
A polícia apura se Claudio Henrique da Silva, de 33 anos, apontado como autor do triplo homicídio ocorrido no sábado (01/08) na fábrica da Bombril em São Bernardo, era vítima de bullying na empresa. Sábado era dia de folga dele mas, mesmo assim o funcionário, que é terceirizado, foi até a empresa e agrediu a facadas três homens que morreram no local. Ele foi contido por outros funcionários e a polícia chamada. Preso ele foi levado para o 2° Distrito Policial da cidade, onde morreu, a polícia registrou a morte dele como suicídio e um inquérito foi instaurado para apurar mais essa morte. Se comprovado que Silva passava por situações de chacota ou humilhação, a discussão sobre a Norma Regulamentadora NR-1 se reforça já que a norma impõe às empresas a criação de políticas para minimizar riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
As vítimas de Silva eram colegas de trabalho. Todos trabalhavam para a empresa TPC. Foram mortos o conferente José Guilherme Victoriano de Moura, de 54 anos; o supervisor Edvaldo Santos da Silva, de 44 anos; e o operador de empilhadeiras Douglas de Souza Vieira, de 39 anos. Depoimentos colhidos pela polícia indicam a possibilidade de bullying como motivação para os assassinatos, mas isso ainda vai ser investigado.
Para a psicóloga Camila Teodoro (CRP 06/98759), fundadora do Icatepsi (Instituto Camila Teodoro de Psicologia) e com atuação há mais de 17 anos em saúde mental, desenvolvimento humano e psicologia organizacional, situações como a ocorrida na Bombril, não são raras. “Elas só não são tão divulgadas e são reflexo da necessidade de preparar lideranças nas empresas para conduzir processos e liderar pessoas. Na NR-1 se avalia o ambiente de trabalho e aquele pode ter sido um ambiente ruim para aquela pessoa. O fato da pessoa ser reservada e calada não é decisivo, mas pode ser um alerta; ele poderia ter sido chamado para uma reunião. O gancho está no treinamento das lideranças”, analisa.
A psicóloga e consultora para empresas na área de treinamento de lideranças lembra que em 2024 472 mil pessoas foram afastadas do trabalho por transtornos mentais, um novo recorde e que ficou 68% acima do verificado em 2023. No ano passado mais um recorde, foram 546 mil afastamentos pelos mesmos motivos. “São problemas como ansiedade, stress, Burnout e as empresas estão resistentes em implantar o que diz a NR-1, levam sempre essa discussão para o lado da loucura e pensam apenas nos gastos, mas o que eu, como consultora explico, é que isso é um investimento que pode melhorar as condições de trabalho e a produção”, aponta Camila.
Situações de brincadeiras que extrapolam o limite do respeito entre colegas de trabalho devem ser debatidas na empresa em uma política antibullying, segundo explica a psicóloga. “Brincadeira é diferente de comportamento abusivo, de inferiorização que traumatiza, de chacota. Eu não conheço a Bombril, mas tenho certeza de que há trabalhos lá dentro nesta linha, mas como são muitos funcionários eles acabam não atendendo ao objetivo. Penso que o trabalho deve ser adaptado à linguagem do trabalhador, não dá para informar que ele deve procurar um atendimento online com um psicólogo que ele não vai fazer”, relata a especialista.
Fatores como jornadas extenuantes de trabalho, sobrecarga já são críticos para desencadear depressão, fadiga e outros fatores ligados ao universo do trabalho, além do bullying, mas, segundo Camila é possível contornar esses problemas se a empresa se dispuser a ouvir os trabalhadores através de uma escuta profissional e treinamento de pessoal, principalmente supervisores e líderes. “Esse processo cabe em qualquer porte de empresa, inclusive as pequenas têm procurado mais, também porque elas têm mais problemas. Também vemos muitos casos de racismo. Se a empresa tem canais de comunicação e espaços de escuta, como palestras, ou permitir ao funcionário opinar, participar de decisões cria um bom ambiente, ele se sente acolhido. Tudo isso faz o trabalhador se sentir mais à vontade para falar dos problemas. Isso não acontece da noite para o dia, é um trabalho de formiguinha, uma construção”, completa a psicóloga.
A Bombril divulgou nota em que diz ter política de atendimento à saúde mental dos trabalhadores. “A Bombril mantém ativo um canal de ética, por meio do qual todos os funcionários podem denunciar casos de bullying, assédio e outras discordantes das boas praticas defendidas pela companhia. Todos os casos são devidamente analisados. Sobre o incidente de hoje com os trabalhadores da TPC, não havia denúncia registrada sobre nenhum deles. O canal é amplamente divulgado através de comunicados internos, comunicação visual nas instalações das fábricas e intranet. Além disso são realizados treinamentos sobre o tema. A Bombril reforça que mantém ainda um setor de acolhimento para todos, com atendimento psicológico e médico”, diz o comunicado.
A TPC também lamentou as mortes e diz colaborar com a investigação. “É com profundo pesar que lamentamos o grave incidente ocorrido no último sábado (1º), envolvendo colaboradores da TPC na operação sob nossa responsabilidade em uma unidade da Bombril. Desde o primeiro momento, manifestamos nossa solidariedade aos familiares, amigos e colegas das vítimas e seguimos prestando todo o apoio às famílias dos nossos colaboradores. As circunstâncias do ocorrido seguem em apuração, e estamos colaborando integralmente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos. Reafirmamos nosso compromisso com a promoção de um ambiente de trabalho ético, respeitoso e seguro”, diz nota da empresa.
O sindicato que representa os trabalhadores da Bombril é o Sitiplesp (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Produtos de Limpeza do Estado de São Paulo). O RD tentou contato com a entidade, por telefone e e-mail, nas não houve resposta.
Para Paulo Sérgio da Silva Lima, que é secretário de Saúde em outra agremiação sindical, o Sindicato dos Químicos do ABC, a questão da saúde mental deve ser tratada como prioridade em qualquer empresa, de qualquer ramo. “Aqui no Sindquim somos pioneiros em saúde e segurança e temos uma comissão regional de Saúde que reúne os Cerests (Centros de Referência em Saúde do Trabalhador) da região e com isso fizemos um trabalho muito forte”, explica. Ele lembra o que a psicóloga Camila Teodoro também citou, que é a ação movida pelas empresas para impedir a punição para as empresas que não se adaptarem à NR-1. “A norma está vigente mesmo com a liminar suspendendo a punição e o Sindicato está cobrando isso. Além disso temos um canal para denúncias anônimas e temos convênio com psicóloga”.
Para Lima é possível furar a bolha de resistência dos trabalhadores em procurar ajuda para cuidar da saúde mental. “O que aconteceu na Bombril é um alerta, mostra que os trabalhadores estão adoecendo. A saúde não é só do corpo, tem que cuidar da mente também. Mesmo não sendo trabalhadores da nossa base, vemos que esse caso ocorrido na Bombril é mais uma razão para intensificar esse trabalho, podemos até fazer isso em conjunto com outros sindicatos. Tenho certeza que todos os trabalhadores daquela fábrica foram afetados por isso e agora eles devem ser acolhidos e ouvidos”, completa.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
