Com o avanço das pesquisas sobre os cuidados na primeira infância, novas orientações sobre alimentação dos bebês também foram incorporadas à rotina das famílias. A partir dos 6 meses, quando começa a chamada alimentação complementar, os pequenos passam a conhecer novos sabores, texturas e alimentos, em uma fase considerada importante para o crescimento, o desenvolvimento e a formação dos hábitos alimentares.
Em entrevista ao RDtv, a pediatra e especialista em Nutrologia Pediátrica do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), Fabiola Suano, explica que a alimentação complementar vai dos 6 aos 24 meses e representa uma etapa de aprendizado para a criança.
“A gente chama isso de alimentação complementar, que começa aos seis meses e vai até os 24 meses. É um período grande em que o neném vai desenvolver, vai aprender a comer a comida, o que vai ser uma base importante para seu crescimento, desenvolvimento e formação do seu hábito alimentar”, afirma.

Segundo a especialista, a introdução alimentar não significa oferecer apenas papinhas ou sopas. O ideal é apresentar uma variedade de alimentos, respeitando o desenvolvimento da criança e aproveitando a curiosidade natural que surge nessa fase.
“Quando a gente pensa no desenvolvimento do bebê, desenvolvimento mesmo, andar e falar, comer faz parte disso. Então, se a gente pensar num bebê de seis meses, um bebê que nasceu no tempo certo, que tem aí um desenvolvimento neuropsicomotor que não teve nenhuma questão que atrapalhou, com seis meses o nenê está sentando, até com ou sem apoio, o tronquinho já se sustenta, o pescocinho já se sustentou lá atrás e ele tem uma coisa que é bem interessante: ele tem curiosidade por outros alimentos”, comenta.
Como oferecer os alimentos
Fabiola explica que, nessa fase, o bebê já consegue manipular e engolir alimentos com a consistência adequada. Por isso, os alimentos devem estar bem cozidos e podem ser amassados ou misturados antes de serem oferecidos.
“Ele pega o alimento e esmaga o alimento com a língua lá no céu da boca e, com isso, ele move o alimento e consegue engolir. O que é bem importante é que o alimento esteja bem cozido. Então, um alimento que seja bem cozido pode ser amassado, pode ser misturado e oferecido para essa criança”, afirma.
A pediatra também chama a atenção para a necessidade de repetir a oferta dos alimentos. Segundo ela, não é porque o bebê recusou determinado alimento na primeira tentativa que ele necessariamente não gosta daquele sabor.
“Ele tem que ser oferecido de oito a dez vezes ao longo das semanas, para que, em algum momento, a criança defina: das hortaliças eu gosto mais de repolho, alface, chicória. Mas olha, agrião parece que eu não gosto muito. Ela não fala, mas você sabe que ela come mais ou come menos”, destaca.
De acordo com a especialista, a formação do hábito alimentar é influenciada por diferentes fatores, entre eles os sabores aos quais a criança foi exposta durante a amamentação, a maneira como os alimentos são apresentados e a diversidade oferecida durante a introdução alimentar.
Papinhas não devem ser a base da alimentação
Apesar de fazerem parte da rotina de muitas famílias, as papinhas industrializadas não devem ser utilizadas como principal forma de alimentação da criança, segundo Fabiola. O consumo esporádico, porém, não representa um problema.
“Se eu comprar 10 potinhos, todos eles são iguais, o sabor é o mesmo, ele foi feito para ser igual. Então existe uma monotonia em relação a isso. Por mais que eu tente variar, existe uma monotonia. Os alimentos costumam ter muita cenoura, muita abóbora para que fiquem mais adocicados e a criança goste mais. Então, dá para usar esporadicamente? Com certeza dá para usar, mas isso não deve ser uma rotina”, afirma.
Para a pediatra, a comida preparada em casa permite maior variedade de sabores e texturas, mesmo quando se trata de um alimento simples. “Se a gente prepara um purê de batata, eu posso preparar 10 vezes. A batata é diferente, eu coloco mais ou menos sal, amasso mais, cozinho menos, isso muda a textura”, ressalta.
Segundo Fabiola, essas diferentes experiências fazem parte do processo de desenvolvimento alimentar da criança.
Whey e creatina não são indicados para crianças pequenas
Outro tema que ganhou repercussão recentemente foi o uso de whey protein e creatina na alimentação infantil. A discussão veio à tona após a influenciadora digital Carol Borba, de 39 anos, relatar que inclui os produtos na rotina da filha de 3 anos.
Questionada sobre o uso desses suplementos por crianças, Fabiola afirma que eles não devem fazer parte da alimentação infantil sem indicação específica e ressalta a diferença entre as necessidades nutricionais de crianças pequenas e de adultos.
“A criança não deve receber nem whey, nem creatina. Isso leva a sobrecarga de órgãos e sistemas, além de ser um alimento que não deve ser introduzido nessa idade pelos riscos consequentes e tudo que existe aí nessa questão”, afirma.
A pediatra também destaca que o whey protein é um produto ultraprocessado e pode elevar desnecessariamente a ingestão de proteínas de uma criança pequena. A orientação, segundo ela, é priorizar uma alimentação variada e adequada à faixa etária, com os nutrientes necessários obtidos por meio dos alimentos.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
