
Mesmo com a redução do estigma e o aumento da circulação de informações sobre saúde mental, tabus e preconceitos ainda dificultam a busca por atendimento psicológico e psiquiátrico. Neste Setembro Amarelo, campanha de conscientização e prevenção ao suicídio, o RD mostra como identificar sinais de alerta, quando procurar atendimento profissional, como funciona o tratamento e onde encontrar serviços gratuitos na região.
Ao RD, Mariana Cornachini Azevedo, psiquiatra do Hospital Santa Helena, em Santo André, afirma que houve aumento expressivo na procura por atendimentos psicológicos e psiquiátricos. A redução do estigma em torno dos transtornos mentais, a disseminação de informações e os efeitos da pandemia estão entre os fatores que contribuíram para esse crescimento. “Parte da população perdeu o medo de procurar ajuda e de ir atrás de se cuidar”, afirma.
A psiquiatra também destaca os impactos provocados pela pandemia de covid-19, que trouxe isolamento social, luto e medo de contágio. “Esse contexto foi um gatilho para pacientes apresentarem quadros de ansiedade e depressão por tudo que vivenciaram durante esse período”, explica.
Mariana também aponta o uso das redes sociais como fator que pode interferir na saúde mental, principalmente entre os jovens. “Pode ser desconstrutivo, porque gera frustração e comparação, além de um impacto negativo na autoestima”, diz.
Tabus e preconceitos ainda fazem com que algumas pessoas tenham vergonha ou resistência em procurar atendimento especializado. “Existem pessoas que não aceitam estar doentes emocionalmente porque acham que isso é frescura”, lamenta.
O medo de ser julgado também pode afastar pacientes dos consultórios. “Outras pessoas deixam de procurar ajuda porque acham que serão julgadas dentro do consultório. Cada um tem a sua dor e cada pessoa responde de uma forma. O que para mim pode não ser nada, para o outro pode ser muito. Isso depende da resposta que temos às coisas que acontecem no nosso dia a dia e nos ambientes em que vivemos”, explica.
Sinais e sintomas
A perda de funcionalidade no cotidiano é um dos principais sinais de que a pessoa precisa de acompanhamento profissional. “Não conseguir trabalhar, estudar, dormir ou comer, passar a comer em excesso, se isolar ou adotar comportamentos de risco, como o uso excessivo de álcool e drogas ou a automutilação, são situações que indicam que o paciente precisa de ajuda”, afirma.
Mudanças de comportamento e isolamento também devem servir de alerta para familiares e amigos. Nesses casos, a recomendação é oferecer apoio, escuta e acolhimento sem julgamentos. Comentários sobre não ver sentido em estar vivo também indicam a necessidade de atenção e de busca por ajuda profissional.
A frequência dos sintomas é um dos fatores que ajudam a diferenciar uma reação passageira de uma situação que exige acompanhamento profissional. “O paciente precisa perceber se a tristeza, a ansiedade ou o estresse estão presentes na maior parte do tempo ou se são resultado de uma situação pontual”, destaca.
A psiquiatra alerta que a persistência dos sintomas pode comprometer a capacidade de realizar atividades do dia a dia. “Caso não busque ajuda, vai chegar um momento em que o paciente pode não conseguir levantar da cama”, alerta.
Consulta e tratamento
Mariana explica que a primeira consulta psiquiátrica envolve uma avaliação detalhada do histórico e do contexto de vida do paciente. O objetivo é compreender os sintomas e os fatores que podem estar relacionados ao quadro apresentado. “Muitas vezes, há necessidade de fazer uma investigação da infância e da adolescência e pedir uma avaliação neuropsicológica quando é indicado”, detalha.
O tratamento psiquiátrico não necessariamente envolve o uso de medicamentos. A psicoterapia pode ser suficiente em alguns casos, enquanto outros pacientes precisam combinar diferentes formas de tratamento. “Pode ser necessário o uso conjunto das duas terapias, tanto medicamentos quanto psicoterapia. Além disso, a atividade física também ajuda no controle dos sintomas”, afirma.
A psiquiatra alerta para a importância de não interromper o tratamento por conta própria. “É importante não interromper o tratamento por conta própria, pois isso pode causar sintomas de abstinência e levar ao retorno dos sintomas”, alerta.
Onde buscar ajuda
Uma das opções para quem precisa de atendimento em saúde mental são os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviços especializados e gratuitos, de caráter comunitário. O atendimento é definido conforme a avaliação de cada usuário e pode incluir acolhimento e avaliação inicial, consultas médicas e psiquiátricas, acompanhamento psicológico e multiprofissional, além de atividades e atendimentos em grupo.
Os CAPS também oferecem oficinas terapêuticas, ações de reabilitação psicossocial, acompanhamento de pessoas em situações de crise, elaboração e acompanhamento do Projeto Terapêutico Singular (PTS), orientação e acompanhamento de familiares e atendimento domiciliar.
Quando necessário, as equipes articulam o atendimento com Unidades Básicas de Saúde (UBSs), serviços de urgência e emergência e outros equipamentos da rede de saúde.
Cidades
Em Diadema, os atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial registraram em 2026, até o momento, 1.280 atendimentos. Em Rio Grande da Serra, entre janeiro e agosto de 2026, foram realizadas 1.270 consultas psiquiátricas.
Já Ribeirão Pires informou que os CAPS registraram 2.232 novos atendimentos, mas não especificou o período a que os dados se referem.
Em casos de crise intensa, especialmente quando a pessoa não consegue controlar os sintomas ou apresenta comportamento de risco, é necessário procurar atendimento de urgência. O acompanhamento psicológico e psiquiátrico também pode contribuir para o controle dos sintomas e a prevenção de novas crises.
As prefeituras de Mauá, São Caetano, São Bernardo e Santo André não responderam até o fechamento desta matéria.
Centro de Valorização da Vida
Em situações de crise emocional, também é possível buscar apoio gratuito e sigiloso pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), que recebe diretamente mais de 5 mil ligações por dia em todo o Brasil. O atendimento é realizado pelo telefone 188, disponível 24 horas. O serviço oferece escuta e acolhimento para pessoas que passam por momentos de sofrimento emocional.
O atendimento também está disponível por meio dos demais canais disponibilizados no site do CVV, que oferece opções de contato por chat e e-mail.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
