ABC - quinta-feira , 11 de junho de 2026

Famílias ficam presas ao aluguel e relatam prejuízos com atraso de obras da CDHU

Última entrega de apartamentos da CDHU no ABC aconteceu em São Bernardo, quando 420 unidades do residencial Cooperativa II receberam seus moradores. (Foto: Divulgação CDHU)

O sonho da casa própria para famílias que não conseguem financiamento fora do âmbito governamental se torna um misto de ansiedade e gastos desnecessários por causa do atraso na entrega de obras por parte da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano), que tem 5.171 unidades em obras no ABC. A companhia não informa, no entanto quantas delas estão em atraso ou paralisadas por algum motivo. Na região o Residencial Clara, em Santo André, se sabe que está totalmente parado há pelo menos sete meses porque a construtora entrou em recuperação judicial e a CDHU ainda não substituiu. Só com esse empreendimento são 480 unidades habitacionais com um ano e oito meses de atraso para a entrega das chaves.

Santo André tem outro grande empreendimento, o João Ducin, cujas obras estão e andamento, mas a entrega já está atrasada em pelo menos um ano e cinco meses, praticamente o dobro do prazo inicialmente previsto para a conclusão.

O auxiliar de TI, André Morais, de 43 anos, é um dos inscritos para um destes apartamentos. Explicou que quando assinou o contrato as obras deveriam começar em novembro de 2022 com prazo de 18 meses para a entrega, o que daria maio de 2024. O mutuário lamenta o atraso e os custos que isso trouxe para a família. Morais vive com a esposa e o filho de oito anos e tem grande expectativa para a casa nova.

“Pago aluguel, que já passou do meu limite, mas seguimos, comigo e a esposa a compor nossa renda. Levamos do jeito que dá, mas realmente com o aluguel e as outras contas têm ficado pesado, afinal, pelos nossos planos já era para estarmos no apartamento”, destaca.

Trancos e barrancos

A família vive um misto de sentimentos já que, apesar do atraso, há uma grande expectativa para se mudarem já no início de 2026 e a empolgação até minimiza a espera e os gastos com aluguel que poderiam não ter acontecido. Ao falar disso, Morais lamenta por outros mutuários cujas obras de seus empreendimentos não tiveram a mesma sorte.

“A expectativa está a mil, afinal nossa casinha está saindo. Pelo que eu soube, o Residencial Clara parou e eu realmente sinto muito pelo pessoal do Clara, fico na torcida por eles para tudo se resolver o mais rápido possível. O nosso, por enquanto continua, aos trancos e barrancos, mas continua. A última atualização da obra alcançou 91% em 15 de setembro”, conta Morais.

A previsão de entrega das chaves, informada aos mutuários do condomínio João Ducin é janeiro de 2026, sem ainda um dia definido. O empreendimento tem 460 apartamentos. A família já se planeja para a compra de algum mobiliário para o novo apartamento. “Começamos a fazer alguns orçamentos para o apartamento sim. A parte boa dessa demora é que a gente se manteve com o pé no chão e focados em guardar um dinheirinho. Isso agora vai ajudar bastante”, completa André Morais.

Sair do aluguel

Entre os mutuários do Residencial Clara está a psicóloga Milene Cristina Kail Soares, que vive com o filho Luigi, de 18 anos. Milene já deveria estar no novo apartamento há mais de um ano e meio. Se a entrega da obra ocorresse na data certa, o filho mais velho dela se casaria e iria para sua própria casa, e ela sairia do aluguel. Mas o mais velho se casou e ela continuou com o mais novo no aluguel, pior ainda, teve de mudar porque o proprietário no imóvel anterior pediu a casa. Milene relata que, a cada mudança, os móveis se estragam e é mais uma despesa que não deveria ocorrer.

Residencial João Ducin segue com obras e deve ser entregue em janeiro. (Foto: Google)

Outra andreense contemplada com apartamento no Residencial Clara, mas que pediu anonimato, disse que paga R$ 1,2 mil de aluguel, enquanto a obra não é concluída. “As pessoas pagam aluguel sendo que já poderiam estar no apartamento e pagar pelo que é seu”, relata.

Em maio, durante evento da CDHU em São Bernardo, o presidente da companhia Reinaldo Iapequino, disse que o impasse sobre o Residencial Clara seria logo superado com a contratação de outra construtora para finalizar as obras que estão 81% concluídas.

“É problema de uma construtora que entrou em dificuldades, entrou em recuperação judicial. Nós já recuperamos a posse desse imóvel em negociação com o administrador judicial. Em breve a gente vai ter uma solução isso, que também passa pela seguradora”. Cinco meses depois a obra ainda está parada.

Falta de informação da CDHU

Só em Santo André são 2.530 unidades em obras. Como a CDHU não respondeu sobre quantas estão em atraso e quais estão paradas, não é possível saber quantas entregas foram feitas este ano. O relatório anual da companhia apontou que no ano passado nenhuma unidade foi entregue na cidade.

O mesmo relatório apontou a entrega de 420 apartamentos no ano passado em São Bernardo. Foi o residencial Cooperativa II, numa solenidade que contou com a participação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em dezembro. A cidade tem atualmente 1.823 unidades em construção.  Depois dela, aparece Diadema, com 622 unidades em construção e nenhuma entrega de chaves no ano passado, mesma situação de Mauá, que tem 196 unidades em obras. São Caetano, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não contam com empreendimentos da CDHU em andamento.

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