
As merendeiras de escolas estaduais de Ribeirão Pires estão lavando louças, panelas e outros utensílios com sabonete líquido de erva doce, isso porque há três meses faltam detergente, álcool, esponjas e até uniforme para as profissionais que preparam as refeições do alunos. A responsabilidade de fornecer esses materiais é da empresa CML Alimentação, empresa contratada pelo Estado para esse serviço. O RD ouviu funcionárias e também Genivaldo Barbosa da Silva, presidente do SEERC ABC (Sindicato dos Empregados de Refeições Coletivas e Merenda Escolar no ABCDMR) que confirmou as denúncias.
Uma funcionária que pediu para não ser identificada por medo de represálias da empresa, conta que já são três meses lavando pratos, talheres e panelas com sabonete líquido de Erva Doce, cedido pela direção da escola porque não há detergente. “Isso é ruim porque não é o produto certo, e deixa cheiro nos utensílios da cozinha. Além disso também falta álcool, cloro, sacos para embalar hortifruti e para por lixo. A gente está trabalhando sem uniforme, luvas e outros itens de proteção”, relata. A merendeira conta que além do básico para trabalhar a empresa ainda atrasa o pagamento de vale transporte e vale refeição, além de não depositar o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).
Uma funcionária da CML que se afastou por conta destas situações desistiu e pediu a rescisão indireta do contrato de trabalho. Ela ganhou na justiça trabalhista o processo contra a empresa em março, mas até agora, cinco meses depois, ainda não recebeu seus direitos, nem teve a baixa na carteira de trabalho, o que lhe impede de conseguir outro emprego. “Eu cansei daquela situação, era atraso de salário, faltava material de limpeza e a empresa ainda colocava dois funcionários para fazer o papel de quatro, sofri humilhação, tanto que processei, ganhei e até agora não me pagaram nada. Minha advogada tem que pressionar a empresa que não cumpriu a sentença judicial”, explica.
Entre as escolas que estão com esses problemas, estão as que têm período normal e também PEI (Programa de Ensino Integral) como a Escola Estadual Casemiro da Rocha, onde estudam 1,5 mil alunos. Outros colégios em que as merendeiras atuam e que também estão com esses problemas são: Antonio de Pádua Godoy, Maria Pastana Menato, Judith Ferreira Piva, Senador Casemiro da Rocha, Professora Ruth Neves Sant Anna e Professor João Gaudêncio Mainine. Em todas a contratada para o serviço é a CML Alimentação.
O SEERC ABC confirmou todas as denúncias. Segundo o presidente, Genivaldo Barbosa da Silva, o sindicato diz que a conduta da empresa com os funcionários tem sido assim há tempos. Em janeiro, revoltadas com o atraso nos salários as merendeiras realizaram um protesto em frente à URE (Unidade Regional de Ensino) de Mauá, a que as escolas de Ribeirão Pires estão submetidas. Depois de uma reunião com sindicato e trabalhadores a empresa se comprometeu a pagar os atrasados, porém só depois de ameaça de greve.
“Não tem nada mais dolorido do que deixar as crianças com fome, mas parece que é isso que a CML quer. A gente tenta conversar com a empresa e ela não dá retorno nenhum. Essa situação da falta de produtos de limpeza e de uniforme é antiga e acontece em todo lugar onde essa empresa atua e o pior é que ela continua prestando serviço para o Estado”, critica o sindicalista.
Ainda de acordo com Silva, o governo deveria fiscalizar melhor os contratos. “A gente tenta falar com a secretaria de Educação e sequer nos ouvem. Não é possível que uma empresa com tantos problemas e o Estado não fez nada ainda. Essa situação de lavar louça com sabonete líquido de Erva Doce pode trazer alguma contaminação para a comida das crianças. O nosso entendimento é que o Estado não está fiscalizando esse contrato como deveria”, aponta.
O presidente do sindicato diz que vai encaminhar ofício a URE de Mauá e se até o final da próxima semana a situação perdurar vai iniciar a mobilização da categoria que pode levar de uma paralisação de advertência até greve. “O maior problema está em Ribeirão Pires, pois atrasam salário, atrasam os benefícios, não depositam FGTS nem INSS. São trabalhadoras que ganham cerca de R$ 2 mil, ou seja, já ganham pouco e ainda têm que se submeter a isso, assim fica quase como trabalho escravo”, completa Silva.
O RD entrou em contato com a empresa através do e-mail institucional da CML, para pedir um posicionamento sobre as críticas das merendeiras, mas até o fechamento desta reportagem não houve resposta. O espaço está aberto e a matéria será atualizada se houver retorno da empresa.
Em nota, a Secretaria de Educação diz não ter queixas formalizadas sobre a falta de materiais nas escolas de Ribeirão Pires. “A URE (Unidade Regional de Ensino) de Mauá esclarece que não foram formalizadas ocorrências de falta de insumos para a execução dos serviços nas escolas citadas pela reportagem. No acompanhamento realizado, a empresa terceirizada vem apresentando os comprovantes necessários para comprovação do fornecimento dos insumos previstos contratualmente. A URE de Mauá e as unidades permanecem a disposição da comunidade escolar para esclarecimentos”.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
