
Neste domingo (23/11) após passar por uma cirurgia de castração na clínica veterinária Cia do Bicho, em São Bernardo, a Pitbull Zara, de um ano e sete meses, morreu por complicações que ainda não foram apuradas. Esse foi o terceiro caso de intercorrências pós-procedimento em que os animais vieram a falecer nesta clínica. Em entrevista ao RD, os responsáveis pela Cia do Bicho negaram qualquer negligência no atendimento aos animais e que estão prontos a prestar esclarecimentos. A Câmara de São Bernardo, através do presidente da Comissão de Defesa e Proteção dos Animais, vereador Pery Cartola (Cidadania), quer apurar as circunstâncias e já pediu levantamento de documentos.
A tutora da Zara, Elisabete Francelino da Silva, disse que levou a cachorra para fazer a castração na Clínica Cia do Bicho que fica na rua dos Vianas, no Jardim Petroni na última semana. “Levei na clínica para os exames pré-operatórios e no sábado (22/11) ela fez a cirurgia, em casa ela teve sangramento, levei de volta, disseram que era um ponto que abriu e ela ficou lá em observação e no domingo eles iam fazer uma ultrassonografia antes de liberar, mas às 15hs me ligaram dizendo que ela não estava bem e quando cheguei ela estava morta. Eu quero saber o que aconteceu, eu quero justiça”, disse nesta terça-feira (25/11) em entrevista ao portal Viva ABC.
Mayara Cunha Alves, que é, tutora do Spitz Alemão Fred, que morreu após castração na mesma clínica no dia 11/11 também quer explicações. “Disseram que como ele não tinha problemas cardíacos não precisava de exame nenhum. Depois da cirurgia o meu cachorro não estava bem. Ele latia sem consciência, chorava e não se mantinha em pé”, relatou a tutora. Levado para outra clínica Fred foi diagnosticado com pneumotórax e enfisema subcutâneo.

No dia 12/09 a cachorra Mia, morreu na clínica após uma parada cardíaca ocorrida após um período de internação. A clínica informou que ela estava infectada por doença transmitida por carrapato.
Arnaldo de Castro, um dos sócios da Cia do Bicho, que tem sete clínicas no ABC, lamentou os casos e diz que a medicina, de humanos ou veterinária não é uma ciência exata. Junto com a advogada Débora Castro, o sócio sustenta que a clínica tem 20 anos de atuação e que segue todos os procedimentos.
No caso da cadela Zara ele explica que ela voltou à clínica após apresentar sangramento e que ficou em observação, durante esse período apresentou piora sem uma explicação técnica identificada. “Foram refeitos os pontos e ela ficou bem, comeu bebeu água, dormiu, mas a família foi avisada de que ela só seria liberada após a ultrassonografia, que é um procedimento de segurança que adotamos sempre que há uma intercorrência, só que ela piorou, toda a nossa equipe de veterinários e a anestesista foram acionados e feitos todos os procedimentos, mas ela não resistiu. A piora dela aconteceu em minutos. Só uma necropsia poderia esclarecer, mas a família optou em não fazer e temos que mandar o corpo do animal para a prefeitura retirar”.
Castro, disse que toda a equipe da Cia do Bicho está abalada com uma movimentação em redes sociais contra a clínica e ele diz que tem todas as explicações para dar. “Ninguém está aqui com a intenção de maltratar animais, todos começam suas carreiras por amor e também sofremos com perdas, mas hoje estamos sendo julgados como culpados sem uma perícia técnica. A gente lamenta pelos tutores, mas toda a cirurgia envolve riscos. Quando a gente cura somos heróis, quando há alguma intercorrência somos vilões, mas nestes 20 anos temos sido mais heróis”.
Câmara
O vereador e presidente da Comissão de Defesa e Proteção dos Animais da Câmara de São Bernardo, Pery Cartola (Cidadania) disse que a comissão já iniciou um processo de apuração. “Intercorrências acontecem, mas essa reincidência em pouco tempo dá um sinal de algo errado está acontecendo. Atendemos os casos que nos chegaram e quero ir até o fim para impedir que novos casos aconteçam. Eu pedi informações através de alguns ofícios”, disse o parlamentar.
