquanto 62% deixaram de buscar esses serviços por medo.
No ambiente escolar, a insegurança também é expressiva. Pesquisa nacional indica que 67% dos estudantes trans não se sentem seguros nas escolas. Entre jovens que não se encaixam em padrões de masculinidade, o índice é de 59%, enquanto entre estudantes LGBTQIA+ chega a 49%.
Diante desse contexto, a Casa Neon Cunha tenta manter atendimento ininterrupto como espaço de acolhimento e proteção. A ONG recebe doações financeiras, além de alimentos, produtos de higiene e cestas básicas para continuar funcionando.
Cidades não se mobilizam a favor da Casa Neon Cunha
Procurado, o Consórcio ABC – entidade que reúne as sete cidades da região e atua na articulação de políticas públicas conjuntas – informou que não possui vínculo com a instituição. A ausência de integração chama atenção, já que a Casa Neon Cunha atende moradores de todo o ABC e poderia, em tese, ser incluída em estratégias regionais de acolhimento e proteção à população LGBTQIA+.
Já a Prefeitura de São Bernardo não respondeu os questionamentos do RD até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.
Como ajudar a Casa Neon Cunha
A Casa Neon Cunha recebe doações financeiras por Pix, pela chave pix@casaneoncunha.org. A ONG também aceita contribuições por meio do CNPJ 37.211.131/0001-28. Além disso, é possível doar alimentos, itens de higiene e produtos básicos diretamente na sede (rua Luiz Ferreira da Silva, 183 – Anchieta) ou entrar em contato pelos canais oficiais para outras formas de apoio.
Além das contribuições materiais, é possível apoiar a ONG por meio de parcerias, voluntariado e divulgação do trabalho realizado. As informações sobre formas de ajudar estão disponíveis nos perfis oficiais da Casa Neon Cunha.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
