Em entrevista ao RDCast nesta terça-feira (03/11) o ex-prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior (PSD) colocou mais gasolina na relação explosiva entre seu grupo político e o do prefeito Tite Campanella (Republicanos). Segundo o social democrata, o atual prefeito promoveu um tesouraço na área social, que já refletiu em desaprovação nas urnas, com a candidata a deputada estadual apoiada pelo chefe do Executivo, Carla Morando (PSDB) com baixa votação na cidade, segundo sua análise. Auricchio também falou sobre a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigou as contas do seu mandato e disse que ela foi montada sobre documentos fraudados.
Na sua análise, Auricchio diz que a área da saúde foi a que sofreu mais cortes na gestão Tite, porque o atual prefeito mudou o rumo do projeto definido na campanha. “O que há de verdade é um abandono do projeto eleitoral que nós participamos em 2024, por parte de quem está no comando hoje. Nós tínhamos um projeto de continuidade, o lema da campanha era um futuro seguro, mas já nos últimos dias do meu mandato, houve uma inversão de rota abandonando esse projeto e isso em trazido consequências sérias, o Pronto Cardio é um exemplo. Se pegar hoje o projeto que existia foi desfigurado, decapitado. Todas as frentes da saúde pública foram desorganizadas e isso trouxe prejuízos significativos. A cidade está patinando, estagnou, que entrega que houve em dois anos? O terminal rodoviário que deixamos quase pronto, o complexo da pessoa com deficiência que deixamos só para mobiliar, isso não é entrega. A Câmara aprovou ontem a conversão do Hospital Veterinário em clínica veterinária só essa ementa traz o tamanho do prejuízo. (O Tite) ganhou a eleição com um projeto e está executando outro e o maior termômetro é a urna”, ataca o ex-prefeito.
Auricchio citou também outros cortes de programas que levaram a sua marca, como o Restaurante Popular e a Tarifa Zero no transporte público. Fazendo menção a expressão usada na campanha do candidato à presidência derrotado, Flávio Bolsonaro (PL), o ex-prefeito falou dos cortes. “Esse é um tesouraço social que o prefeito tem patrocinado em São Caetano, se pegar a área social todas tiveram cortes, mostra que aqueles que mais precisam não importam. O que importa é cortar e modificar marcas, o Restaurante Popular tinha voltado para a população da terceira idade, desmontar por desmontar é tesouraço, não é governar. Na saúde terceirizaram especialidades e não se consegue retorno, quando consegue mudou o médico e para a empresa só interessa é ter alguém lá para faturar a consulta. Extinguiram a telemedicina dizendo que era arcaica porque o paciente tinha que ir ao hospital mas tem fatia da população em exclusão digital e colocaram uma empresa que nem é de medicina é de telemarketing que tem uma enfermeira lá dizendo para você tomar dipirona e ir no hospital no dia seguinte, destroçaram o sistema. Eu não me envolvi nessas questões, mas pretendo me envolver porque a sociedade nos demanda”, disse o ex-prefeito.
Além da mudança do programa Tarifa Zero, que deixou de ser universal, com uma redução de custos pequena para o município, segundo sua avaliação, Auricchio apontou também que nunca desde a gestão Walter Braido, nos anos 60, São Caetano não deixou passar um ano sem entregar uma unidade escolar, ciclo que é interrompido na gestão Tite Campanella. “No caso da Tarifa Zero a redução de custo da prefeitura foi muito pequena e se teve uma perda de alavancagem financeira na cidade com a circulação de pessoas externas. As escolas estão sem reforma estrutural, estamos na metade do mandato e não há entregas. Vamos fechar um período de quatro anos sem entregar uma unidade educacional para São Caetano, que é uma tradição, desde Braido, Tortorello e nossa que a cada ano se entregava uma unidade. Pelo contrário fecharam duas unidades de educação infantil, a Zilda Natel que eu fechei nos últimos seis meses porque o prédio estava ruim, mas era fazer uma reforma e reabrir, e a EMEI Cláudio Prieto que eu entreguei fecharam para fazer núcleo de educação inclusiva. Então tiraram dois equipamentos de educação infantil que é o cérebro do nascimento da educação do cidadão.
