
O aumento de queixas cognitivas relatadas por profissionais que atuam na atenção básica do ABC chama atenção de quem acompanha o envelhecimento da população na região. Cada vez mais idosos procuram atendimento por dificuldades de memória, organização e de comportamento, percepção que reforça a necessidade de triagens mais frequentes e identificação precoce de sinais de alerta.
Demência significa um conjunto de síndromes caracterizadas pelo declínio progressivo de funções como memória, linguagem, raciocínio e comportamento, a ponto de interferir na autonomia e nas atividades cotidianas.
O termo é amplo e inclui diversas doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, que aparece como causa mais comum. O risco aumenta com a idade, mas também sofre influência de fatores como hipertensão, diabetes, sedentarismo, depressão, isolamento social e hábitos de vida pouco saudáveis.
Sinais e diagnóstico
A neurologista Margarete de Jesus Carvalho, docente da Faculdade de Medicina da FUABC (Fundação do ABC), afirma que cresce a sensação de aumento nos diagnósticos por múltiplas razões. A expectativa de vida aumentou e existe uma proporção maior de pessoas idosas. A demência é um distúrbio neurodegenerativo cujo principal fator de risco é a idade. “Muitas famílias hoje valorizam pequenas mudanças de comportamento e procuram ajuda mais cedo, algo que antes não acontecia”, afirma. A médica observa, ainda, que o acesso à informação e à rede de saúde aumentou.
Na mesma linha, a geriatra Izabel Nicodemo, do Hospital e Maternidade Ribeirão Pires da Rede D’Or, confirma a tendência. Segundo a médica, os consultórios recebem um número crescente de familiares que relatam sinais iniciais muitas vezes ignorados por meses. Os relatos incluem esquecimento de conversas recentes, repetição de perguntas, dificuldade para organizar tarefas simples, mudanças de humor e episódios de confusão em lugares que antes eram familiares.
Margarete destaca que outros sinais merecem atenção, como dificuldade de comunicação, confusão mental, alteração do sono e mudanças de comportamento que se tornam progressivas. “A família que convive diariamente com o idoso percebe primeiro quando algo foge do habitual. Às vezes é só um detalhe, como uma tarefa doméstica que sempre conseguiu realizar e de repente não faz mais. Isso já indica que algo mudou”, afirma.
Problema na avaliação
Izabel explica que o diagnóstico costuma demorar por fatores que envolvem o sistema de saúde e a dinâmica familiar. “Muitas consultas não incluem avaliação estruturada da memória. A rotina intensa de atendimento faz com que alguns profissionais priorizem outras condições crônicas. Do lado das famílias existe resistência para enfrentar o problema. Há quem diga que envelhecer desse jeito é normal e isso adia a investigação, e por vezes, quando chegam ao consultório, já existe algum prejuízo funcional, de modo que esse atraso reduz opções de intervenção e atrapalha o planejamento dos cuidados”, explica.
Além dos sintomas, fatores de risco pedem atenção constante. As especialistas ressaltam a importância de controlar doenças crônicas e adotar hábitos saudáveis, como atividade física regular, leitura, convívio social e aprendizado de novas habilidades.
Izabel reforça que, embora não exista forma de prevenir totalmente a demência, reduzir riscos e identificar cedo o declínio interferem diretamente no tratamento. “O diagnóstico precoce permite iniciar terapias que retardam a evolução, adaptar a casa para evitar acidentes, organizar a rotina e orientar os cuidadores, tudo isso preserva a autonomia do idoso pelo maior tempo possível”, afirma
Qualificação das equipes
A neurologista reforça que a qualificação das equipes da atenção primária tem papel essencial no diagnóstico precoce. Segundo a especialista, muitos profissionais não dominam instrumentos de triagem cognitiva, o que facilita a perda de sinais iniciais. “A formação contínua permite que o médico da UBS reconheça rapidamente quando o idoso apresenta algo fora do esperado para o envelhecimento. Isso evita atrasos, orienta melhor os fluxos de encaminhamento e melhora a segurança da família”, afirma.
A médica ainda diz que a capacitação abrange atualização em testes cognitivos, treinamento em abordagem humanizada e clareza nos critérios de encaminhamento para a neurologia ou geriatria.
ABC no cuidado à demência
Embora as duas especialistas defendam maior estruturação do diagnóstico precoce, os municípios do ABC desenvolvem iniciativas distintas no cuidado da população idosa e o acompanhamento de possíveis casos de demência.
Santo André aposta na atenção primária para prevenção, rastreamento e identificação precoce de demência. As UBSs realizam avaliação multidimensional da pessoa idosa, utilizam instrumentos de triagem cognitiva e contam com geriatras para acompanhar casos suspeitos ou confirmados. A cidade oferece suporte multiprofissional e desenvolve protocolos que padronizam fluxos de atendimento.
Aumento de diagnósticos
Com 35 UBSs, São Bernardo integra ações da Estratégia Saúde da Família e recebe apoio matricial de médicos especializados em Saúde do Idoso. As equipes passaram por capacitação para utilizar a Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMPI-AB), que identifica fragilidades cognitivas. O município mantém grupos voltados à memória, cognição e atividades sociais. Em 2024, registrou 1.393 diagnósticos de demência e já alcançou 1.468 até outubro de 2025.
Ribeirão Pires informa que o Serviço de Atendimento Domiciliar EMAD ampliou o volume de atendimentos. O total passou de 1.429 pacientes entre janeiro e outubro de 2024 para 2.476 no mesmo período de 2025. Embora não haja dados específicos sobre demência, o cuidado integra as Unidades de Saúde da Família e as UBSs, que seguem responsáveis pelo monitoramento dos casos atendidos em domicílio.
Sem protocolo específico para demência, Diadema concentra esforços na Estratégia Saúde da Família, com ações de promoção da saúde do idoso e acompanhamento de condições crônicas. Queixas cognitivas aparecem de forma dispersa nos atendimentos, sem codificação que permita mensurar quantos casos existem no município. As equipes generalistas identificam sinais de alerta pela proximidade com os idosos, mas não há previsão de expansão de iniciativas exclusivas para esse tema.
As demais prefeituras não responderam até o fechamento da reportagem.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
