
Considerada uma das etapas mais decisivas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a redação exige do candidato a produção de um texto dissertativo-argumentativo, de até 30 linhas, sobre um tema de relevância social, cultural, científica ou política. Além de defender uma tese com coesão e coerência, o estudante deve mobilizar repertório sociocultural legítimo e elaborar uma proposta de intervenção detalhada e que respeite os direitos humanos.
O desafio é grande: na última edição do exame, dos 3,37 milhões de participantes, apenas 10 candidatos alcançaram a nota máxima de 1.000 pontos na redação.
Para o professor de língua portuguesa e redação da Escola Internacional de Alphaville, de Barueri (SP), Thiago Silverio Barbosa, a preparação envolve o domínio dos critérios de correção e a criação de rotina consistente de escrita. “O texto não é teste de talento literário, mas de técnica e articulação de ideias. O candidato precisa dominar a estrutura dissertativa, usar boas ligações entre as frases e parágrafos e mostrar conhecimentos de outras áreas para defender suas ideias”, diz.
Como se preparar para a redação?
Na hora de organizar a rotina de estudos, a professora de redação do colégio Progresso Bilíngue, Thaís Torres, recomenda praticar a escrita regularmente, sempre que possível com o acompanhamento de um professor ou de alguém capacitado para revisar a produção. “A prática constante associada à reescrita permite aprimorar a capacidade de articulação de ideias e corrigir falhas gramaticais e estruturais antes do dia da prova”, afirma. Entre as estratégias essenciais para uma preparação de alto nível, Thaís destaca:
- Escrita semanal e reescrita crítica: produza pelo menos um texto por semana e, após a correção pedagógica, reescreva a redação para corrigir os erros e trabalhar os pontos fracos identificados;
- Mapeamento de argumentos-chave: construa e organize um repertório coringa, com conceitos filosóficos e sociológicos, leis e fatos históricos, que possa ser adaptado a diferentes propostas de redação;
- Domínio dos cinco elementos da proposta de intervenção: certifique-se de que a solução apresentada contempla o agente (quem faz), a ação (o que será feito), o meio ou modo (como será feito), o efeito (para que será feito) e o detalhamento (informação adicional que aprofunda um desses elementos). Esses aspectos são fundamentais para uma boa avaliação da proposta pelos corretores;
- Treino com tempo cronometrado: simule as condições reais da prova, reservando entre 1 hora e 1 hora e 15 minutos para planejar o texto, elaborar o rascunho e fazer a versão definitiva.
Como construir repertório para a redação?
Acompanhar os debates públicos e os principais acontecimentos do Brasil e do mundo também é fundamental para construir um repertório sociocultural consistente. Segundo o professor de português do Brazilian International School, Lino Gonzaga de Oliveira, estar atento às notícias amplia a capacidade argumentativa dos estudantes.
“Acompanhar o noticiário com senso crítico amplia a visão de mundo do estudante e permite conexões entre as disciplinas e os problemas contemporâneos. Essa bagagem sustenta um repertório legítimo e produtivo na redação. Ao se familiarizar com os eixos temáticos da sociedade, o aluno consegue estruturar a tese com mais clareza e propor intervenções viáveis e alinhadas aos direitos humanos”, diz Lino.
Sugestões de temas para treinar a redação
Para a professora de redação da Escola Bilíngue Aubrick, Maísa Santos, treinar a partir de temas atuais também ajuda a fortalecer a confiança do estudante no dia da prova.
“Mais do que um exame de escrita, a redação do Enem é uma prova de leitura e escrita. A banca avalia a capacidade de analisar a realidade brasileira, com leitura atenta e boa interpretação dos textos motivadores, articuladas a um repertório sociocultural consistente. Ao treinar com temas atuais, o candidato aprimora a leitura crítica, fortalece suas teses e elabora propostas de intervenção viáveis e respeitosas aos direitos humanos”, afirma a professora ao indicar nove temas para os estudantes praticarem:
1. A importância de garantir a segurança de crianças e adolescentes no ambiente online
Garantir a segurança de crianças e adolescentes no ambiente digital exige ações integradas e marcos legais efetivos, como o ECA Digital. O debate ganha relevância diante dos riscos associados à lógica algorítmica, que pode estimular o uso compulsivo das redes e da crescente exposição de jovens à naturalização da violência nos ambientes virtuais.
2. Caminhos para a consolidação de combustíveis não fósseis na matriz energética brasileira
No contexto contemporâneo, a diversificação e a consolidação de fontes não fósseis constituem medidas importantes para a soberania energética do Brasil e para o cumprimento das metas ambientais globais.
3. Caminhos para combater o desaparecimento de pessoas no Brasil
Combater o desaparecimento de pessoas no Brasil exige uma resposta rápida, integrada e humanizada do poder público. Superar esse problema passa pelo fortalecimento de bancos de dados nacionais unificados, pela capacitação das forças policiais para o atendimento imediato às famílias e pelo uso de tecnologias de identificação e inteligência no rastreamento de desaparecidos.
4. Caminhos para garantir a conciliação entre qualidade de vida, produtividade e relações de trabalho no Brasil contemporâneo
Debater esse tema é fundamental para assegurar que o desenvolvimento econômico do país ocorra em bases éticas, nas quais o bem-estar dos indivíduos e a dignidade humana sejam prioridades, e não apenas os custos de produção.
5. Caminhos para o enfrentamento ao tráfico humano e à exploração de pessoas no Brasil contemporâneo
Traçar caminhos efetivos contra o tráfico humano e a exploração de pessoas no Brasil implica atuar tanto na prevenção e na punição dos responsáveis quanto no acolhimento das vítimas. É indispensável intensificar o combate às redes criminosas, promover campanhas permanentes de conscientização e assegurar suporte jurídico, psicológico e social para a reconstrução das trajetórias das vítimas com dignidade.
6. Desafios para a preservação da soberania do Brasil no século 21
A urgência desse debate se evidencia no contexto atual, em que garantir a soberania nacional é condição para assegurar a autonomia política, a justiça social e a proteção do patrimônio do País diante das ameaças globais contemporâneas.
7. Dilemas éticos diante do avanço da Inteligência Artificial
Com o avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA), os dilemas éticos associados à tecnologia ganham espaço no debate público. Entre os principais desafios estão os impactos da IA na educação, a manipulação de processos eleitorais e o uso de ferramentas de desinformação para a destruição de reputações.
8. Os desafios para a efetivação da Lei Maria da Penha e o combate à violência de gênero no Brasil
Embora a violência contra a mulher já tenha sido abordada pelo Enem em 2015, o tema continua relevante e pode ser retomado sob diferentes perspectivas. Em 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos de sanção, período marcado por atualizações legislativas e jurisprudenciais que ampliaram a proteção às mulheres no Brasil.
9. Os desafios para o incentivo e a valorização da participação feminina na ciência no Brasil
Incentivar e valorizar o protagonismo feminino na ciência é fundamental para o desenvolvimento socioeconômico do País. Os desafios vão além do ingresso nas universidades e envolvem a garantia de permanência, financiamento equitativo e reconhecimento histórico do trabalho intelectual das mulheres, aspectos essenciais para ampliar a diversidade e democratizar a produção do conhecimento.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
