
Às vésperas do Dia do Trabalho (1° de Maio) os setores empresariais pressionam políticos para adiar a votação do fim da escala 6×1. Alegam custos e que o debate será contaminado pelas eleições. Por outro lado, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC diz que a questão está madura para ser debatida e, a médio prazo, trará bons resultados econômicos.
O fato é que a classe política, mesmo pressionada por grupos empresariais não vai, em plena pré-campanha, se posicionar contra. A equação fica então nos cálculos de absorção do custo adicional que as empresas terão com a folha que pagamento, que pode variar de 15% a 30%, segundo os empresários.
Para o economista e gestor do curso de Ciências Econômicas da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Volney Gouveia, a redução da escala de trabalho não deve trazer impactos negativos para a economia, uma vez que oferece vantagens para os trabalhadores, para o consumo, de forma que eventuais custos sejam absorvidos.

Gouveia diz que a discussão sobre a escala 6×1 tem uma série de nuances e precisa ser discutida à luz dos dados e das experiências de outros países. No caso particular do Brasil, virou tabu. “Particularmente não acredito que a medida gerará impactos econômicos negativos para a economia porque ela não deve ser aplicada para todas as categorias, porque trabalhadores com mais tempo livre, sem redução de salário, melhoram sua qualidade de vida e sua renda, estimulam o próprio comércio no médio prazo”, afirma.
Outro motivo, diz Volney Gouveia, é que não acredita em impactos. Estudos mostram que os problemas de produtividade, alegados pelos contrários à redução, também se aplicam aos trabalhadores que trabalham sob o regime 5×2. “Alegam o tempo para o cafezinho, reuniões intermináveis, conversas paralelas e uso intensivo das redes sociais no horário de trabalho, portanto, a questão central é a produtividade do trabalhador e não a escala de trabalho”, diz.

Segundo o professor, diferente do que alegam setores da economia de que a redução da escala resulte em prejuízos e demissões, a medida vai estimular a empregabilidade. “Tende a aumentar o emprego em razão da necessidade de contratar para cumprir a escala 5×2. Estes empregos são, via de regra, de baixa qualificação e, portanto, com rendimentos muito baixos. No decorrer do tempo, eventuais custos adicionais serão reduzidos em função da absorção destes trabalhadores de menor renda. Os setores tenderão a se ajustarem. No curto prazo, pode haver redução da margem de lucro, que será contornada à medida em que o novo regime ganha escala e acomodação”, completa Gouveia.
Indústria maltratada
Para o diretor titular do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) Regional de Diadema, José Adolfo Gazabin a medida do governo em apresentar projeto de lei para determinar o fim da escala 6×1 é oportunista. “O objetivo é ter notícia boa em ano eleitoral, mas sem um debate amplo para ver a particularidade de cada indústria. A medida tem potencial de diminuição do quadro de funcionários e o custo vai aumentar. Estimamos que o tamanho da folha de pagamento possa crescer até 30%. Nas indústrias que funcionam 24 horas esse impacto será maior”, aponta.

Gazabin não acredita que a redução de jornada resulte em maior empregabilidade e defende que a questão deve ser debatida de forma diferenciada com o setor industrial. “A indústria é o maior gerador de riqueza do País, mas ela vem sendo maltratada consecutivamente. Ela paga os melhores salários e oferece o melhor emprego em termos de capacitação e esse capital social deve ser considerado”, completa.
Medida eleitoreira
Na mesma linha, o diretor titular do Ciesp de Santo André, regional que engloba também as indústrias de Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, Eduardo Mazurkyewistz, diz que a discussão sobre jornada é pertinente, mas não em ano eleitoral. “Assim vira pauta eleitoreira”, opina.
Para Mazurkyewistz, a redução de jornada trará um impacto muito grande para indústrias e prestadores de serviços, como restaurantes, fora a falta de mão de obra qualificada que já enfrenta. “Teremos um aumento apurado de pelo menos 15% na folha de pagamento e alguém vai ter de pagar essa conta, pois a indústria e o comércio não têm margem para absorver. Com isso haverá inflação e impacto na renda do trabalhador que seria beneficiado com a medida”, destaca diretor do Ciesp.

