O tradicional exame de Papanicolau, realizado há décadas como forma de prevenção ao câncer de colo de útero, será substituído gradativamente pelo teste de biologia molecular DNA-HPV até o final de 2026 nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do País. A mudança segue novas diretrizes do Ministério da Saúde e tem como objetivo aumentar a eficácia no rastreamento da doença, considerada o terceiro tipo de câncer mais incidente entre mulheres no Brasil.
De acordo com o ginecologista e obstetra Sérgio Makabe, diretor-geral do curso de Medicina da USCS, o novo exame é mais preciso porque detecta diretamente a presença do vírus causador do câncer de colo de útero. “O importante é identificar se a mulher tem o HPV, porque é este vírus que causa o câncer. Se a mulher não tem HPV, ela não vai desenvolver a doença”, explica o médico.

Rastreamento
Segundo o Ministério da Saúde, o novo rastreamento será voltado a mulheres de 25 a 64 anos, que serão convocadas para realizar o exame. Atualmente, o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos e 7 mil mortes por ano em decorrência do câncer de colo de útero.
O teste de DNA-HPV, também chamado de genotipagem, é utilizado há anos em diversos países, como Estados Unidos e Canadá. “O exame é mais sensível e eficaz. O Papanicolau faz o diagnóstico quando a mulher já tem uma lesão. O teste de HPV faz um passo antes, pois detecta o vírus antes que ele cause o problema”, afirma Makabe.
A tecnologia detecta 14 genótipos do papilomavírus humano (HPV) e identifica a presença do vírus no organismo antes do surgimento de lesões ou do câncer em estágios iniciais, inclusive em mulheres assintomáticas.
No SUS, o novo exame ainda conviverá por algum tempo com o Papanicolau, principalmente nas UBSs que ainda não estão equipadas com os testes de biologia molecular. “O governo implementa o exame aos poucos, mas a meta é que, até o final de 2026, todas as unidades tenham o teste disponível”, detalha o especialista.
Coleta do exame
A coleta do teste é semelhante à do Papanicolau: o material é retirado do colo do útero com o uso do espéculo. Caso o resultado seja negativo, o exame só precisará ser repetido a cada cinco anos. Se der positivo para os tipos 16 ou 18 do HPV — responsáveis por 77% dos casos de câncer de colo de útero —, a paciente será encaminhada para a colposcopia, exame mais detalhado com uso de uma câmera. Se forem detectados outros tipos do vírus, a mulher fará o Papanicolau, em um procedimento chamado citologia reflexa.
“Nem toda mulher que tem HPV vai desenvolver câncer. A infecção pode desaparecer naturalmente, em um processo que chamamos de clareamento, quando o próprio sistema imunológico elimina o vírus”, explica Makabe.
Autocoleta
O médico também destaca que, em locais mais afastados do País, o governo estuda adotar a autocoleta, na qual a própria mulher coleta o material em casa. “É uma alternativa para ampliar o rastreamento em regiões com menor acesso aos serviços de saúde”, explica.
HPV
A vacinação contra o HPV é fundamental e é considerada uma prevenção primária. No SUS, é oferecida gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos, antes do início da vida sexual. “A vacina previne o contágio. O teste do HPV é uma prevenção secundária, voltada para detectar quem já tem o vírus”, pontua.
Makabe lembra que, embora o HPV seja uma infecção sexualmente transmissível, o contágio ocorre apenas por contato direto. “O vírus não é transmitido por toalhas, sabonetes ou assentos, pois precisa de microlesões que acontecem durante a relação sexual”, reforça.
Na rede particular, o teste de DNA-HPV já é uma realidade. “Nos consultórios privados, já fazemos há anos a genotipagem do HPV. O que muda agora é que o SUS também vai adotar essa metodologia, que torna o rastreamento mais moderno e eficaz”, afirma Makabe.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
