
Durante as férias escolares, o tempo de exposição de crianças e adolescentes a celulares, tablets, videogames e outros dispositivos eletrônicos costuma aumentar significativamente e chega a até 70% no período.
O cenário acende alerta entre especialistas, já que evidências científicas mostram que a exposição às telas em excesso nos primeiros anos de vida está associada a piores resultados relacionados à atenção e às funções executivas. Além disso, o período também costuma ser marcado pela redução de atividades físicas, brincadeiras, leitura e interações sociais, fundamentais para o desenvolvimento cognitivo.
Segundo Martha Valeria Medina, neuropsicóloga da NeuronUP, plataforma de neurorreabilitação, o impacto não está relacionado apenas ao tempo de uso, mas também à qualidade do conteúdo consumido e à forma como a tecnologia é inserida na rotina das crianças.
“O aumento do tempo de tela durante as férias pode afetar a atenção e algumas funções executivas, principalmente quando o uso é excessivo, passivo, sem supervisão, substitui atividades importantes, como o sono, as brincadeiras, a leitura, a prática de atividades físicas e a interação social”, afirma.
As chamadas funções executivas como planejamento, organização, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, controle de impulsos e tomada de decisões, são responsáveis por competências essenciais para o aprendizado e para a autonomia ao longo da vida. Essas habilidades são desenvolvidas principalmente por meio das experiências do dia a dia, como brincar, resolver problemas, lidar com frustrações e interagir com outras pessoas.
Para Martha, as férias representam um período de maior vulnerabilidade para a consolidação de hábitos digitais inadequados, justamente pela ausência da rotina escolar. “Durante as férias observa-se um aumento significativo no tempo de tela e uma redução de atividades mais estruturadas ou fisicamente ativas. Isso está de acordo com a chamada ‘hipótese dos dias estruturados’, segundo a qual dias menos organizados, como fins de semana ou férias, favorecem o sedentarismo, o aumento do tempo de tela e hábitos menos saudáveis”, explica a neuropsicóloga.
Tempo e qualidade do uso caminham juntos
Embora exista uma preocupação crescente com o excesso de dispositivos eletrônicos, Martha destaca que nem toda exposição às telas é prejudicial. “Não é a mesma coisa assistir passivamente a vídeos durante horas ou utilizar um aplicativo educativo, resolver desafios interativos ou assistir a um conteúdo acompanhado por um adulto. Por isso, além do tempo de uso, é importante considerar qual conteúdo a criança consome, com que finalidade, se interfere no sono”, afirma.
Martha lembra ainda que recursos digitais voltados para educação ou estimulação cognitiva podem trazer benefícios quando utilizados de forma adequada. “O uso educativo ou terapêutico tem como finalidade estimular habilidades como atenção, memória, linguagem, raciocínio e planejamento. Além disso, costuma ser adaptado à faixa etária, inclui desafios progressivos, oferece feedback e, muitas vezes, conta com a supervisão de um adulto ou de um profissional”, reforça.
Sinais do uso excessivo de telas
Os pais e responsáveis devem observar mudanças no comportamento que podem indicar impactos do uso excessivo das telas. Entre os principais sinais estão: dificuldade para manter a atenção em atividades, necessidade constante de novos estímulos, irritabilidade quando os dispositivos são retirados, menor interesse por brincadeiras, alterações no sono e dificuldade para controlar impulsos.
Outro ponto importante é quando a tecnologia passa a ser utilizada como principal estratégia para acalmar a criança. “Quando isso acontece com frequência, pode limitar o desenvolvimento da autorregulação emocional, pois a criança pratica menos estratégias internas para lidar com o tédio, a frustração ou a espera”, alerta.
Especialista ensina quatro estratégias
A especialista reúne quatro orientações para que pais e familiares estabeleçam uma rotina equilibrada de uso de telas durante as férias, criando também oportunidades de aprendizagem para crianças e adolescentes.
A primeira recomendação é estabelecer limites para o uso de celulares, tablets, videogames e outros dispositivos eletrônicos. Em vez de proibir completamente a tecnologia, a orientação é definir regras e incentivar outras experiências importantes para o desenvolvimento infantil e juvenil.
Também é importante criar uma rotina flexível, mas bem organizada. Segundo a especialista, as férias não precisam de regras rígidas, porém é fundamental reservar momentos para dormir adequadamente, praticar atividades físicas, brincar, ler, conviver com a família, realizar atividades ao ar livre e utilizar as telas de forma controlada.
Outra dica é definir horários específicos para o uso dos dispositivos eletrônicos, com preferência por não utilizar telas durante as refeições e antes de dormir, além de priorizar conteúdos de qualidade.
Por fim, a especialista recomenda que pais e responsáveis participem da experiência digital das crianças e adolescentes. “Fazer perguntas, comentar o que é assistido e relacionar o conteúdo com experiências da vida real transforma uma atividade passiva em uma oportunidade de aprendizagem”, sugere.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
