
A partir desta quarta-feira (24/06), entra em vigor o aumento da proporção de etanol anidro misturado à gasolina comercializada no Brasil. A medida, que integra a política nacional de combustíveis renováveis e busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis, gera dúvidas entre motoristas sobre possíveis impactos no desempenho e na durabilidade dos veículos.
Na prática, o que muda para quem abastece no dia a dia?
Segundo o professor Jeferson Afonso de Souza, coordenador adjunto dos cursos de Engenharia Mecânica, Engenharia de Controle e Automação e Engenharia Mecatrônica do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), os efeitos dependem principalmente da tecnologia do veículo e das condições de manutenção do motor.
“Os motores comercializados no Brasil já são projetados para a presença de etanol na gasolina. Portanto, para a grande maioria dos veículos em circulação, não há motivo para preocupação quanto ao uso do combustível dentro das especificações dos órgãos reguladores.”
Por que aumentar a quantidade de etanol?
O etanol possui características que contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa e para o fortalecimento da cadeia produtiva de biocombustíveis no país.
Além disso, o Brasil é um dos líderes mundiais na produção de etanol derivado da cana-de-açúcar, o que torna sua utilização estratégica para a matriz energética nacional.
Segundo o especialista, a medida também busca ampliar a participação de combustíveis renováveis na economia brasileira.
O motor perde potência?
Uma das dúvidas mais frequentes dos consumidores está relacionada ao desempenho.
O etanol possui maior octanagem que a gasolina, o que favorece a resistência à detonação dentro do motor. Por outro lado, apresenta menor densidade energética, ou seja, libera menos energia por litro consumido.
Na prática, veículos modernos equipados com sistemas eletrônicos de gerenciamento ajustam automaticamente a combustão para compensar essas diferenças, explica o professor. “Nos veículos atuais, especialmente os produzidos nas últimas décadas, os sistemas de injeção eletrônica realizam correções constantes para manter o funcionamento adequado do motor.”
O maior impacto ocorre em veículos importados, em modelos nacionais que consomem apenas gasolina e em híbridos sem tecnologia flex. Nesses casos, mesmo com o percentual anterior de etanol na gasolina, esses veículos foram projetados para operar apenas com gasolina, de preferência premium.
Para esses casos, não se recomenda o abastecimento com gasolina comum e aditivada, apenas com gasolina de alta octanagem disponível no mercado nacional, como Petrobras Podium e Ipiranga Octapro.
Haverá aumento no consumo?
De acordo com a tecnologia do veículo, pode ocorrer pequena variação no consumo de combustível.
Isso ocorre porque o etanol contém menos energia por litro quando comparado à gasolina pura.
Entretanto, segundo o professor, os efeitos tendem a ser discretos para a maioria dos automóveis modernos. “Em condições normais de uso, o motorista dificilmente percebe mudanças significativas no desempenho ou na dirigibilidade do veículo.”
E os veículos mais antigos?
Os cuidados são maiores para automóveis antigos ou modelos importados que não foram projetados para operar com altos percentuais de etanol na gasolina.
Nesses casos, podem surgir problemas em:
• componentes de borracha;
• mangueiras;
• sistemas de vedação;
• corrosão em peças metálicas específicas.
Por isso, a recomendação é que proprietários desses veículos consultem o fabricante ou oficinas especializadas.
Benefícios ambientais
Além dos aspectos técnicos, o aumento da proporção de etanol pode trazer benefícios ambientais importantes.
O biocombustível tem origem renovável e apresenta menor emissão líquida de carbono quando comparado aos combustíveis fósseis.
Segundo o especialista, a transição energética exige uma combinação de diferentes tecnologias. “O futuro da mobilidade passa por diversas soluções, como biocombustíveis, eletrificação, hidrogênio e aumento da eficiência energética dos motores.”
A manutenção continua sendo fundamental
Independentemente da composição do combustível, a manutenção preventiva segue como principal fator para garantir a durabilidade do motor.
Itens como:
• velas de ignição;
• filtros;
• sistema de injeção;
• combustível de procedência confiável;
• trocas periódicas de óleo.
seguem essenciais para o bom funcionamento do veículo.
“Muitos problemas atribuídos ao combustível estão relacionados, na verdade, à falta de manutenção adequada ou ao abastecimento em postos que não seguem padrões de qualidade.”
Engenharia e inovação para uma mobilidade mais sustentável
Para o professor, a evolução dos combustíveis faz parte de um processo contínuo de inovação tecnológica.
“A Engenharia tem papel fundamental no desenvolvimento de soluções que conciliem desempenho, eficiência energética, sustentabilidade e redução de impactos ambientais. O aumento da participação do etanol é mais um passo dentro dessa trajetória.”
A expectativa é que os avanços nos sistemas de gerenciamento eletrônico dos motores e nas tecnologias automotivas permitam adaptação cada vez mais eficiente às mudanças na composição dos combustíveis.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
