
A implantação do BRT ABC, obra que está sem previsão de data de entrega e sofre com o início de um processo de caducidade na Artesp (Agência Reguladora de Transportes Terrestres do Estado de São Paulo), vai impactar, quando pronta, em todo transporte público de três cidades do ABC e da Capital, inclusive em linhas de ônibus municipais. As cidades já se organizam com alterações no viário e no sistema de transporte municipal. O Consórcio Intermunicipal do ABC também quer definição de nova data para entrega.
O contrato de concessão e construção do BRT ABC foi assinado em março de 2021, após o governo do Estado desistir da linha 18-Bronze do Metrô. A previsão era de início imediato das obras e dois anos para conclusão. Vários prazos foram dados para a entrega do corredor de ônibus diante de obstáculos físicos para a obra, como postes e redes de água e gás, além de demora no licenciamento.
Outubro deste ano foi a última data de entrega prevista pela Next Mobilidade, concessionária que opera o corredor metropolitano de ônibus, as linhas intermunicipais da extinta área 5 (que corresponde ao ABC) e também é encarregada da construção e operação do BRT ABC. Nos últimos meses, no entanto, diante da pressão feita pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que anunciou a possível caducidade em visitas à região, ficou firmado que até fim deste ano a obra seria entregue.
Prejuízo a usuários e aos municípios
Com o processo de caducidade do contrato já iniciado, além do corredor em construção a Next pode perder a concessão das demais linhas intermunicipais na região. A preocupação é de que o sistema demore ainda mais para ser entregue e cause prejuízo a usuários e aos municípios do ABC que estão com corredor parado e aguardam para ajustar as linhas municipais ao sistema do Estado. O Consórcio quer respostas.
“Temos uma reunião agendada para o começo de novembro com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo. Neste encontro, a sequência do projeto do BRT-ABC, entre outros temas pertinentes à região, estará na pauta para sabermos mais detalhes do andamento das obras e detalhes sobre essa possível caducidade do contrato que tem sido levantada e noticiada pela imprensa regional”, afirma o secretário executivo do Consórcio, Gilmar Viana.
O representante do Consórcio diz que essa busca por definições passa também por ouvir justificativas e previsões da própria Next. “A nossa maior preocupação, como Consórcio que representa os municípios da região, é sobre o impacto direto ao usuário, quanto tempo mais os moradores terão de esperar para poder usufruir deste sistema, onde haverá integração com outros modais. Há várias questões que precisam de esclarecimento por parte da STM, Artesp e da concessionária responsável pelas obras. Se entendermos necessário, poderemos fazer um convite, sim, para que a empresa apresente detalhes sobre o futuro deste importante projeto para a região”, resume Viana.

Tempo de deslocamento
Quem também quer respostas são os usuários do transporte. A estudante B., de 17 anos, está no ensino médio e mora no bairro Jordanópolis em São Bernardo. A jovem quer fazer faculdade de fisioterapia em 2027 e um dos cursos que despertou seu interesse foi o da Faculdade de Medicina do ABC, mas o deslocamento até o bairro Príncipe de Gales, em Santo André é um obstáculo que poderia ser contornado com o BRT.
“Não é longe, mas de ônibus eu teria de pegar dois intermunicipais, com gasto de R$ 12 que é o custo de duas passagens e mais de uma hora, pelo que se em hoje. Com o BRT eu pegaria o ônibus do corredor de trólebus perto de casa, desceria no Centro e pegava o ônibus do BRT até a estação Fundação. Estou torcendo para ficar pronto logo, senão a opção pode ser por uma faculdade em São Paulo já que o tempo de deslocamento é o mesmo contando com trólebus e Metrô”, lamenta.
Em nota, a Next Mobilidade diz que os motivos do atraso nas obras estão, neste momento, concentrados no trecho da Capital e estão diretamente ligados ao remanejamento de estruturas da rede elétrica nos trechos por onde a pista exclusiva para ônibus vai passar. A empresa diz que a primeira fase do corredor, a que passa por Santo André, São Bernardo e São Caetano, já está pronta e que, há mais de 90 dias, pediu a autorização da Artesp para iniciar a operação parcial neste trecho, mas o pedido não foi atendido.
“A Next Mobilidade aguarda da Agência Reguladora a liberação para funcionamento do primeiro trecho do BRT ABC, compreendido entre Parada Metrópole e a Vila Império. São 9 estações e 10 km de corredor que cruzam os municípios de São Bernardo, Santo André e São Caetano, nas imediações do piscinão Jaboticabal. A licença de operação para o trecho já foi emitida pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). A proposta é que o funcionamento da primeira etapa seja experimental e gratuito para os passageiros, atendendo por um determinado período do dia. Para o trecho finalizado, a empresa já disponibilizou 20 ônibus elétricos articulados que irão atender o BRT ABC”, diz a concessionária.

