A produção literária do ABC ganha espaço na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorre até 13 de setembro, no Distrito Anhembi, em São Paulo. Escritores e quadrinistas da região participam de diferentes atividades do evento, com lançamentos, sessões de autógrafos, mesas e rodas de conversa que apresentam obras de literatura infantojuvenil, poesia e histórias em quadrinhos.
Morador de Mauá e integrante de um grupo cultural que atua em Ribeirão Pires, Marcos Roberto da Silva Moreira, que assina as obras como Marcos Moreira, participa da Bienal com a revista em quadrinhos Jovenilda Manda@Letra. A publicação será tema de uma roda de conversa com educadores autores, com discussão sobre o uso das HQs em sala de aula e a possibilidade de utilizar os quadrinhos como ferramenta de mediação de conflitos.
A personagem Jovenilda surgiu durante um projeto desenvolvido por Moreira com alunos da EMEF Joaquim Osório Duque Estrada, na Zona Leste de São Paulo, durante a pandemia. A iniciativa conquistou seis prêmios em um concurso da Unifesp e levou a pesquisadora Sabine Pompeia a convidar o autor para criar novas histórias para um projeto de pesquisa da universidade.

O trabalho resultou em duas revistas em quadrinhos e ganhou espaço em uma reportagem da Globo. Em 2025, Moreira lançou Jovenilda Manda@Letra, que reúne um dos trabalhos produzidos para a pesquisa sobre conflitos entre adolescentes e uma HQ inédita sobre o funcionamento dos próprios quadrinhos.
A revista possui duas capas e dois sentidos de leitura, com uma história em cada lado. A publicação também representa a busca do autor por uma editora que possa ampliar a circulação da obra, que, segundo Moreira, possui potencial didático sem abrir mão do valor artístico e do entretenimento. “Muitos que tiveram acesso ao meu trabalho falam do potencial que tem, por seu teor didático, sem se esquecer do valor artístico e do entretenimento”, afirma.
A participação na Bienal ocorre em duas atividades no estande da Prefeitura de São Paulo. No dia 9, às 11h, Moreira mediará uma conversa com Sidney Gusman, editor da série Graphics MSP, dos estúdios Mauricio de Sousa, e autor da HQ Domingos. No dia 10, às 19h, participará de uma roda de conversa de educadores autores para falar sobre livros e quadrinhos.
As publicações de Moreira também ficarão expostas no estande da Prefeitura de São Paulo, embora o espaço não permita a comercialização dos livros. A primeira experiência do autor na Bienal ocorreu em uma edição anterior, quando obras das quais participou ficaram à venda no estande da editora Autografia. A edição de 2026 será a primeira com participação em rodas de conversa. Para Moreira, a presença no evento representa o reconhecimento de uma trajetória construída a partir dos grupos culturais do ABC. “É o reconhecimento de anos de trabalho árduo e uma grande vitrine para minha arte e para todos aqueles que contribuíram com ela”, afirma.
Thina Curtis apresenta poesia inspirada no ABC
De Santo André, Thina Curtis participa pela primeira vez da Bienal com o lançamento de Linha T – poesia, cafeína e solitude. A autora estará no pavilhão no dia 12, data que, segundo Thina, já não possui ingressos disponíveis. Além da sessão de autógrafos, a programação inclui encontros com leitores e compromissos com influenciadores e criadores de conteúdo.
A obra nasceu de uma proposta de trilogia de poesias sobre maturidade e a chegada aos 50 anos, idade completada pela autora em 2025. O projeto ganhou forma após um período de amadurecimento da escrita e chegou à Bienal por meio do convite de uma editora.

Linha T reúne poesia e fotografia em uma produção feminina e feminista, com influências do punk, pós-punk, dos fanzines, da contracultura e da poesia de Patti Smith. Muitos poemas nasceram nos trilhos e nas estações da Linha Turquesa, transporte que ocupa lugar central na relação da autora com a cidade e com o território.
