O gol de Bia Menezes na final do Campeonato Brasileiro Feminino de 2026 colocou a lateral do São Paulo em evidência, mas a trajetória da jogadora começou muito antes da decisão contra o Corinthians. Natural de São Bernardo, Bia enfrentou a resistência da família, preconceito da prática esportiva e desafios para conquistar espaço no futebol profissional. A mãe, Bernardina Ferreira, teve papel fundamental na sua história, desde os primeiros passos da filha no esporte até a realização do sonho de vestir a camisa do clube do coração da família.
A paixão pelo futebol surgiu ainda na infância, após Bia assistir uma partida de Marta nos Jogos Pan-Americanos de 2003. A imagem da craque despertou o desejo de seguir a mesma profissão e levou a menina a fazer uma promessa à mãe. “Mãe, um dia a senhora vai me ver na TV”, recorda a jogadora sobre o sonho que nasceu em São Bernardo. Anos depois, Bia chegou à decisão do Brasileirão com a camisa tricolor e marcou o gol do São Paulo no empate por 1 a 1 com o Corinthians, no Morumbis, em 3 de outubro. Após a vitória por 2 a 1 no primeiro jogo, o clube conquistou o título com o placar agregado de 3 a 2.

De São Bernardo contra o preconceito
A infância em São Bernardo foi marcada pela vontade de jogar futebol, mesmo diante da resistência de parte da família. Bia preferia a bola às brincadeiras tradicionais e chegou a arrancar as cabeças das bonecas para usá-las como bolas. O pai não aceitava a escolha da filha pelo esporte e chegou a impedir a saída de casa para os jogos. A lateral recorda que precisou encontrar maneiras de continuar a praticar futebol, apesar das restrições. “Ele não me dava a chave pra sair pra jogar bola. Ele não gostava de jeito nenhum. Então pulava o muro escondido e ia jogar bola”, conta.
A mãe, por outro lado, apoiou a decisão da filha desde o início. Bernardina comprou os equipamentos necessários para os testes e não permitiu que a resistência familiar encerrasse o sonho da menina. “Minha mãe falava que ia fazer o que queria. Ela comprou esteira, bola, meião, uniforme”, relata Bia sobre o incentivo que recebeu em casa.
Na primeira escolinha, a jogadora era a única menina entre os meninos e enfrentou provocações por ocupar um espaço que muitos consideravam exclusivo dos garotos. A resistência também partia de pais que não gostavam de ver a jovem disputar espaço com os filhos. A experiência, porém, não afastou Bia dos gramados. Foi em uma escola de futebol feminino de São Bernardo que a atleta percebeu que poderia transformar a paixão em profissão.
A decisão de seguir no esporte também tinha uma motivação familiar. Bernardina enfrentou dificuldades ao longo da vida e permaneceu como a principal referência da filha. Bia queria retribuir o apoio recebido desde a infância e mudar a realidade da mãe por meio do futebol. “Quero ser jogadora de futebol pra poder mudar a realidade da vida da minha mãe”, explica ao recordar o que a motivava nos primeiros anos da carreira.
Aos 14 anos, Bia deixou São Bernardo para atuar no Centro Olímpico, etapa que abriu as portas para novas oportunidades. A jogadora disputou o Mundial Sub-20, em Papua-Nova Guiné, passou pelo Rio Preto, onde conquistou o Campeonato Paulista, e depois defendeu o Flamengo. As experiências contribuíram para a formação profissional e prepararam a lateral para novos desafios.
Mudança de posição e a perda da mãe
A passagem pelo Santos representou uma transformação importante na carreira. Meio-campista de origem, Bia precisou assumir a lateral esquerda após a lesão de uma companheira de equipe. A adaptação trouxe críticas e exigiu o aprendizado de uma nova função. Para compreender as características da posição, a jogadora estudou o desempenho de laterais como Marcelo e Cafu e contou com acompanhamento psicológico.