Odioso
O período em que o grupo de Auricchio ficou fora do comando da cidade, foi na gestão Paulo Pinheiro (2013/2016), que rompeu quando não teve espaço para sair candidato, saiu do grupo e ganhou a eleição. Mesmo na oposição, Auricchio disse que não houve ruptura do plano para a cidade como ocorre agora. “O período que o ex-prefeito Paulo Pinheiro ficou, teve um comportamento próximo, não tão maldoso e odioso como esse, de questionar contas e dívida”, disse ao RDCast.
Auricchio criticou também a dificuldade para acessar documentos, alguns ele precisa agora para fazer a defesa no Tribunal de Contas do Estado, das finanças do seu governo no ano de 2024. “Eu não tenho acesso a documentos, essa defesa que estou fazendo agora é com documentos fracionados que eles não nos entregam inclusive com liminar judicial”.
Eleições
Com a experiência de uma família que já disputou e venceu sete eleições, Auricchio falou sobre o fenômeno da campanha realizada em rede social, da regulamentação das Big Techs e que defende uma reforma política com a implementação do voto distrital. “Há um novo e consolidado modo de comunicação e de conexão do eleitor com os políticos e quem não se adaptar a isso vai ter dificuldade nas eleições. O modo tradicional de buscar o voto está modificado”, disse sobre a campanha nas redes. Porém o ex-prefeito avalia que a eleição municipal ainda terá muito conteúdo de corpo a corpo com o eleitor. “O ambiente é diferente, na eleição municipal tem mais corpo a corpo, mas isso não abandona o digital, vai ser um modo híbrido”.

Coordenador da campanha vitoriosa do filho Thiago Aurichio (PL), o ex-prefeito disse que essa revolução digital nas campanhas nunca foi tão forte e descreveu o trabalho como árduo. “Vai ter presença digital, mas vai ter que se discutir muito mais olho no olho. Ainda acho que para a eleição municipal o modelo híbrido vai funcionar. A gente espera dos organismos do controle sobre o modelo. O voto digital é democrático, mas precisa para quehaver ajustes não tenha propensão maior para um lado ou para o outro, não pode deixar de atender um político que cruza o Estado de São Paulo em detrimento de um político que fala com milhões de pessoas num clique”, analisa.
Thiago Auricchio
O mais votado de São Caetano para deputado estadual foi Thiago Auricchio (PL). O pai coordenou o trabalho pela reeleição fo filho e diz que teve que enfrentar a máquina da prefeitura, sendo esse o pleito mais difícil que a família enfrentou.
“Foi uma eleição muito atípica. Faço aqui um resumo muito claro; minha família disputou sete eleições, graças da Deus ganhamos as sete, mas essa foi a mais árdua que tivemos na minha casa, por uma série de circunstancias, pelos fatores digitais e fatores locais. Tivemos o maior número de candidaturas a deputado estadual, cinco com o Thiago, sendo uma delas candidata oficial do governo, da máquina. Todas as noites tinham reuniões com 200 a 300 colaboradores, servidores públicos gratificados ou comissionados, quase que obrigados a participar, que trouxe um resultado pífio para o governo. A candidata teve 6 mil votos. O prefeito, os 16 vereadores, mais o governo trabalharam para darem 2 mil votos a mais, para a candidata que já tinha 4 mil votos. Com toda essa força-tarefa que fizeram acho que a gente saiu em um tamanho razoável. As urnas falam pelas pessoas”, calcula Auricchio.
Voto distrital
Auricchio disse que sempre defendeu o voto distrital. “Se olhar as grandes democracias, todas elas têm a presença do voto distrital. Não dá para conceber que um candidato tradicional que anda 600 quilômetros para falar com uma comunidade e o candidato digital fala com essa comunidade com milhões de outros eleitores num clique de telefone. A extinção do político tradicional não é conveniente para a Democracia. Eu acho que o distrital misto é a melhor maneira, mantém a forma clássica, mas cria os distritos eleitorais.
“Eu acho que já passou da hora de ter ajustes. A reforma política é muito importante. Inclusive na questão dos eleitos por campanha digital, que precisa ter a regulação das Big Techs. Não podemos ter esse ringue desenfreado que vimos na eleição com a Meta sendo a grande provedora do bem ou do mal de cada candidatura. Assistimos nas duas candidaturas a presidente, agora imagina nos governos estaduais, para deputados e para o Senado”.
