
Nos últimos anos temos ouvido falar muito sobre fake news, é inegável que esse termo ficou comum nas conversas entre as pessoas, na internet e nas redes sociais. Mas talvez ainda precisamos entender melhor quais são os impactos dela na nossa vida.
As fake news são, em tradução literal, notícias falsas produzidas sobre a realidade. A própria palavra “notícia” já nos remete a um elemento importante das fake news, que é o uso da roupagem jornalística para que essas informações sejam vistas como verdadeiras pela população. Isso quer dizer que, geralmente, esse conteúdo é apresentado como se fosse criado por jornalistas, utilizando termos como “Notícia de última hora! Urgente!”. Aqui ocorre uma tentativa de empréstimo da credibilidade do jornalismo para facilitar a crença na notícia propagada, porém, o conteúdo apresentado não possui compromisso com a verdade, como o jornalismo presume.
O formato como esse conteúdo aparece também não é fixo, pode aparecer como texto, imagem ou vídeo. Atualmente, com o desenvolvimento de tecnologias como IA, percebemos uma qualidade cada vez maior na produção de imagens e vídeos falsos, sendo difícil diferenciar o que é verdade e o que é mentira. Além disso, por vezes o conteúdo das fake news não é completamente falso, pois estrategicamente as informações enganosas são misturadas a um fato verdadeiro já conhecido, buscam justamente dificultar a percepção de que se trata de uma mentira. Assim, temos cada vez mais dificuldade de diferenciar o que é verdade e o que é mentira, e tendemos a perceber toda a informação como correta.
Podemos nos perguntar também qual é o intuito das fake news, ou num bom português: por que fazem tantas fake news? De uma maneira direta, respondemos que o objetivo é justamente gerar confusão na população, enganar o máximo de pessoas possível. O uso da mentira ocorre quando percebemos que as pessoas agiriam de uma maneira X diante da verdade, e não queremos isso, então mudamos a própria verdade para que elas ajam de forma Y. Seguindo essa lógica, chegamos à conclusão de que as fake news são uma forma de manipulação da população.
Não é novidade a divulgação de mentiras e a tentativa de manipulação da população, mas atualmente as fake news atuam como um sistema complexo que chega a um número enorme de pessoas. Passamos de fato a perceber um fenômeno curioso, em que as pessoas podem chegar a ver a própria realidade como falsa, e a versão fantasiosa como verdadeira. Nesse processo, decisões podem ser tomadas com base na mentira contada, mas possui efeitos na realidade concreta.
Um exemplo foram as campanhas que reiteravam que a vacina contra covid-19 poderia alterar o DNA das pessoas. Aquelas que acreditavam nessa mentira e não tomavam vacina com base na mentira acabavam por aumentar as chances reais de desenvolver complicações da doença e possivelmente evoluir a óbito. Uma decisão com base no mundo fantasioso afetava diretamente o mundo real. Por sua vez, o efeito desejado para os autores das séries de fake news foi a diminuição da pressão pela compra de vacinas, dever do governo federal na época.
Quando olhamos para o campo político-eleitoral, percebemos um sistema de mentiras atuando fortemente também nos últimos períodos eleitorais brasileiros. Os efeitos do uso massivo de fake news para a população é incalculável, pois como dissemos há uma rede de mentiras que produz uma versão fantasiosa da realidade, podem causar uma distorção da percepção do que é verdade. Com isso, a população pode passar a votar com base em mentiras divulgadas, sejam elas informações falsas positivas sobre um candidato, ou mentiras negativas sobre o opositor.
E o que leva uma pessoa a acreditar em determinada informação? A psicologia apresenta que há uma tendência para acreditarmos em notícias que reafirmam aquilo que já pensamos ou desejamos. Assim, se eu penso/desejo algo e vejo uma notícia que afirma isso, tendo a acreditar nela sem que seja necessário confirmar. Nesse mesmo sentido, aquelas informações que contrariam o que eu penso ou desejo, ainda que sejam verdadeiras, podem ser ignoradas por mim, pois afetam não apenas minha crença, mas uma parte significativa de quem eu sou. Além disso, a confiança na pessoa que fala ou encaminha determinada informação influencia de maneira significativa nessa crença.Então, se uma pessoa em quem eu confio (familiar, líder, artista) apresenta uma informação, é mais provável que eu acredite nela.
Se atualmente vivemos num mundo com distintas versões sobre a realidade, sendo muitas delas contraditórias, observamos então parcelas da população que acreditam em informações extremamente distantes sobre ela, vivem de acordo com versões diferentes da mesma. Diante disso, percebemos atualmente um afastamento entre as pessoas e mesmo o rompimento de laços entre amigos, familiares e comunidade. A percepção tão distinta sobre a realidade impossibilita que haja um ponto de concordância, produzindo uma dificuldade ainda maior na construção coletiva.
O pacto democrático – que prevê o diálogo entre diferentes opiniões – fica comprometido quando não compartilha o mesmo ponto de partida: a verdade. Portanto, chamo a atenção para a necessidade de medidas mais rígidas para o controle das fake news, inclusive juridicamente. É inadmissível que decisões tão sérias como a eleição de representantes do povo possam ser manipuladas sistemicamente sem que haja qualquer repreensão. Em paralelo, o movimento atual que solicita ao jornalismo a checagem de informações em tempo real nos debates televisionados também é uma tentativa valiosa para manter a disputa eleitoral no campo democrático, com base na realidade concreta e nos problemas do Brasil real.
Essa mudança é fundamental para que se respeite a população, que precisa passar a ser vista como digna de tomar suas próprias decisões com base na verdade, e que em momento algum deve ser enganada ou manipulada.
Gabriela Araújo Fornari é psicóloga pela PUCPR, mestra e doutora em psicologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), com doutorado sanduíche em filosofia política na UBI-Portugal, atualmente professora de psicologia na Unioeste, pesquisadora sobre as relações entre psicologia, política e virtualidade e autora do livro ‘Caminho sem chão: um estudo existencialista sobre fake news’.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
