Rodadas de negócios, qualificação profissional, palestras e comunicação digital estão entre as ações da Acisbec (Associação Comercial e Industrial de São Bernardo do Campo) para aproximar a entidade dos empresários e enfrentar os desafios da economia. Em entrevista ao RDCast, o presidente Valter Moura Júnior comenta sobre a trajetória da associação, o cenário econômico e as dificuldades enfrentadas pelas empresas da região.
Fundada em 1944 por cerca de 120 empresários, a Acisbec atravessou diferentes momentos da economia brasileira, da Segunda Guerra Mundial a planos econômicos e transformações tecnológicas. Para Moura Júnior, a entidade precisou acompanhar essas mudanças e ampliar sua atuação.
“Lá atrás, quando a Acisbec foi fundada, eram banqueiros, indústrias de móveis, tecelagens. Eles se reuniram na Sociedade Amigos de Bairro, dois meses antes da emancipação. E hoje olha o que vivemos: foram inúmeros planos econômicos, Segunda Guerra Mundial, tantas transformações e revoluções econômicas e tecnológicas”, afirma.
Entre as iniciativas atuais estão as rodadas de negócios, que, segundo o presidente, têm aproximado empresas e criado novas oportunidades comerciais. A entidade também mantém palestras, seminários e ações de qualificação profissional.

“A diversificação de ações é muito importante. Hoje trabalhamos para diversificar, trabalhar um pouquinho mais as rodadas de negócios e isso dá muito resultado. Outras coisas que a gente não deixa de lado são as palestras, seminários e a qualificação de mão de obra, que hoje é um gargalo de todos os segmentos”, diz.
Falta de mão de obra
A dificuldade para encontrar profissionais qualificados é apontada pelo presidente como um dos principais problemas enfrentados atualmente pela indústria, construção civil e outros setores. Segundo Moura Júnior, muitos trabalhadores têm deixado empregos formais para atuar como motoristas de aplicativo ou entregadores, o que reduz a oferta de profissionais experientes no mercado.
“Hoje o trabalhador perde emprego, pega indenização, compra um carro para trabalhar de Uber ou vai entregar comida e o mercado acaba perdendo bons profissionais, aqueles mais antigos que não se encontram mais”, afirma.
Como uma das alternativas, a Acisbec passou a apresentar aos associados soluções de automação e robótica. Para o presidente, porém, a tecnologia não substitui a necessidade de qualificação e valorização do trabalhador. “A Acisbec trouxe, em uma parceria, robôs como alternativa de mão de obra, mas isso é uma provocação porque entendemos que é importante a humanização. Não estamos acostumados à robotização, mas damos essa opção para os nossos associados”, explica.
O empresário também relaciona a mudança no comportamento profissional às transformações ocorridas depois da pandemia.
“A nossa cultura é do abraço, gostamos de ser bem atendidos. Mas empresário sem mão de obra pensa em fechar o negócio. Enxergo que o ser humano está buscando mais qualidade de vida e a pandemia trouxe uma mudança comportamental. O industrial precisa da mão de obra e começa a sofrer um pouco mais, pois as novas gerações não querem mais isso. A construção civil, por exemplo, sofre muito”, diz.
6×1 e reforma tributária
Moura Júnior também critica a proposta de mudança na jornada de trabalho com o fim da escala 6×1. Para ele, a discussão precisa considerar as diferenças entre setores e permitir acordos entre empresas e trabalhadores. “Ninguém é contra o empregado fazer 5×2, mas não pode engessar. É importante que façam (patrão e empregado) um acordo. Hoje, com essa falta de mão de obra, é possível negociar, mas da forma como está sendo colocada, ela é perigosa”, afirma.
Segundo o presidente da Acisbec, alguns empresários já avaliam deixar de abrir aos sábados caso a mudança avance. “Estão impondo alguma coisa sem debate com a sociedade. Nada é impossível, mas precisa ser melhor debatido. O Brasil tem que funcionar, não pode perder empresas para o Paraguai por causa de uma simplificação de tributo”, diz.
A reforma tributária também está entre as preocupações da entidade. Moura Júnior afirma que a Acisbec tem promovido palestras para orientar os empresários sobre as mudanças e defende a revisão do limite de faturamento do MEI (Microempreendedor Individual).
“Estamos fazendo também movimento para aumentar o regime de faturamento do MEI. Uma proposta que não votam no Congresso, mas que é importante para a economia do país: aumentar progressivamente o limite de faturamento e permitir dois ou três empregados”, afirma.
ABC precisa ir além da localização
Para o presidente da Acisbec, o ABC não pode depender apenas do discurso de que é a “Melhor Esquina do Brasil” para atrair empresas e investimentos. A localização continua sendo uma vantagem, mas outros fatores passaram a pesar nas decisões empresariais.