“O ABC me inspira sempre. É uma matéria-prima para a minha escrita. Tem muito do território no que escrevo”, afirma Thina. Para a autora, a Bienal cria uma oportunidade de apresentar ao público nacional uma produção que já possui trajetória e relevância dentro da região.
Thina também levará à Bienal Café Crônico, história em quadrinhos produzida em parceria com Regina Munhoz, artista de São Bernardo. A HQ se passa na cidade e recebeu financiamento por meio de edital municipal.
A trajetória de Thina também passa pela cultura independente. Há 15 anos, a autora organiza a Fanzinada, feira itinerante de fanzines e publicações independentes que já passou por diferentes cidades do Brasil. O trabalho recebeu reconhecimento em livros e pesquisas, além de prêmios e indicações. Thina também dá nome a duas Fanzinotecas públicas, uma em Barueri e outra no Instituto Federal do Rio de Janeiro, em Macaé.
Apesar do reconhecimento nacional, Thina aponta uma dificuldade para quem produz literatura no ABC. A falta de concursos literários, leis de incentivo específicas, grandes eventos e políticas públicas voltadas à literatura, segundo a autora, dificulta a aproximação entre escritores e o público da própria região. “Tem muita gente escrevendo, produzindo literatura, seja quadrinhos, slam, ficção científica. A gente tem vários eventos literários na região e publicações independentes importantes. Então é um momento que a gente tem de comemorar, de celebrar, de trocar e de ser visto”, afirma.
A autora também defende uma aproximação maior entre as secretarias de Educação e Cultura para levar escritores, quadrinistas e outras produções locais às escolas. “Quando a gente reconhece o lugar, a pessoa fala ‘é do mesmo bairro, da mesma cidade’. Isso muda até a relação com a literatura”, afirma.
Manuel Filho reúne literatura infantil e trajetória na Bienal
Morador de São Bernardo, Manuel Filho chega à Bienal com uma trajetória de mais de 100 livros publicados, além de reconhecimento pelo Prêmio Jabuti e participação em feiras internacionais. O autor também possui trabalhos como ator e cantor e mantém uma produção voltada principalmente à literatura infantojuvenil.

Na edição de 2026, Manuel participa de diferentes atividades. Uma delas é uma mesa com a escritora Helena Martins, sua madrinha literária, no estande da Melhoramentos. O autor também participa de uma sessão de autógrafos na HarperKids, selo infantil da editora HarperCollins, com Silêncio no corredor, coletânea que reúne trabalhos de diferentes autores. A agenda inclui ainda presença no estande da Girassol, editora pela qual publica parte de sua produção.
A relação de Manuel com a Bienal começou antes da carreira como escritor. Nas primeiras visitas, o autor frequentava o evento como leitor. Depois, passou a participar de atividades menores e, mais tarde, tornou-se autor da Melhoramentos, mesma editora de Ziraldo.
A trajetória ganhou um momento especial quando Manuel dividiu uma sessão de autógrafos com Ziraldo. Durante três horas, os dois autografaram exemplares de MMMMM: Mônica e Menino Maluquinho na Montanha Mágica, obra escrita em parceria. A lembrança representa, para o escritor, um dos momentos mais marcantes de sua relação com a Bienal. “Você começa a olhar a Bienal de um jeito, se torna autor, admira um autor e, de repente, está do lado do autor autografando com ele um livro. Acontecem essas magias”, afirma.
Para Manuel, a Bienal também funciona como um espaço de encontro entre autores e leitores, com possibilidade de descoberta de novos trabalhos e contato direto com quem produz literatura. “Eu acho de verdade que cada vez mais o espaço da Bienal é um encontro de magias. As pessoas querem encontrar com seus autores, querem fotografar, querem fazer vlog. Então, o interesse pela leitura é despertado”, afirma.
O escritor destaca ainda a presença de ilustradores, artistas e outros profissionais ligados ao mercado editorial. Na avaliação de Manuel, a cena cultural do ABC possui uma produção expressiva e pode ganhar mais visibilidade por meio de iniciativas de incentivo à literatura.
