
Neste Dia dos Pais, celebrado neste domingo (10/08), três histórias mostram que ser pai vai muito além do vínculo biológico. No ABC, o cuidado se manifesta de formas diversas: no olhar de quem acompanha o parto da filha, no carinho que conquista uma enteada aos poucos e no abraço de um avô que assume o papel de pai pela segunda vez.
Paternidade e diversidade
Coordenador da Casa Neon Cunha, em São Bernardo, Paulo Araújo, 35 anos, acompanhou cada passo da gestação de sua filha Caroline, hoje com dois anos e sete meses. Esteve presente nos exames, no parto e em cada fase da vida da menina. “A experiência de se tornar pai é algo que a gente não mensura até viver. É maravilhoso ver que existe uma pessoa que é sua, que você construiu junto com quem ama”, conta.
Mas o caminho não foi livre de preconceitos. Paulo, que sempre viveu publicamente como um homem LGBT, ainda enfrenta questionamentos sobre sua capacidade de ser pai por conta da orientação sexual. “As pessoas querem colocar em xeque a identidade ou a orientação como medida para ser um bom pai. Essa métrica não existe. O que importa é o cuidado, o acesso à educação, à cultura e o compromisso com a vida dessa criança”, afirma.
O momento mais marcante, segundo ele, foi quando Caroline o chamou de “papai” pela primeira vez. “Ela acorda me chamando de papai, é o som mais bonito que posso ouvir. Isso aquece o coração de um jeito que não dá pra explicar”.
Paulo destaca que sua vivência como pai também se reflete no trabalho na Casa Neon Cunha, instituição que acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade. “Lá, muitas me chamam de pai também. Isso mostra que família não é só quem nasce do mesmo sangue, mas também quem você escolhe cuidar”. Ele reforça que não disputa o posto de “mais pai” ou “menos pai” com ninguém. “Estamos aqui para contribuir com o cuidado, com a construção de um ambiente seguro e amoroso, seja qual for o formato da família.”

Papel de pai e padrasto
Morador de Santo André, Rafael da Gama Carrilho, 29 anos, eletricista, conheceu sua atual companheira, Nathalia Araújo, 27, por um aplicativo de relacionamento. No início, acreditava que seria apenas algo passageiro, mas o vínculo cresceu e trouxe junto o desafio de conquistar a confiança de Helena, de 4 anos, filha dela. “No começo, fiquei com receio de ela não me aceitar ou achar estranho eu estar tão presente. Não queria conquistar com presentes, mas mostrar que entrei na vida delas para ser padrasto e amigo”.
O processo foi gradual. Conversas francas e o tempo juntos fizeram com que Helena passasse a enxergá-lo como um aliado e companheiro da mãe. “Conquistar uma criança é fácil se você der doces e brinquedos, mas eu queria ganhar espaço com carinho, atenção e presença de verdade.”
O maior desafio foi lidar com o ciúme que Helena sentia da relação dele com a mãe. “Ela achava que eu ia tomar a mãe dela pra mim. Mostrei, dia após dia, que o que eu queria era somar à família, e não dividir.”
Hoje, com a filha Aylla, de três anos, e a enteada, os momentos especiais fazem parte da rotina. “Quando você é pai e padrasto, precisa tratar todas as crianças da mesma forma. Se eu trato bem minha filha e mal a Helena, ela pode se sentir excluída. Aqui, somos todos uma família.”
Para Rafael, o Dia dos Pais é a chance de reforçar o valor do exemplo. “Família não é quem tem o mesmo sangue, mas quem nos escolhe. É estar presente, ensinar coisas boas e ser refúgio para todos os momentos.”
Pai duas vezes
Morador de Mauá, Antônio Mendes, 67 anos, aposentado, viu sua vida mudar há pouco mais de duas décadas, quando precisou assumir a criação da neta Camila, hoje com 21 anos. A filha de Antônio, mãe de Camila, faleceu quando a menina tinha apenas dois anos, e ele não pensou duas vezes antes de acolhê-la.
“Eu já tinha criado meus filhos, mas criar uma criança naquela fase da vida foi um desafio enorme. Tive que reaprender a ter paciência, a brincar e até a ajudar nas lições de casa”, conta.
Com o tempo, o papel de avô deu lugar ao de pai. “Camila sempre me chamou de vô, mas também me chama de pai. Acho que é porque ela entende que eu estive lá em todos os momentos: nos primeiros passos, na formatura da escola e agora na faculdade”.
Para Antônio, o Dia dos Pais é duplamente especial. “Ser pai da minha filha e da minha neta é o maior orgulho da minha vida. É a prova de que amor e responsabilidade não têm prazo de validade”.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