A obra do BRT ABC até o terminal Tamanduateí permanece em andamento e engloba a construção do pavimento, das estações e de dois viadutos. “A evolução desses serviços, contudo, depende também da remoção e do remanejamento de interferências relevantes de infraestrutura pertencentes a concessionárias de serviços públicos, como a Enel, providências que não estão integralmente sob a gestão da Next A empresa trabalha para entregar à população um sistema de transporte moderno, sustentável, seguro, eficiente e de alta capacidade, capaz de proporcionar maior qualidade, conforto e confiabilidade aos deslocamentos e contribuir para uma mobilidade urbana ambientalmente mais sustentável”, diz a nota.
Demora nas licenças e remanejamento da rede elétrica
Em sua defesa ao processo de caducidade cujo início foi autorizado pela Artesp este mês, a Next Mobilidade cita atrasos de dois anos e nove meses para a liberação de licenças ambientais, mudanças nos projetos por conta de outras intervenções, como a construção do Piscinão Jaboticabal na divisa da Capital com São Caetano e São Bernardo, e também desapropriações.
“De acordo com o levantamento do empreendimento, as intervenções relacionadas à rede de energia acumularam mais de 400 dias de atraso, inclusive em serviços que já haviam sido contratados e pagos. Praça dos Andarilhos, avenida Abrahão Braga e avenida Delamare estão entre os locais mais afetados”, diz a Next. Na Praça dos Andarilhos, em São Caetano, o serviço foi concluído após 428 dias e na rua Abração Braga depois de 455 dias.
“As dificuldades enfrentadas pelo BRT ABC refletem uma característica essencial do empreendimento: não se trata de construir uma infraestrutura em uma área vazia. O corredor está sendo implantado dentro de uma região densamente ocupada, atravessa áreas urbanas consolidadas, onde convivem diariamente milhares de pessoas, veículos, empresas, imóveis, redes de energia, sistemas de drenagem, ferrovias, dutos e outros serviços essenciais. Na prática, cada interferência descoberta pode significar novo projeto, negociação, autorização ou mudança na sequência dos trabalhos. Ao longo desse processo, a Next buscou alternativas para manter o empreendimento avançando, antecipando serviços, assumindo intervenções adicionais e adaptando projetos às condições encontradas em campo”, diz a empresa em sua defesa à Artesp.

Prefeituras ajustam seus planos municipais de transporte ao BRT ABC
São Bernardo diz que eventuais mudanças nas linhas de ônibus municipais em razão da implantação do futuro BRT ABC estão previstas nos estudos do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (Plamob-SBC), instituído pela Lei Municipal nº 7.113.
“As possíveis adequações poderão envolver itinerários e redes de atendimento do transporte coletivo municipal e intermunicipal, com o objetivo de integrar os sistemas e atender às novas demandas de deslocamento dos passageiros. As definições dependem de estudos de origem e destino, que deverão ser realizados pela Artesp, responsável pelo transporte intermunicipal, considerando os impactos do corredor também para usuários de Santo André e São Caetano”, diz o paço de São Bernardo, em nota.
Os custos com o transporte municipal também podem ser impactados segundo a Prefeitura de São Bernardo. “Após a implantação do BRT-ABC será possível avaliar os impactos operacionais e eventuais mudanças nas redes de transporte, inclusive quanto à possibilidade de redução dos custos do sistema municipal”, diz a administração.
Santo André diz que aguarda as definições entre a concessionária e o governo do Estado sobre o início da operação do corredor e que já faz estudos preliminares com base no seu Plano de Mobilidade Urbana Sustentável. O município prevê, além da melhoria do transporte coletivo, melhora no trânsito da cidade. A Prefeitura considera “possíveis adequações nas linhas municipais, integração com o transporte intermunicipal e otimização do sistema”.
Ainda em sua nota Santo André fala em melhora no trânsito em geral. “A expectativa é de melhora na fluidez com a conclusão do corredor, sendo que eventuais ajustes semafóricos e medidas de segurança viária serão avaliados tecnicamente conforme o novo cenário de circulação”, completa.
A Prefeitura de São Caetano não respondeu.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
