
O preço do Diesel subiu pelo menos 15% no ABC e pouco mais de 20 dias de conflito no Oriente Médio. E o fechamento da passagem para petroleiros no Estreito de Ormuz, traz o temor de falta de diesel já nos próximos dias o que está mobilizando entidades ligadas ao transporte, os postos de combustíveis e há temor de desabastecimento de produtos básicos pela falta de condições logísticas para escoamento de mercadorias, sobretudo alimentos. Empresário ouvido pelo RD aponta possível desequilíbrio nos contratos de frete o que pode reduzir a atividade no setor.
Para o presidente do Regran (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do ABCDMRR), Roberto Leandrini, já há um racionamento de diesel na região. Segundo ele não falta porque a entidade e os donos de postos estão em negociação com as distribuidoras para reduzir um pouco o envio para grandes redes, para que não falte para os postos que compram menos litros. “Cerca de 40% do diesel e 20% da gasolina são importados e, em função do conflito no Oriente estamos com menos oferta. Por enquanto a situação está indefinida, mas se não tiver uma abertura para os navios e uma solução para esse conflito internacional o diesel vai secar”, aponta.
O Regran tem sido mediador para equalizar a distribuição do diesel e também da gasolina na região. Postos de redes supermercadistas chegaram a ficar quase duas semanas sem gasolina. Isso aconteceu com os postos do Assaí/Extra, em Diadema, conforme constatado pela reportagem. Nesta segunda-feira (23/03) estes postos voltaram a vender gasolina. “Os postos pedem 10 mil litros e vem 5 mil é mais ou menos isso que está acontecendo. O posto do Carrefour de São Caetano também ficou dois dias sem gasolina. O que estamos fazendo, e tem dado bom resultado, é conversar direto com as distribuidoras e regular isso para que não falte para ninguém. Em raros casos os tanques ficaram secos. Priorizando o pequeno tem dado certo”, diz Leandrini.
Com a alta de 15% no último mês o diesel está custando, em média R$ 7,20, o que representa cerca de R$ 1 a mais por litro, com pequena variação se o tipo for comum ou S10. O tipo Arla, mais usado em caminhões novos não está em falta como os demais. Em caso de falta e necessidade de racionamento do diesel, os serviços públicos terão prioridade no abastecimento. “As empresas de ônibus que têm bomba nas suas garagens não poderão ficar sem. O mesmo acontece com os postos de combustível que têm contrato com as prefeituras e o Estado. Combustível para viaturas, ambulâncias e transporte escolar devem ser garantidos. O dono de posto que tem contrato com a administração pública deve informar esse contrato à distribuidora para garantir que não fique sem diesel”, diz o presidente do Regran.
Leandrini, que assumiu o controle do sindicato dos postos em 2021, diz que essa é a maior crise que ele enfrenta na sua gestão da entidade. “Antes de mim teve a crise de 2018 quando os caminhoneiros fizeram greve e faltou combustível em todo lugar, os poucos caminhões que saíam das distribuidoras eram escoltados pela polícia. Essa crise de agora ainda não é tão forte como aquela, mas é a maior desde que assumi”, completa.
Para a NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística) divulgou nota sobre a variação de preços e a preocupação com o conflito no Oriente. “Para o Transporte Rodoviário de Cargas, esse cenário é particularmente sensível. O diesel representa, em média, cerca de 35% e podendo chegar em 50% do custo do frete, sendo o principal componente da estrutura operacional das transportadoras. Assim, qualquer variação no preço do combustível impacta diretamente o equilíbrio econômico das operações e, consequentemente, toda a cadeia logística. Diante desse contexto que prevê uma expectativa de aumento quase diário, a NTC&Logística reforça a importância de acompanhamento constante dos custos operacionais do setor, bem como da aplicação adequada de mecanismos de recomposição de frete, como o gatilho do diesel, previsto em contratos e práticas de mercado, para preservar a sustentabilidade das operações e garantir a continuidade dos serviços essenciais prestados pelo Transporte Rodoviário de Cargas à economia brasileira”, diz o comunicado.
Segundo Danilo Guedes, presidente da ABC Cargas, empresa com sede em São Bernardo e que acaba de completar 29 anos de operação, alterações na organização de trajetos para otimizar o gasto de combustível e cautela na celebração de novos contratos para curto e médio prazo, já fazem parte da nova ordem na empresa. Na sua sede, a ABC Cargas conta com um tanque de 30 mil litros de diesel que vem direto da distribuidora, mas os caminhões fazem deslocamentos rodoviários interestaduais e até internacionais, onde a variação de preços chega a absurdos 40%.
“Eu ainda não acredito que vamos ter falta, mas o conflito já influencia no contexto dos preços. Por isso já estamos conversando com outras distribuidoras, hoje trabalhamos apenas com uma, para garantir o fornecimento, só aqui na sede o nosso consumo é de 350 mil litros por mês. Como o diesel corresponde a 40% do custo do frete, estamos otimizando as rotas e adotando critérios para algumas operações por conta do reajuste do combustível”, explica o empresário.
A ABC Cargas transporta os caminhões zero quilômetro para todo o país e também para o Mercosul e nas fronteiras já há diesel com sobrepreço. “Na fronteira com a Argentina já tem posto com diesel mais caro, mas na divisa com o Peru é que temos o mais caro, lá o produto aumentou 40% e chega a custar R$ 9,70, por isso os contratos firmados a curto prazo a gente está mantendo, mas se continuar subindo vamos ter um desequilíbrio muito grande e não dá para evitar o repasse, mas a gente nunca repassa tudo. A gente negocia, porque em momento de estabilidade o frete sobe, mas depois que as coisas de ajeitam o frete cai e agente ajusta para baixo, tem que ter mão para os dois lados”, aponta Danilo Guedes que prevê que as empresas menores e os caminhoneiros autônomos devem sofrer muito mais com a situação do momento. “Quem compra mais consegue negociar direto com a distribuidora, o pequeno que movimenta os produtos essenciais vão sofrer mais”, analisa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