“A economia mudou. Você não precisa hoje de grandes galpões como antigamente. Hoje, com a tecnologia, consegue trabalhar um pouco melhor. A localização ainda é importante, mas não é só isso. Eles querem saber como está a qualidade de vida na cidade, se tem escolas boas e entretenimento”, afirma.
Na avaliação de Moura Júnior, a própria região passou a oferecer mais opções de consumo e serviços, reduzindo a necessidade de moradores se deslocarem para a Capital.
“As pessoas já estão deixando de ir para São Paulo para consumir aqui. Estamos bem localizados, mas hoje não precisa estar do lado do Porto de Santos para ter eficiência no transporte. Não é isoladamente ser a melhor esquina do Brasil que vai ser interessante. A política econômica é importante. É preciso saber como o prefeito está tratando essas empresas”, diz.
Consórcio e diálogo regional
A integração entre as sete cidades também é apontada como necessária para melhorar a infraestrutura e criar condições para a volta de empresas ao ABC. Moura Júnior reconhece avanços na relação entre os prefeitos, mas cobra mais velocidade nas decisões do Consórcio ABC.
“Tenho visto prefeitos mais unidos, acho isso importante. O ABC melhorou muito a interlocução entre os prefeitos. O Consórcio foi criado para isso, mas precisa dar um gás porque a velocidade dos problemas está maior do que a que eles estão colocando ali”, afirma.
A mobilidade é um dos principais pontos citados pelo presidente. Ele também defende uma agenda permanente entre empresários, associações comerciais, Ciesp, sindicatos e governos municipais.
“Precisa ter uma interlocução direta, uma agenda com os prefeitos. E se tivéssemos uma semana com as associações comerciais, outra com o Ciesp e outra com todos, pegando os sindicatos também? Dialogando inclusive sobre a jornada 6×1, que não é regional, mas poderíamos ampliar o debate e sair daqui com uma proposta”, afirma.
Entidade evitou debate eleitoral
Durante a entrevista, Moura Júnior também falou sobre a decisão da Acisbec de não participar diretamente do debate político-eleitoral neste ano. Segundo ele, a entidade optou por manter o foco nas pautas econômicas e empresariais. “Em 82 anos de entidade, essa foi a primeira vez que nós não entramos no debate político eleitoral. Isso foi decidido em reunião de diretoria porque entendemos que precisamos mudar a forma de discussão e isso não pode ser só no debate eleitoral”, afirma.
Para o presidente, os candidatos apresentaram propostas semelhantes e pouco detalhadas durante a campanha. “As propostas foram muito fracas. Todos os candidatos falaram da pauta da mulher, mas não falaram o que fazer. Parecia papagaio; parece que um fala e outro copia. Não queremos isso, queremos resultado”, diz.
Economia e Black Friday
Com a proximidade das principais datas do calendário do varejo, o presidente da Acisbec também avaliou as perspectivas para o comércio. Depois do Dia das Crianças, vêm a Black Friday, em novembro, e o Natal.
Para Moura Júnior, o Dia das Crianças pode ter um desempenho abaixo do esperado no comércio local por ocorrer próximo a um feriado e depois do primeiro turno das eleições. “A compra que deveria ser na cidade acaba sendo transferida para outro local em que as pessoas estejam viajando”, afirma.
Já a Black Friday deve continuar mais forte no comércio eletrônico, mas também pode movimentar as lojas físicas, desde que os comerciantes ofereçam descontos reais. “A Black Friday é mais no e-commerce. Para o comércio de rua é bom, tem que fazer promoção e tem que ser sério. O consumidor não é mais bobo, ele tem muitas opções. Quando faz uma falcatrua, mil pessoas vão saber e pode se prejudicar”, diz.
Para o Natal, a expectativa também é positiva, mas existe o risco de parte das compras ser antecipada para novembro. “Sobre o Natal, a tendência é ser bom. Porém, no último ano, o pessoal antecipou as compras na Black Friday e o Natal não foi como esperado”, afirma.
Programação até o fim do ano
Até dezembro, a Acisbec ainda prevê uma rodada de negócios aberta a diferentes segmentos, além de cursos e palestras, principalmente sobre a reforma tributária, que começa a produzir efeitos para as empresas a partir de janeiro.
Moura Júnior destaca ainda iniciativas recentes da entidade, como ações de networking, o RDCast e debates sobre saúde mental no ambiente de trabalho.
“Estamos atentos às questões econômicas. Tudo que acontece, a gente se manifesta para atender o empresário e a sociedade. Nestes 82 anos, a associação participou de quase todas as ações de mudança comportamental e na nossa cidade”, afirma.
Segundo ele, a atuação da entidade também inclui mobilizações em temas que afetam diretamente os empresários. “Demos voz à sociedade”, conclui.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