Lula x Flávio
Flávio Bolsonaro (PL), como esperado, foi o mais votado em São Caetano, porém sua vantagem para lula diminuiu no segundo turno. Auricchio também comentou sobre isso e disse que a estratégia de comunicação do PL não foi tão eficiente como a do PT. “A gente já esperava isso (a vitória em São Caetano), agora a margem ficou menor. Nessa eleição foi disputado quem tinha a menor rejeição e eu acho que entre o primeiro e o segundo turno a campanha do Lula conseguiu comunicar para a sociedade, diminuindo a rejeição dele, porque todo mundo sabe o que o Lula vai fazer no dia seguinte, diferente do eleitor que votou no Flávio no primeiro turno e no segundo turno acendeu uma luz amarela para observar melhor. A campanha do Flávio cometeu alguns equívocos que elevaram de maneira substancial a rejeição dele”, disse.
O ex-prefeito diz que a tendência do PSD é de alinhamento com o governo Lula, captaneada pela liderança do presidente nacional Gilberto Kassab. “O Kassab tem uma tendência de aderir ao governo do presidente Lula, como ele se propos a fazer também com o governador Tarcísio. Nao sei o espaço que terá no governo do Estado, mas no Federal, deixou claro que, condicionado às questões econômicas, deve caminhar com o governo”, disse. Ele também diz que já há reuniões para o planejamento da eleição municipal de 2028, mas ele nega participar destas conversas tampouco colocar seu nome. “Na medida que você tem um projeto de cidade que não é o que atende à maioria das pessoas surge uma discussão de mudança de rota. As pessoas começam a olhar o cenário local, mas a discussão disso começa isso ano que vem”
CPI da dívida
Sobre a CPI da Dívida na Câmara de São Caetano, Auricchio disse que ela foi montada sobre documentos fraudados e que há perseguição do atual governo sobre ele. “Há por parte do governo atual uma sanha persecutória em todos os aspectos e acham que uma questão de contas é algo que me impediria. Primeiro que não estou pensando em eleição e outra que a CPI está sob judice, feita com documentos fraudados. Temos que ter convicção do que nós fizemos, a minha obra está posta, os números também, quem vai julgar é o tribunal de contas. O TCESP fez apontamentos negativos, mas eu nem fiz a defesa ainda, vou fazer essa semana, mas eles estão nessa sanha percecutória de colocar como se isso fosse um diagnóstico definitivo”, diz.
O ex-prefeito de Mauá, Átila Jacomussi (PRD), reeleito deputado estadual foi citado por Auricchio como exemplo de quem teve contas rejeitadas e mesmo assim ficou apto para a eleição deste ano. “O Átila Jacomussi teve quatro contas rejeitadas como prefeito de Mauá, tanto pelo Tribunal quanto pela Câmara e registrou candidatura, ganhou eleição e vai assumir mandato de deputado. Para tapetão precisa arrumar coisa melhor, agora precisa ganhar no voto”, diz.
“A CPI é proveniente de documentação fraudada produto de um inquérito policial que está em análise técnica pericial. São documentos fraudados, suspeita de peculato, falsificação de documentos públicos, então não dá nem para discutir sobre uma comissão que nasce com esse tipo de investigação manipulada por uma instituição que tem a sua contratação questionada junto aos órgãos de controle. Querem desperdiçar o Tribunal de Contas a favor de uma questão dessa com viés político, mas não dá para levar a sério”.
Tarcísio de Freitas
José Auricchio Júnior tece elogios ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) reeleito para o segundo mandato e diz que ele sai com cacife para ser escolhido o candidato do campo da direita para disputar a presidência em 2030. Eu coloco ele na primeira prateleira, ao lado de Mário Covas, onde está (Geraldo)Alckmin, (José) Serra. Ele ganhou uma eleição com votação expressiva e tem o desafio da segurança pública junto com a mobilidade urbana. O Alckmin deixou a linha 18 com as áreas decretadas de utilidade pública aí vem o João Doria que mudou tudo para um BRT que não se conclui fora o prejuízo econômico para o Estado que é grande. Acho que dessa vez (o Metro) vai. O Tarcísio é muito de entrega, nisso ele me lembra o Mário Covas. Naturalmente a sociedade vai buscá-lo como candidato à presidente”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
