
A chuva no Estado de São Paulo bate recorde de volume, só na Capital não chove assim num mês de setembro desde 1953, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) e no ABC não é diferente. Os piscinões estão em estado de atenção ou de alerta. A professora Paula Katakura, coordenadora do curso de arquitetura e urbanismo do IMT (Instituto Mauá de Tecnologia), alerta para a possibilidade dos piscinões não aguentarem o volume de chuva por tantos dias seguidos e terem a capacidade máxima extrapolada gerando enchentes e trazendo os prejuízos materiais e humanos.
Em boletim divulgado na tarde desta segunda-feira (14/09) a agência SP Águas, que monitora os 32 piscinões da Grande São Paulo, informava que os níveis mais preocupantes dos reservatórios estão em Diadema, Mauá e São Bernardo. O reservatório Diadema (Piscinão RC-3 – Mercedes Benz) está no nível de emergência e na mesma cidade o RC-6 (Ecovias- Imigrantes) em atenção. Em Mauá, o piscinão RT-3 Petrobras estava em alerta e em São Bernardo o Piscinão RC- 9, junto à antiga Ford, no Ribeirão dos Couros, estava em estado de atenção. Os demais operavam em condição normal, de acordo com a nota divulgada no início da tarde. A previsão é de que as chuvas continuem pelo menos até quarta-feira (16/09).
“Pelo volume de chuvas que estamos verificando, é possível que as águas extravasem. É claro que a manutenção dos piscinões e de suas bombas precisa ser permanente, mas volumes como os que estamos presenciando, de chuvas intensas e contínuas, podem não ter sido considerados no dimensionamento destes equipamentos porque fazemos o dimensionamento em função das médias históricas registradas”, sustenta Paula.
Segundo a urbanista, os piscinões que, segundo ela, já não são a melhor solução para as cidades, sofrem por não terem outras obras complementares que contribuiriam com a drenagem. “O problema não está apenas na manutenção, mas na eficiência desta infraestrutura que não é uma solução infalível ou a melhor solução para as cidades. Os piscinões são feridas na paisagem urbana. O importante seria pensar um conjunto de soluções em função das mudanças climáticas que podem trazer outros problemas para a cidade. Nós cobrimos os rios, canalizamos córregos e impermeabilizamos com asfalto e concreto o solo que anteriormente absorvia as águas e retardava a chegada das mesmas nos rios”, analisa.
Para Paula Katakura nem mesmo o Piscinão Jaboticabal, o maior reservatório de contenção do Estado de São Paulo, com capacidade para armazenar até 900 mil metros cúbicos de águas pluviais, volume equivalente a cerca de 360 piscinas olímpicas, está imune a problemas diante do volume de chuvas sem trégua desde o início deste mês.
“O Jaboticabal é um dos piscinões mais recentes da região Metropolitana de São Paulo, mas o monitoramento da capacidade indica um índice muito alto nos últimos dias. Frente às dificuldades das prefeituras que deveriam realizar a manutenção dos piscinões, existe um acordo para que o governo estadual, por meio da SPÁguas faça a manutenção da infraestrutura dos piscinões. É claro que o assoreamento e problemas nos dutos de escoamento podem prejudicar o funcionamento e resultar em colapso. Quando um piscinão atinge sua capacidade máxima, os sistemas de controle emitem alerta que permitem decidir se é necessário esvaziamento. Se o canal abaixo do piscinão tiver capacidade para receber a água acumulada, esse mecanismo é acionado”, explica a especialista da Mauá.
A falta de manutenção destes reservatórios é que fazem com que eles não cumpram a função de reter a água nos períodos de muito volume de chuva, diz Paula Katakura. Segundo ela nem as prefeituras nem o Estado demonstraram a capacidade para deixar a limpeza e a manutenção dos piscinões totalmente em dia. “Foram os municípios que demonstraram incapacidade para realizar a manutenção e limpeza e ter especialistas monitorando e realizando a manutenção talvez seja um uso mais eficiente para os recursos. O problema é compreender o motivo da não realização dos serviços contratados ou entender se de fato não foram realizados”, comenta.
Monitoramento
Das cidades do ABC, o Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André) informa ter sistema de monitoramento dos dispositivos de drenagem. Segundo o órgão são 114 câmeras de monitoramento instaladas em rios, córregos, pontos sujeitos a alagamentos e piscinões, sendo 10 com sistema de inteligência artificial integrado, além de 78 fluviômetros, que realizam a medição da lâmina d’água nesses locais. O sistema conta ainda com 26 estações meteorológicas, utilizadas para acompanhamento dos índices pluviométricos e de outros parâmetros meteorológicos, como velocidade do vento e temperatura. “Essas informações permitem acompanhar continuamente as condições do sistema de drenagem e subsidiar as ações das equipes responsáveis. Ainda, o município conta o Spia (Sistema de Predição de Inundação e Alagamento), ferramenta baseada em inteligência artificial capaz de antecipar riscos hidrológicos”, diz nota da prefeitura.
Além dos rios e córregos o monitoramento dos piscinões também faz parte do sistema do Semasa. “O acompanhamento dos níveis dos piscinões é realizado por meio dos fluviômetros instalados nos reservatórios, complementado pelas câmeras de monitoramento. Os dados permitem às equipes técnicas acompanhar a evolução dos níveis e o comportamento dos reservatórios durante os eventos de chuva”, diz a nota que não informa problemas com estravazamento, porém há estado de atenção. “Enquanto persistirem as precipitações, o monitoramento permanece contínuo, com especial atenção à evolução dos níveis e à capacidade disponível dos reservatórios para receber novos volumes de água. A Defesa Civil segue acompanhando todos os dados e indicadores e em plantão para atendimento de quaisquer ocorrências”, completa a prefeitura.
A prefeitura de Diadema informou que a limpeza dos três piscinões da cidade – Casa Grande, Piraporinha e Ecovias-Imigrantes – é feita por consórcio contratado pelo Estado e que a limpeza e desassoreamento aconteceram no primeiro semestre. “A Prefeitura de Diadema acompanha a realização dos serviços e informa ao órgão eventuais problemas técnicos que possa ocorrer nos reservatórios”, diz o município em nota que destaca também que a Defesa Civil municipal segue mobilizada.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
