
Por Eduardo Batistella Mazurkyewistz
O corte da Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, anunciado pelo Copom em 17 de junho, indica uma mudança gradual na política monetária. Para a indústria, porém, a decisão ainda tem efeito limitado, porque o custo do crédito permanece elevado e continua pressionando investimento, produção, capital de giro e planejamento.
A avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) segue nessa linha. Para a entidade, a redução de 0,25% ainda não compensa os prejuízos acumulados pelos juros altos, em um cenário no qual a taxa permanece acima do nível compatível com uma retomada consistente da atividade econômica.
Esse debate chega de forma concreta às empresas. Juros altos encarecem o financiamento de máquinas, equipamentos e novas linhas de produção, além de pesarem sobre a compra de insumos, a formação de estoques e a concessão de prazos aos clientes. Em muitos casos, a empresa deixa de investir porque precisa preservar caixa e manter a operação em equilíbrio.
Na indústria, o impacto aparece no planejamento diário. Um projeto de modernização pode ser adiado quando o financiamento deixa de caber no orçamento, uma contratação pode ficar para depois quando a demanda ainda não oferece segurança suficiente e uma expansão pode perder viabilidade quando o custo do capital reduz a margem de retorno. A produtividade também sente, porque a renovação tecnológica depende de crédito acessível e previsível.
No ABC, essa realidade tem peso especial. As cidades reúnem empresas industriais que movimentam cadeias locais de fornecedores, geram empregos e sustentam parte relevante da arrecadação dos municípios. Quando o crédito fica caro por tempo prolongado, o efeito ultrapassa a fábrica e chega à economia regional.
O controle da inflação é necessário, pois nenhum setor produtivo se beneficia de preços desorganizados, perda de poder de compra e instabilidade. Ainda assim, a política de juros precisa considerar seus efeitos sobre quem produz, investe e emprega, já que o custo elevado do capital reduz a capacidade de crescimento das empresas.
A indústria precisa de previsibilidade para tomar decisões. Investimentos em equipamentos, automação, treinamento e expansão produtiva não são definidos de um mês para o outro, eles dependem de horizonte econômico, confiança e custo de financiamento compatível com a realidade das empresas.
A redução para 14,25% ao ano deve ser vista como um passo inicial, ainda distante de uma condição de crédito capaz de estimular o investimento produtivo. Para o segundo semestre, a continuidade desse movimento será observada com atenção pelo setor industrial, especialmente pelas empresas que têm projetos prontos e aguardam um ambiente mais favorável.
Equilíbrio fiscal, segurança jurídica, carga tributária, infraestrutura e competitividade também seguem no centro da agenda, porque juros menores ajudam quando vêm acompanhados de condições mais estáveis para produzir.
O Brasil precisa recolocar o investimento produtivo no centro da recuperação econômica. A indústria tem capacidade de gerar empregos, desenvolver fornecedores, incorporar tecnologia e fortalecer economias locais, desde que encontre condições reais para planejar, financiar e crescer.
O corte da Selic abriu uma sinalização. A indústria espera que ela se transforme em uma trajetória capaz de devolver fôlego a quem produz.

Eduardo Batistella Mazurkyewistz é diretor titular do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) Santo André, que abrange Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
