O punk é inocente
Nota: pouco antes desse texto ser postado, chegaram as atualizações no Uol e no Estadão: a polícia descartou envolvimento de punks no crime dos Jardins. A caixa preta do crime – que já tem mais advogados do que indiciados – está precisando revelar, tanto quanto a sua autoria, por que diabos a imprensa está errando tanto. Por mim, tudo bem: o erro indicou que o texto abaixo está correto.
Faltam muitos esclarecimentos nas notícias do Uol e do Estadão sobre o garçom que foi morto a facada nesta madrugada num bar nos Jardins. Os dois veículos estampam na manchete: quem matou John Clayton Moreira Batista foi um grupo de punks.
Então se estabelece o paradoxo: ou a mídia está se referindo a um grupo de carecas – skinheads, white powers, é tudo a mesma merda – ou os rapazes que fizeram o arrastão de violência na rua da Consolação eram apenas idiotas que se diziam punks.
A verdade é que, ultimamente, grande parte das pessoas que se dizem punks é idiota. O que, se não justifica, pelo menos explica o desconhecimento dos repórteres sobre o tema – e, conseqüentemente, o desconhecimento de uma das vítimas, que disse que grupos como este manifestam ódio contra nordestinos, negros e homossexuais.
Bem, se o grupo em questão fez isso, punk não era. Podia se proclamar – você sabe como os adolescentes são –, mas não era.
Recapitulando: o que se convencionou chamar de movimento punk começou como um golpe de marketing aplicado por um estilista inglês, Malcolm McLaren. Mas, quando chegou às ruas de Londres e do mundo, ganhou uma elevada dose de honestidade. Eram os anos 70, em que o mundo estava deprimido pela inação e por uma violenta separação entre países irmãos. O punk, agressivo, debochado, significava frescor, choque. A molecada embarcou na hora.
O grupo que McLaren fundou, os Sex Pistols, se dizia anarquista. Não era. É meio difícil ser anarquista quando o que você quer é vender as roupas de sua butique. Mas seu sucesso levou multidões a estudar o que era o anarquismo, e alguns viraram adeptos – no quê, em minha opinião, fazem bem. Mas nem todos os ídolos punks fazem propaganda desta corrente específica: o Clash, que na verdade era muito mais intelectualizado e politizado do que os Pistols, se compunha de trotskistas declarados.
Anarquistas ou trotskistas, em todo caso, não são notoriamente adeptos do ódio racial ou da homofobia; estão mais para o contrário. Grande parte das políticas afirmativas e das leis de combate ao racismo e à xenofobia, goste-se ou não delas, foi criada por praticantes ou simpatizantes das duas correntes.
Nem pela agressividade exagerada os punks podem ser acusados. Os primeiros atos de violência envolvendo o grupo na História tinham-no como vítima: na Inglaterra, os súditos da rainha parecem não ter gostado de vê-la acusada de fascista e partiram para o pau. No Brasil, entretanto, o movimento já chegou casado a uma cultura de violência. Em parte porque estamos compreensivelmente habituados a importar mais o glamour do que os ideais pertinentes às coisas novas. Assim, de fato, muita gente deixou as idéias políticas de lado, botou prego e taxinha no nariz e saiu por aí batendo nos outros. Uma prática, portanto, que já vem dos anos 80. Mas eles não eram punks, e sim vândalos fantasiados.
E houve as rupturas políticas. Na própria Londres dos 70, e na Paris e na Los Angeles dos anos 80, muito punk, em vez de ler os escritos anarquistas de Bakunin ou o manifesto de Proudhon sobre a propriedade, leu foi o Mein Kampf – ou, antes, alguém leu para ele. Aí o caldo entornou e surgiram os skinheads.
Santo André, a minha cidade, que é um celeiro de grandes idéias políticas, tem também, infelizmente, o outro lado da moeda. Por um longo tempo ela surgiu como a cidade dos carecas brasileiros. Já conheci alguns deles. Não têm dois neurônios na cabeça; muitas vezes não sabem falar, não são chegados a leitura – preferem distorcer as orelhas no tatame – e, quando têm algum tipo de atuação política, é normalmente como massa de manobra.
À boca miúda entre os punks andreenses, que conservam em relação aos skinheads uma inimizade de morte, corre o nome de Anésio S. (sendo “S” abreviação de um sobrenome muito famoso ligado à esquerda aristocrática paulistana), uma espécie de patrocinador dos skinheads. Patrocinador de bobagens: folhetos e cartazes que surgem colados na cidade, pregando o ódio aos gays e a nordestinos, são quase ininteligíveis, tamanha a dificuldade que os carecas têm em se manifestar. Quando a pancada é o seu único meio de comunicação, o homem regride.
25/06/07 às 11:20
Mais um episódio a comprovar a indigência intelectual que toma conta de nossa imprensa, que às vezes apresenta-se em estado puro, de forma “não instrumentada” - ignorância simples - outras vezes, a maioria delas, serve como base para a defesa de teses obscurantistas, que visam criminalizar movimentos sociais legítimos.
Exemplificando: Hoje, segunda de manhã, acordo e vejo o “Bom Dia BRasil”, da Globo, trazendo uma “matéria” sobre a “violência juvenil”. Pois bem: numa seqüência, mostram o bárbaro crime do Bar Amarelinho (esse comentado por vocês), em que continuam batendo na tecla dos supostos “punks”, mostram a bárbara agressão da empregada doméstica no Rio por uma gangue de imbecis moradores em condomínios de luxo, e, no meio, o que seria o “estrago” provocado pelos estudantes que ocuparam a Reitoria da USP.
Ou seja, a ocupação da Reitoria da USP por estudantes, foi nivelada e comparada assim a ações criminosas hediondas ! De mobilização coletiva e social, com fins claros e públicos, independente de se concordar ou não com eles, foi rebaixada a simples baderna e bagunça de jovens mais uma a se somar a outros crimes cometidos por gangues etc.(e isso, como disse o apresentador “na maior Universidade Pública do país” - oh ! meu Deus, que barbaridade, para onde vamos etc….), e que, portanto, deve ser inserida numa matéria sobre delinqüência juvenil .
Nojenta, simplesmente nojenta, essa manipulação …
Grande abraço,
Aylton