
Os desenhos animados fazem parte do cotidiano de muitas famílias e podem desempenhar um papel relevante no desenvolvimento infantil quando escolhidos com critério e consumidos de forma equilibrada. Além de entreter, essas produções podem estimular a linguagem, a criatividade, a empatia e o aprendizado de conceitos básicos. Por isso, também são frequentemente utilizadas como apoio em atividades pedagógicas na educação infantil e nos primeiros anos escolares.
Ainda assim, a relação das crianças com telas exige atenção. Bebês de até dois anos não devem ter acesso a telas. A partir dessa idade, o conteúdo precisa ser adequado à faixa etária, e o tempo de exposição deve ser limitado para evitar impactos negativos na concentração, no sono e no desenvolvimento cognitivo.
“Nesse período, o desenvolvimento ocorre principalmente por meio da interação direta com pessoas, objetos e ambientes. Por isso, os pais não devem deixar a criança assistir desenhos livremente, como se esse recurso fosse uma espécie de babá eletrônica”, explica Thaís Cadorin, coordenadora pedagógica do Colégio Progresso Bilíngue, de Vinhedo (SP).
Segundo a especialista, conteúdos com ritmo muito acelerado ou estímulos excessivos podem prejudicar a capacidade de foco das crianças mais novas. “A exposição precoce a telas pode substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento sensorial e social”, afirma.
A presença dos pais durante o consumo também faz diferença. “Quando os pais assistem junto com a criança e conversam sobre a história, o desenho deixa de ser apenas um passatempo e passa a ter um propósito educativo. Vale perguntar, por exemplo, por que determinado personagem tomou certa decisão, se a atitude foi correta ou como a criança se sentiria naquela situação”, orienta Thaís.
Esse tipo de diálogo contribui para o desenvolvimento do senso crítico, da empatia e da compreensão emocional. “Também é importante relacionar o que aparece na tela com situações do dia a dia, estimulando a reflexão sobre valores, convivência e consequências das escolhas”, completa.
Conteúdos indicados por faixa etária
Primeira infância: de 2 a 6 anos
A partir dos dois anos, o contato com desenhos pode ser introduzido gradualmente, sempre com supervisão e, preferencialmente, com a presença de um adulto. O tempo recomendado é de até uma hora por dia, intercalado com brincadeiras, leitura e atividades físicas.
Nessa fase, o ideal são conteúdos com ritmo mais calmo, narrativas simples e propostas educativas, que estimulem a linguagem, a curiosidade e habilidades socioemocionais.
Segundo Jacqueline Cappellano, psicopedagoga e coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville (SP), produções que valorizam a descoberta e a imaginação são as mais indicadas. “Histórias simples, personagens empáticos e situações do cotidiano ajudam a criança a compreender emoções, regras de convivência e a ampliar o vocabulário”, afirma. “Músicas, cores e episódios curtos favorecem o aprendizado, mas o excesso de estímulos pode gerar agitação e dificultar a concentração”, completa.
Entre os conteúdos indicados estão produções como Turma da Mônica, Peppa Pig, Pocoyo, O Show da Luna e Mundo Bita, que combinam linguagem acessível com propostas educativas.
Idade escolar: de 6 a 12 anos
Com o início da vida escolar, as crianças passam a compreender narrativas mais complexas e acompanhar histórias com maior desenvolvimento de personagens e temas.
Nessa fase, os desenhos podem contribuir para o pensamento crítico, a criatividade e a resolução de problemas — desde que haja intencionalidade na escolha.
“Embora o tempo de tela ainda seja um tema em debate, a recomendação gira entre uma e duas horas diárias, considerando todos os dispositivos. Do ponto de vista pedagógico, buscamos priorizar a qualidade em vez da quantidade”, afirma Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School (BIS).
Para ela, mais do que proibir, é necessário orientar. “As telas fazem parte da rotina. O importante é ensinar a criança a fazer boas escolhas e refletir sobre o que consome.”
Conteúdos que abordam ciência, cooperação, diversidade e valores sociais tendem a ser mais enriquecedores. “Muitos desenhos traduzem conceitos complexos de forma acessível, ampliam o repertório cultural e despertam a curiosidade. Com acompanhamento, deixam de ser apenas entretenimento e se tornam oportunidades de aprendizagem”, destaca.
Conteúdos que devem ser evitados
Nem todo desenho animado é adequado para o público infantil. Algumas produções apresentam violência, linguagem imprópria, humor adulto ou temas complexos, como sexualidade e conflitos psicológicos intensos, que podem causar confusão ou medo.
Além disso, há um crescimento de conteúdos inadequados disfarçados de produções infantis, especialmente em plataformas abertas.
“Os adultos precisam supervisionar o que as crianças assistem, principalmente na internet. Nem tudo que parece infantil realmente é apropriado”, alerta Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, em São Paulo.
Entre os exemplos citados pela especialista estão animações voltadas ao público adulto, como Big Mouth, Family Guy, Rick and Morty e South Park.
“A curadoria dos pais continua essencial. O desenho animado pode ser um aliado no desenvolvimento infantil, mas apenas quando o conteúdo e o tempo de consumo são adequados”, conclui.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
