A ansiedade faz parte da vida e exerce um papel importante na sobrevivência humana. O sentimento permite antecipar situações, planejar decisões e preparar o organismo para enfrentar desafios. O problema surge quando esse mecanismo perde o equilíbrio, permanece ativo por tempo prolongado e transforma preocupações comuns em sofrimento capaz de comprometer a rotina e a saúde.
O alerta ganha importância diante da realidade brasileira, em que segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), aproximadamente 9,3% da população, o equivalente a 18,6 milhões de pessoas, convivem com transtornos de ansiedade. O índice coloca o Brasil na liderança do ranking mundial da doença, além de que estudos mais recentes ainda mostram que, conforme o grupo analisado, mais de um quarto da população apresenta sintomas clinicamente significativos.

Para o médico psiquiatra Cyro Masci, a ansiedade não deve ser encarada apenas como um problema. Em entrevista ao RDtv, o especialista explica que o sentimento representa mecanismo natural de proteção do cérebro. “A ansiedade é uma manifestação de preocupação, de antecipação no tempo, de alguma coisa que possa acontecer. O ser humano domina este planeta porque é ansioso”, diz.
Segundo Masci, existe uma diferença importante entre a ansiedade considerada saudável e a ansiedade patológica, em que a primeira prepara uma pessoa para uma prova, uma entrevista de emprego ou qualquer situação que exige planejamento, e a segunda amplia riscos, prolonga o estado de alerta e pode provocar sofrimento intenso, além de limitar atividades do dia a dia.
Cérebro prepara o corpo para reagir
Para explicar o funcionamento da ansiedade, Masci compara o cérebro ao painel de um automóvel, equipado com sensores responsáveis por identificar riscos. Entre esses mecanismos está o sistema de resposta a ameaças, em que faz com que diante de um perigo imediato, o organismo produz medo. Quando a ameaça parece distante, surge a ansiedade, um aviso para que medidas de proteção sejam tomadas antes da situação acontecer. De acordo com o psiquiatra, esse sistema pode interpretar situações comuns como ameaças desproporcionais, fenômeno conhecido como catastrofização.
O reflexo aparece também no organismo, em que, quando o cérebro entende que existe perigo, o corpo entra em estado de preparação para lutar, fugir ou permanecer imóvel, respostas primitivas ligadas à sobrevivência. A frequência cardíaca aumenta, a musculatura permanece contraída, a pressão arterial sobe e a digestão perde prioridade. Dores de cabeça, tensão muscular, taquicardia, alterações intestinais e dores pelo corpo figuram entre os sintomas mais frequentes. “O corpo faz o que pode para proteger a pessoa. O problema está na permanência desse estado de alerta”, comenta.
O psiquiatra também chama atenção para outro comportamento pouco percebido. Em alguns casos, a apatia não representa depressão, mas uma resposta de imobilidade diante de uma ameaça, comportamento semelhante ao observado em diversos animais como estratégia de sobrevivência.
Pandemia e cenário social ampliaram o problema
A ansiedade pode surgir em qualquer fase da vida. Apesar disso, Masci observa que os sintomas aparecem cada vez mais cedo. Para compreender esse cenário, o especialista utiliza o modelo biopsicossocial, conceito que reúne fatores biológicos, psicológicos e sociais na avaliação da saúde mental. Entre os fatores responsáveis pelo crescimento dos casos aparecem a pandemia de Covid-19, a polarização política, a insegurança econômica, a competitividade no mercado de trabalho e as mudanças provocadas pelo avanço da inteligência artificial.
Na avaliação do psiquiatra, a pandemia provocou intensa ativação do sistema cerebral responsável pela identificação de ameaças. O isolamento social, o medo da morte, a perda de familiares e a incerteza diante da doença deixaram consequências que permanecem até hoje. “As manifestações de ansiedade aparecem cada vez mais cedo. Esse sistema ficou mais sensibilizado após a pandemia”, comenta.
Segundo Masci, essa sensibilização também ajuda a explicar o aumento da irritabilidade, da agressividade e da intolerância observado nos últimos anos. Em situações de ameaça constante, mecanismos ligados à sobrevivência passam a ocupar espaço maior do que sentimentos como a empatia. O especialista também avalia que as redes sociais reforçam esse comportamento ao estimular conflitos e ampliar a percepção de enfrentamento entre grupos.
O tratamento, conforme explica o psiquiatra, costuma reunir psicoterapia e medicação quando existe indicação clínica. Entre as abordagens psicológicas, a terapia cognitivo-comportamental figura entre as mais estudadas e auxilia na identificação de pensamentos distorcidos e de interpretações catastróficas da realidade. Masci destaca que os medicamentos atuais não funcionam apenas como calmantes. A medicação regula o sistema de resposta às ameaças e favorece a neuroplasticidade, capacidade do cérebro de formar novos circuitos de funcionamento. “O remédio não serve apenas para abafar sintomas. O tratamento ajuda a normalizar essa área do cérebro”, diz o psiquiatra.
Outro ponto destacado pelo especialista diz respeito ao tempo de tratamento. A interrupção da medicação antes do período recomendado ou alterações na dose sem orientação médica podem comprometer os resultados. Segundo Masci, o tratamento costuma exigir pelo menos oito meses para que o cérebro complete as adaptações necessárias.
O preconceito em relação à psiquiatria diminuiu nos últimos anos, avalia o médico, embora ainda exista. Atualmente, pacientes procuram atendimento especializado com mais frequência e falam com maior naturalidade sobre ansiedade, depressão e outros transtornos mentais.
Nos casos de crianças e adolescentes com sintomas persistentes, a recomendação consiste em buscar avaliação especializada. Antes do diagnóstico de um transtorno de ansiedade, doenças orgânicas capazes de provocar sintomas semelhantes precisam ser descartadas. Após essa etapa, o trabalho conjunto entre psiquiatra e psicólogo oferece os melhores resultados.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