A mudança teve um custo emocional, mas também contribuiu para consolidar a identidade da atleta no futebol. “Chego no Santos e sou volante, e vou tapar um buraco na lateral esquerda. Esse momento de transição de posição foi um momento que me feriu muito, mas que me fez crescer demais”, relata Bia.

Durante a pandemia da covid-19, a relação com Bernardina ficou ainda mais próxima. Com as atletas do Santos fora da concentração na Vila Belmiro, Bia voltou para casa e treinou ao lado da mãe, que também fazia os exercícios. A convivência reforçou o vínculo entre as duas, mas, em 2021 a mãe recebeu o diagnóstico de glioblastoma cerebral de grau 4, um câncer cerebral agressivo.
Bia recorda o choque diante da gravidade da doença e da necessidade de uma cirurgia cerebral. “Minha mãe tinha um glioblastoma grau 4 cerebral, num estado muito avançado”, relata sobre o diagnóstico de Bernardina. A mãe passou pelo procedimento e teve uma breve recuperação, período em que ficou com a filha em Santos entre setembro e novembro daquele ano. Em 21 de novembro de 2021, Bernardina morreu após uma emergência respiratória. A perda abalou profundamente a lateral, que tentou se manter forte diante dos familiares, mas teve dificuldade para retomar a rotina profissional. A ausência da mãe afetou a relação com o futebol e levou Bia a cogitar o fim da carreira. “Depois que minha mãe morre, quero parar de jogar”, revela ao recordar o período de luto.
A jogadora ficou cerca de uma semana e meia sem treinar e encontrou dificuldades para voltar ao campo. O acompanhamento psicológico no Santos teve papel importante na retomada, pois ajudou Bia a compreender que abandonar o futebol não correspondia ao desejo de Bernardina. Aos poucos, a atleta recuperou espaço e conquistou duas premiações como melhor lateral-esquerda do Campeonato Paulista, além de oportunidades na Seleção Brasileira principal.
Em fevereiro de 2026, Bia disputou a Copa Ouro e marcou seu primeiro gol pela equipe nacional, homenagem dedicada à mãe. O momento representou mais uma etapa de uma trajetória marcada pelo esforço para superar a perda sem abandonar o sonho que as duas compartilharam.
No São Paulo, a realização de um sonho familiar
A chegada ao São Paulo, em 2024, teve um significado especial para Bia. Bernardina era torcedora apaixonada pelo clube, admirava Rogério Ceni e costumava brincar com a frase “Meu goleiro é artilheiro”. Vestir a camisa tricolor representou uma oportunidade profissional e a realização de um desejo familiar.
A identificação com o clube foi imediata. “Chego no São Paulo e me sinto completamente em casa”, afirma. A lateral encontrou acolhimento entre comissão técnica, companheiras e torcedores, além de espaço para crescer profissionalmente. A relação com o Tricolor reuniu a ambição esportiva e a memória de Bernardina, cuja influência permanece presente nas escolhas da atleta. A mãe continua como referência para Bia, que procura preservar os valores aprendidos em casa e manter viva a ligação entre a história familiar e a carreira. A conquista de espaço no São Paulo também representa uma forma de honrar o apoio recebido desde a infância. “Me orgulho muito de vestir a camisa do São Paulo, principalmente por trazer o legado da minha mãe comigo”, declara.
A memória de Bernardina acompanha a jogadora nas conquistas e nos desafios da carreira. “Só carrego ela dentro de mim, em forma de Bia”, afirma a lateral ao explicar como mantém a presença da mãe em sua vida. A ligação entre as duas ajuda a compreender o significado pessoal de cada etapa profissional, desde os primeiros jogos em São Bernardo até o gol na decisão nacional.
A trajetória de Bia também evidencia o caminho de atletas do ABC que encontram no futebol feminino uma possibilidade de formação profissional, apesar dos obstáculos que surgem antes mesmo da chegada às grandes equipes. Da promessa feita à mãe até o protagonismo com a camisa do São Paulo, a lateral mantém São Bernardo como ponto de partida e Bernardina Ferreira como uma das figuras centrais de sua história.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