ABC busca mais espaço para a própria produção
A participação dos três autores na Bienal também expõe a diversidade da produção cultural do ABC. Literatura, poesia, quadrinhos, fanzines, slam e ficção científica fazem parte de uma cena que, apesar de ativa, ainda enfrenta dificuldades para alcançar o próprio público regional. Thina aponta a falta de grandes eventos literários, concursos, leis de incentivo específicas e políticas públicas voltadas à literatura como um dos principais obstáculos para os escritores da região. Para a autora, a existência de artistas com reconhecimento nacional nem sempre resulta em visibilidade dentro das próprias cidades.
A experiência com a Fanzinada e com os quadrinhos reforça essa percepção. Mesmo após anos de atuação e reconhecimento fora do ABC, Thina afirma que parte do público local ainda desconhece o trabalho de artistas da região. A autora cita a própria trajetória nos quadrinhos, com prêmios nacionais e uma indicação, em 2026, por uma história sobre Paranapiacaba.
Moreira também identifica uma comunidade forte de escritores, desenhistas e quadrinistas no ABC, com artistas que se conhecem e ajudam a divulgar os trabalhos uns dos outros. Para o autor, o desafio está em ampliar o alcance dessa produção para além do público que já frequenta os eventos culturais da região. “As pessoas que frequentam os eventos no ABC, embora numerosas, são, em geral, as mesmas de sempre. Precisamos de uma divulgação mais massiva para que o grande público do ABC tome conhecimento dos autores locais”, afirma.
A Bienal representa, nesse cenário, uma oportunidade de ampliar a visibilidade nacional dos trabalhos produzidos na região. Moreira espera estabelecer contato com editoras interessadas em ampliar a circulação de Jovenilda Manda@Letra. Thina busca novos leitores e oportunidades para participar de outras feiras e eventos. Para ambos, chegar ao maior evento literário do país representa um passo importante para a produção independente.
Manuel acrescenta à discussão a importância das bibliotecas públicas como espaços de acesso à literatura e de encontro entre artistas e leitores. Na avaliação do escritor, esses locais merecem mais investimento e uma programação fixa com autores, contação de histórias, música e outras atividades culturais.
“A cena cultural no ABC está acontecendo. Às vezes ela se faz mais visível, outras vezes não. Mas é evidente que tem muita gente escrevendo”, afirma Manuel. O escritor também defende maior atenção à leitura em um cenário marcado pelo consumo rápido de conteúdo digital. Para Manuel, o contato com o livro exige um ritmo diferente e representa um exercício de concentração. “Viver o evento, viver o momento, viver a leitura é mais importante, é fundamental”, afirma.
Serviço
28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Data: 4 a 13 de setembro
Local: Distrito Anhembi, Pavilhão de Exposições (avenida Olavo Fontoura, 1209, Santana)
Horários: de segunda a sexta-feira, das 9h às 22h; aos sábados e domingos, das 10h às 22h. No último domingo, 13 de setembro, o evento funciona das 10h às 21h. O acesso é permitido até uma hora antes do encerramento.
Ingressos: de segunda a quinta-feira, no período diurno, das 9h às 16h59, o ingresso inteiro custa R$ 40, com R$ 15 de cashback, e a meia-entrada custa R$ 20, com R$ 7,50 de cashback. No período noturno, das 17h às 21h, os valores são R$ 30 na inteira, com R$ 30 de cashback, e R$ 15 na meia-entrada, com R$ 15 de cashback.
Às sextas-feiras, o ingresso custa R$ 42 na modalidade inteira, com R$ 15 de cashback, e R$ 21 na meia-entrada, com R$ 7,50 de cashback. Aos sábados e domingos, os valores são os mesmos. No domingo, 13 de setembro, a entrada também custa R$ 42 na inteira e R$ 21 na meia-entrada, com os respectivos valores de cashback.
Os ingressos podem ser adquiridos pela Fever. Informações e programação completa estão disponíveis no site oficial da Bienal do Livro de São Paulo.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
