O câncer de mama é o tipo de tumor mais frequente entre as mulheres no Brasil, excluídos os cânceres de pele não melanoma, e deve registrar 78.610 novos casos por ano no país entre 2026 e 2028, segundo estimativa do INCA (Instituto Nacional de Câncer). Além do volume de diagnósticos, o aumento dos casos entre mulheres mais jovens chama a atenção para a necessidade de avaliar a idade de início dos exames preventivos, sobretudo diante de fatores como histórico familiar e alterações nas mamas.
A oncologista clínica Vanessa Miranda, especialista em tumores ginecológicos e mamários do Hospital São Luiz São Caetano e da Clínica OncoStar, da Rede D’Or, observa o aumento de diagnósticos em pacientes jovens e defende uma avaliação individualizada para definir o início da mamografia. O número de diagnósticos de câncer de mama em mulheres jovens (com menos de 40 anos) nos últimos anos representa cerca de 5% a 11,9% dos casos no Brasil.

Em entrevista ao RDtv, a médica explica que as faixas etárias tradicionalmente adotadas para o rastreamento não atendem a todas as mulheres da mesma forma.
“O que percebemos é o aumento do diagnóstico do câncer da mulher jovem, e por conta disso, estamos cada vez mais individualizando a decisão do início da mamografia, porque existem populações especiais de mulheres, como pacientes com histórico familiar, que devem realizar esse monitoramento antes desta faixa etária”, afirma Vanessa.
A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda a mamografia a partir dos 40 anos, enquanto a faixa etária citada pela médica para o sistema público começa aos 50 anos. Para Vanessa, porém, a idade não deve ser o único critério para a definição dos exames, sobretudo diante de antecedentes familiares de câncer de mama ou de outras doenças associadas a alterações genéticas. “Por esse motivo, a mulher mesmo antes dos 40 anos, deve procurar e acompanhar com o ginecologista para que esse profissional encontre qual vai ser a melhor faixa etária para iniciar esse acompanhamento”, orienta a oncologista.
A avaliação genética também pode identificar mulheres com risco elevado de desenvolver tumores. Entre as alterações conhecidas estão as mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, associadas ao aumento do risco de câncer de mama e de outros tipos de câncer, como os de ovário, próstata e pâncreas. A identificação dessas mutações pode levar à investigação de familiares e ajudar na definição de estratégias de prevenção e tratamento.
Autoexame
O autoexame é importante para que a mulher conheça o próprio corpo e perceba mudanças nas mamas, mas não substitui os exames de rastreamento nem a avaliação médica. A mamografia e o ultrassom estão entre os principais recursos para a investigação, conforme a indicação profissional.
A densidade mamária também interfere na escolha dos exames, em que no caso, mulheres mais jovens costumam ter mamas com maior quantidade de tecido glandular, característica que dificulta a visualização de alterações na mamografia. Nesses casos, o médico pode indicar exames complementares, como ultrassom ou ressonância magnética, de acordo com cada situação.
Entre os sinais que merecem avaliação estão nódulos endurecidos, alterações na cor ou na textura da pele, vermelhidão, endurecimento de uma região da mama e saída de líquido pelo mamilo. A dor também pode ocorrer, mas não é obrigatória para o diagnóstico. Por isso, a ausência de desconforto não descarta a doença.
Hábitos de vida influenciam o risco
Além do rastreamento, a atenção à saúde e aos hábitos cotidianos faz parte dos cuidados com as mamas. O consumo de álcool, o excesso de peso e a falta de atividade física estão entre os fatores associados ao aumento do risco de câncer de mama. O tabagismo também merece atenção, embora as evidências específicas para esse tipo de tumor sejam menos conclusivas. A amamentação, por sua vez, está associada à redução do risco, mas não impede todos os casos da doença.
A campanha Outubro Rosa também procura estimular o autocuidado, sobretudo entre mulheres que priorizam as necessidades da família e deixam a própria saúde em segundo plano. A orientação médica e a investigação de alterações suspeitas continuam essenciais, inclusive para quem ainda não atingiu a idade prevista para o rastreamento de rotina.
Tratamento e chances de cura
O diagnóstico precoce faz diferença nas possibilidades de tratamento e nas chances de recuperação. Vanessa destaca que a taxa de cura diminui à medida que a doença avança e que alguns tumores mamários podem apresentar índices de cura de 95% a 99%. “A taxa de cura é inversamente proporcional ao avanço da doença. Quanto maior e mais avançado, menor a chance de cura”, afirma a oncologista.
As mudanças no tratamento também permitiram cirurgias menos agressivas em muitos casos. No passado, alguns procedimentos exigiam a retirada de grandes volumes de tecido e até da musculatura do tórax. Hoje, é possível preservar mais tecido mamário, conforme as características do tumor e a avaliação médica. A radioterapia também evoluiu, com redução da toxicidade e do número de sessões em situações específicas, enquanto novas opções de quimioterapia e hormonioterapia ampliaram as possibilidades de resposta.
Apesar dos avanços, o acesso aos exames e ao tratamento ainda representa um desafio para parte das pacientes que dependem do SUS (Sistema Único de Saúde). Vanessa reconhece melhorias no atendimento público ao longo dos anos, mas ressalta que a espera por uma mamografia continua a ser uma dificuldade para algumas mulheres, o que pode atrasar a investigação de alterações suspeitas.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
