
O comércio entre a empresas com sede no ABC e os países da União Europeia é extremamente mais vantajoso para os europeus e mesmo com o acordo tão celebrado entre o Mercosul e a UE, a situação não deve se alterar muito significativamente. Para o economista Volney Aparecido de Gouveia, gestor adjunto da Escola de Gestão e Negócios, Coordenador do curso de Ciências Econômicas da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), além de não trazer equilíbrio para a balança comercial, o acordo ainda pode prejudicar alguns setores da economia da região.
O volume comércio entre o ABC e os países do Mercosul revela uma balança comercial muito favorável à região, exportando muito mais do que importa. Em 2025 as empresas da região exportaram US$ 2,5 bilhões para a Argentina, Paraguai e Uruguai. No mesmo período as empresas das sete cidades da região importaram US$ 336 milhões. Mas quando o bloco econômico é o europeu a balança é inversa. O ABC importa infinitamente mais produtos e matérias primas do que exporta para a Europa; em 2025 importou US$ 2,1 bilhões e vendeu US$ 436,8 milhões.
O acordo que prevê redução de tarifas em vários produtos, foi muito comemorado pelo governo brasileiro que até dezembro comandava o grupo de países sul-americanos. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, falou em uma relação ganha-ganha com a Europa. “No agro, nós vamos poder exportar praticamente quase tudo. O agro vai ter aí um universo de 27 países, dos mais ricos do mundo, para poder vender o seu produto. E para a indústria também, porque a União Europeia é o segundo comprador da indústria brasileira. O primeiro é os Estados Unidos, o segundo é a União Europeia. O Brasil tem 2% do PIB do mundo. Então, 98% do comércio está fora do Brasil. É fundamental a gente exportar e importar”, explicou em entrevista ao programa Bom Dia Ministro, do canal oficial do Governo Federal, nesta quinta-feira (15/01). A expectativa é o acordo seja assinado no sábado (17/01) no Paraguai.
O professor da USCS está menos otimista em relação ao acordo. “O acordo não deve trazer equilíbrio na Balança Comercial do ABC. Isto porque as tarifas negociadas sobre automóveis e equipamentos serão reduzidas, facilitando a entrada de produtos europeus a preços mais competitivos que os de empresas da região, aumentando nossas importações e piorando o saldo comercial. Mas este desequilíbrio não será imediato, porque o prazo negociado de redução das tarifas (atualmente em 35% em média) é de 15 anos, o que levará algum tempo para impactar nos setores metal mecânicos”, prevê Gouveia dando como exemplo a principal cadeia produtiva do ABC.
O nível de competitividade das empresas europeias pode afetar as relações comerciais negativamente para o Brasil, segundo o economista da USCS. “O acordo vai facilitar os negócios das empresas europeias que vendem para o Brasil e para os países do Mercosul, exatamente porque estas empresas são muito mais competitivas, pois têm escala de produção e financiamento mais adequados que as nacionais, trazendo potencialmente desequilíbrio na balança comercial para nossa região. O que tende a ocorrer é um aumento das importações – e do número de empresas importadoras na região -, que passarão e privilegiar o mercado europeu em suas compras em detrimento de empresas da região”, analisa.
Para Volney Gouveia alerta para que as empresas brasileiras se preparem para a competição com as europeias. “Se as empresas do ABC não buscarem ganhos de produtividade e eficiência, perderão mercado para seus pares europeus. Um setor no qual o Brasil poderia se beneficiar seria o agrícola, mas o acordo limitou as exportações brasileiras por meio de cotas para atender à França, que vinha se opondo ferrenhamente ao acordo porque é sabido da sua reduzida vantagem competitiva em relação aos produtores brasileiros. Isto limita nossa capacidade de compensar a desvantagem nos setores de alta tecnologia. Há dois riscos potenciais: perdermos mercado e termos limitadas nossas exportações de commodities”, aponta.
Setores também importantes na região além do ramo químico e metalúrgico, as empresas de cosméticos e de embalagens devem perder espaço para as concorrentes europeias, mesmo aqueles produtos brasileiros procurados pelo componentes extraídos na natureza podem encontrar barreiras. “O acordo garante uma salvaguarda para os europeus nos temas ambientais: o Brasil precisará provar que os produtos exportados são de origem certificada (de área não desmatada). O risco é comprometer as exportações em função do longo período para a comprovação da legalidade que isto demandará. Outra restrição imposta pelos europeus é a suspensão do tratado comercial em caso de não cumprimento de uma das regras do Acordo de Paris, não só pelo Brasil, mas por qualquer um dos membros do Mercosul”, avalia o gestor adjunto do curso de economia da USCS.
Sem um acordo de quebra de patentes e transferência de tecnologia, o ABC também perderá, segundo a análise de Gouveia, na indústria farmacêutica. “O ABC tenderá a importar mais bens industrializados. Não há evidências de que o acordo prevê – por exemplo – a troca de tecnologia ou quebra de patentes no segmento farmacêutico, o que permitiria às empresas industriais se adaptarem ao nível de competitividade das empresas europeias e permitiria ganhos de autonomia tecnológica no longo prazo. Compra governamental é outro ponto sensível. Pelo acordo, empresas europeias poderão participar dos leilões de compras realizados pelo governo. A questão é que – como não há transferência de tecnologia – é possível que no longo prazo beneficiemos as farmacêuticas europeias. Sendo o governo o maior comprador do setor farmacêutico, o Estado perde capacidade de fazer política industrial para beneficiar a indústria brasileira”, diz o economista. “Mas o bacalhau e o azeite devem entrar mais baratos por aqui”, conclui.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