“Admitimos discutir o tema, mas não de forma eleitoreira. Temos uma frente parlamentar trabalhando nisso, fazendo pressão para que a votação não ocorra esse ano, pois nenhum deputado que queira se reeleger terá coragem de votar contra, então essa passa a ser uma medida eleitoreira”, completa Eduardo Mazurkyewistz.
Comércio
Além do chão de fábrica, o setor de serviços e o comércio serão os mais impactados com as mudanças na escala de trabalho se o Congresso aprovar o fim da escala 6×1. Para Beto Moreira, presidente do Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do ABC), que reúne hotéis, bares, restaurantes e padarias, a medida vai onerar o setor que já tem lucros bastante reduzidos.

“Do jeito que propuseram, reduzir a jornada sem reduzir salários, vamos ter de contratar e isso vai pesar no nosso bolso. Os estabelecimentos menores, que são a maioria e os que mais empregam, sofrerão mais”, estima o presidente do Sehal, que critica o momento político para colocar a proposta em pauta.
“Discutindo agora a proposta vira eleitoreira. Tiveram quantos anos para fazer isso, mas fazem em ano de eleição para constranger o Congresso. Qual deputado vai votar contra em ano de eleição?”, questiona Moreira.
“As pequenas empresas serão as mais prejudicadas porque não têm gordura. O movimento de vendas não vai aumentar e vai subir o preço dos produtos, o que gera inflação, pois o custo adicional será repassado para o cardápio, o que é ruim para todos”, diz o dirigente do sindicato patronal.
Segundo Beto Moreira, não há espaço para a discussão de medidas de compensação para os estabelecimentos comerciais menores, pois têm pouca representatividade. “Ou eles vão reduzir um dia de faturamento e mandar trabalhadores embora, ou vão trabalhar no fim de semana, dias de maior movimento, só para empatar, sem lucros, então nessa situação para o comerciante é melhor fechar. Por isso, as confederações estão forçando a barra para essa votação não acontecer este ano”, completa.
Trabalhadores
Para o recém eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wellington Damasceno, a discussão é tão importante quanto antiga. “A gente já discute isso aqui no sindicato há décadas. Eu mesmo trabalho em uma empresa que faz 40 horas semanais desde os anos 2000 e a gente tem uma grande parte da categoria do ramo metalúrgico do ABC que já trabalha em jornada menor do que as 44 horas semanais que estão previstas na Constituição. Então, é um debate que já passou da hora de fazê-lo, de implantar como política pública para que tenha validade no território nacional”, diz o sindicalista.

Damasceno considera que o momento é ideal para a discussão da proposta e que a sociedade já amadureceu o tema. “Esse é um momento oportuno também de posicionamento ao tema do fim da jornada 6×1 e da redução de jornada sem redução de salário, que permite que o Congresso tenha muita tranquilidade para avançar neste tema porque, ainda que a gente veja o lobby de um setor mais retrógrado do empresariado brasileiro, a gente percebe que as empresas têm discutido como implementar as jornadas reduzidas e o quanto isso pode ser positivo”, analisa.
O sindicalista diz que desde 1988, quando a jornada de trabalho caiu de 48 para 44 horas semanais, o mundo evoluiu em tecnologia e processos produtivos, mas o trabalhador pouco se beneficiou do processo.
“A gente viu a implantação da informática, depois da robotização, a eletrônica mais presente no dia a dia do trabalho, mais recentemente a digitalização e agora já batendo à nossa porta está a IA, tudo isso tem permitido que as empresas melhorassem a sua produtividade, a sua competitividade, pudessem inclusive potencializar os lucros, mas os trabalhadores não têm tido ganhos com toda essa tecnologia nos locais de trabalho. Hoje temos produtividade, consciência, acúmulo produtivo suficiente para fazer a redução de jornada sem redução de salário com o fim da jornada 6×1”, destaca.
Damasceno rebate o setor produtivo ao dizer que o momento é bom para o debate, mesmo em ano eleitoral. “O sindicato tem acompanhado esse debate, tem dialogado com deputados, senadores, presidente da República, dialogado com outros sindicatos para que essa pauta se concretize, inclusive antes do período eleitoral, porque assim que começar a eleição a pauta dificilmente avançará, então precisamos que isso, no máximo em maio, vá para votação e que a gente consiga essa grande vitória, para os trabalhadores e a sociedade brasileira”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