“O mesmo ofício que eu fiz para a Vigilância Sanitária eu repliquei para a Comissão, para que nos ajudem a apurar. A comissão posse fazer outros ofícios, fazer os questionamentos, acionar a prefeitura e a iniciativa privada. A comissão é uma boa ferramenta para acionar o poder público e exigir algumas respostas. Acho que tem um caminho bem amplo para ser seguido, sem pressa até porque a gente não quer acusar ninguém antes de checar as informações. É preciso consultar depois um veterinário e técnico da própria prefeitura para que verifique os documentos apresentados”, explica o vereador.
Débora Castro, advogada que representa a clínica Cia do Bicho, diz que a Comissão de Defesa e Proteção dos Animais, pode ser um ambiente importante para o debate em cima de provas reais. “Vamos poder provar que não teve erro médico. Também já estamos entrando com um pedido, através de liminar, para que o nome da clínica não seja difamado sem provas”, destaca.
Mutirões de castrações gratuitas também não oferecem amparo, diz especialista
O médico veterinário Jefferson Vilela de Oliveira mestre em cirurgia interdisciplinar pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com 25 anos de atuação na área, diz que os procedimentos de castração não são tão simples, que envolvem riscos como o de qualquer cirurgia e reforça a necessidade sempre de exames pré-operatórios. Segundo ele isso não acontecem em mutirões de castração, onde os tutores não contam com atendimento prévio, com exames, e nem pós-operatório.
“É necessário pelo menos um hemograma, teste de função renal, hepática e um Eletrocardiograma, isso se o animal for jovem, de até sete anos, se for mais velho eu acrescentaria um ecocardiograma. Isso é essencial para evitar consequências. Se o animal tem doença do carrapato ele pode ter uma hemorragia. Se tem insuficiência renal, isso é informação importante até para o uso do anestésico mais indicado”, explica o especialista.
Se por um lado a castração envolve os riscos cirúrgicos, por outro lado os veterinários têm também segurança porque é o tipo de cirurgia mais realizada. “Não é porque é mais comum de ser feita que não há riscos, sempre tem. Hoje um grande problema são os mutirões onde se operam 50 cães de uma vez, por vezes em um ônibus, sem pré-operatório e onde o tutor leva o seu pet embora depois da cirurgia, portanto não tem um acompanhamento pós-operatório. Aí, depois que acontece alguma coisa, o tutor tem que correr para um hospital particular e vai ter que pagar pelo tratamento. Então, não é porque é de graça, que tem que ser mal feito, mas tem muita gente que faz marketing com esses mutirões”, alerta Jefferson Vilela de Oliveira, que é proprietário da clínica Zambicão, em Rio Grande da Serra.
O RD procurou as prefeituras da região para saber como fazem as castrações e se são feitos exames pré-operatórios. A prefeitura de São Bernardo informa que os cães e gatos são avaliados por equipe médica. De janeiro a outubro de 2025 foram realizadas 4.596 castrações e, no mesmo período de 2024, foram 3.977, segundo informa a prefeitura.
“Antes de qualquer procedimento cirúrgico, todos os animais passam por uma avaliação clínica completa, realizada por médico veterinário da equipe, quando é feita análise detalhada do estado geral do animal, considerando fatores como idade, presença de comorbidades, histórico de doenças prévias, condição física atual, além da anamnese minuciosa com o responsável. Também são observados aspectos específicos de cada raça e espécie, incluindo possíveis predisposições a enfermidades. Esse protocolo permite que a equipe veterinária realize castrações de forma segura, criteriosa e alinhada às boas práticas da medicina veterinária. Quando, durante a avaliação clínica, o médico veterinário identifica qualquer indicação ou necessidade de exames adicionais, o responsável é orientado de forma individualizada sobre quais exames devem ser realizados. Nesses casos, o procedimento é remarcado para que a cirurgia ocorra somente quando o animal estiver plenamente apto, garantindo total segurança”, diz nota do paço.
A prefeitura de Diadema respondeu que não realiza castrações, mas tem projeto para isso. “Está em estudo o Projeto SOS PET, que vai oferecer atendimento veterinário de qualidade em clínicas conveniadas, além de campanhas permanentes de vacinação e castração, sem custo. Porém, ainda não há previsão de implantação do futuro serviço”, diz nota do paço diademense. As demais cidades não responderam.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
