
O último encontro antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 confirmou o clima de polarização extrema que divide o país. Na noite desta sexta-feira (23/10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram um debate nos estúdios da TV Globo. Em vez de focarem estritamente em propostas, os candidatos trocaram ofensas pessoais, apelidos pejorativos e graves acusações de corrupção.
O tom bélico foi estabelecido desde o primeiro bloco. Flávio Bolsonaro atacou o presidente referindo-se a ele como “nove dedos” ao criticar a política econômica do governo. O petista não recuou e tachou o adversário de “miliciano”, afirmando que não aceitaria tal desrespeito de alguém com o histórico do senador fluminense.
A dinâmica do debate, que contou com blocos de perguntas temáticas e um bloco de embate direto com tempo livre, evidenciou duas estratégias claras: Flávio tentou colar em Lula a imagem de um governo gastador, responsável pela inflação e pelo avanço do crime organizado; já Lula focou em associar o senador a esquemas de corrupção, milícias e irresponsabilidade na gestão pública herdada do governo de Jair Bolsonaro.
Segurança pública: o ponto de maior tensão
O tema da segurança pública rendeu os momentos mais acalorados da noite. Flávio Bolsonaro apresentou propostas linha-dura, prometendo classificar facções como PCC e Comando Vermelho como “narcoterroristas”, com penas de até 80 anos para seus líderes. O candidato do PL também defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos (e 14 anos em casos de estupro), trabalho obrigatório em presídios e castração química para estupradores. “Vou tratar bandido como bandido”, cravou.
Lula contra-atacou atingindo o calcanhar de Aquiles do histórico político da família Bolsonaro no Rio de Janeiro. O petista citou o caso da menina Ana Clara, de 5 anos, morta por um tiro de fuzil, e questionou o fato de Flávio ter atuado como advogado do policial réu pelo crime. “O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos? Explica, que território é esse? O território da bala?”, disparou Lula, acusando ainda o adversário de ter condecorado e empregado familiares de milicianos na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).
Flávio se defendeu afirmando ter confiança de que o policial não foi o autor do disparo e culpou o que chamou de “narcoterroristas defendidos por Lula” pela violência nos territórios marginalizados.
Economia, obras e o “Pai do Tigrinho”
Na seara econômica e social, os candidatos apresentaram visões opostas. O senador do PL afirmou que o país voltou a ser um “cemitério de obras”, citando um relatório do TCU que aponta 11.500 obras paralisadas, e acusou Lula de asfixiar a população com a maior carga tributária da história e juros altos.
Lula defendeu seu legado, afirmando que nenhum governo investiu tanto em infraestrutura — citando a Transnordestina e rodovias federais — e lembrou que herdou milhares de obras paradas da gestão anterior. O presidente também focou na valorização real do salário mínimo, afirmando que, se dependesse de gestões anteriores, o piso nacional estaria na casa dos R$ 900.
A educação também foi palco de farpas. Ao ser questionado sobre o ensino integral, Flávio mudou abruptamente de assunto para atacar o petista sobre a regulamentação das casas de apostas online. “Ele é o pai do Tigrinho, ele é o pai do cassino online”, acusou Flávio. Lula rebateu lembrando que a lei que liberou as apostas esportivas no Brasil foi sancionada no governo de Jair Bolsonaro e destacou a recriação do programa Pé-de-Meia para manter jovens na escola.
Ilhas, Uísque e Vacinas: o bloco livre
O quarto e último bloco, de tema livre, transformou-se em uma metralhadora de denúncias de lado a lado. Lula trouxe à tona uma disputa fundiária envolvendo o jogador de futebol Richarlison, acusando o advogado Willer Tomaz, ligado a Flávio, de ter tomado uma ilha em Angra dos Reis com a ajuda de um ex-diretor indicado pelo senador. Flávio negou envolvimento, disse que a ilha nunca foi do jogador e afirmou que o atleta teria comprado as terras de “um invasor do MST”.
O presidente também ligou Flávio a Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o acusou de ter negociado vacinas (Covaxin) dentro de um barco durante o auge das mortes na pandemia de Covid-19. Em resposta, Flávio negou as acusações, disse que Vorcaro apenas financiou um filme privado sobre Jair Bolsonaro e acusou Lula de ter recebido uma garrafa de uísque Macallan de R$ 500 mil do mesmo banqueiro — o que o presidente negou.
Considerações Finais
Nas considerações finais, a dois dias da ida às urnas, Lula pediu desculpas ao eleitorado pelo nível do debate e alertou contra o risco democrático. “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando esse país dentro do Palácio do Planalto”, concluiu.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, mirou no bolso do eleitor e no eleitorado conservador. Prometeu devolver o poder de compra, elogiou o pai, Jair Bolsonaro (“que está sendo injustiçado”), e encerrou sua participação pedindo que os telespectadores rezassem um Pai-Nosso.
Mais de 150 milhões de brasileiros estão aptos a ir às urnas neste domingo (25) para decidir quem comandará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos.
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