ABC - domingo , 14 de junho de 2026

Funcionária de escola em Diadema manda crianças morderem menina de 2 anos

Marca de mordida no braço de criança. Caso é investigado pela polícia. (Foto divulgada pela família)

Uma criança de dois anos de idade, aluna de uma escola particular infantil de Diadema, foi mordida por pelo menos quatro crianças por orientação de uma das educadoras da escola. Imagens do pátio onde ocorreram as agressões, as quais o RD teve acesso, mostram a menina, orientada pela própria professora como punição por ela ter mordido outra criança. O caso foi denunciado ao Conselho Tutelar do município e a polícia investiga o caso. A diretora da escola Centro Educacional Desbravar, Zenolia Adriana Aparecida Costa, disse ter ficado estarrecida ao assistir as imagens junto com a mãe da criança e que tomou todas as providências, inclusive com a demissão imediata da funcionária.

Kelly Santini Moreira, mãe da criança vítima da agressão, disse que a filha chegou em casa na terça-feira (30/9) com mordidas. “O braço estava roxo e veio um bilhete na agenda, notificando que ela estava no parque e mordeu uma criança que revidou. No começo eu entendi, porém minha filha começou a não querer ir. Ela era apaixonada pela escola e depois não quis mais ir. Na quinta-feira, já desconfiada, eu pedi para ver as imagens da escola. Eu vi que naquele dia uma das tias pega minha filha pela blusa erguendo ela no ar pela roupa, tratando ela como um lixo, puxando e dando um chacoalhão nela e incentivou outras a dar mordidas nela. Depois botaram ela de castigo ao lado de outra tia que também incentivou outras crianças a darem mordidas”, declarou a mãe.

Boletim de Ocorrência

Segundo Kelly, as primeiras mordidas não deixaram marcas, só que a última criança que mordeu é maior e deixou um hematoma. “Essa criança tem três anos e mordeu forte, foi onde ficou roxo. Uma funcionária cometeu maus tratos por arrastar minha filha e outra por incentivar uma criança a morder. Por isso eu fui na delegacia, fiz o boletim de ocorrência, fui no Conselho Tutelar e mostrei tudo. Eu também alertei os pais, pois isso pode ter acontecido com outras crianças porque a escola primeiro disse que não aconteceu, vieram com outra história”, diz.

O vídeo, que o RD teve acesso e tem imagens fortes, mostra que duas funcionárias levam a filha de Kelly para que pelo menos quatro crianças a mordessem no braço. Em uma dessas mordidas, a educadora que aparece sentada no chão, cumprimenta a criança que mordeu a menina, com um toque de mãos, aprovando a agressão. Essa teria sido a mordida mais forte que teria deixado hematoma. A filha de Kelly chora e a sessão de tortura termina.

A diretora da escola disse soube que a filha de Kelly teria mordido outra criança e que um bilhete foi mandado na agenda no mesmo dia. “A mãe foi avisada na terça-feira (30/9) e na quinta-feira (02/10), quando vimos o vídeo tomamos todas as medidas contra essa professora, ficamos do lado da mãe. A profissional foi demitida imediatamente e proibida de voltar à escola. Eu só sabia o que a professora tinha me contado, se a mãe não fala com a gente eu não teria visto o vídeo”, disse Zenolia Adriana.

A diretora conta que a professora tinha sido contratada havia dois meses e que veio de outra escola com boas referências e 20 anos de experiência. “Depois de analisar o currículo dela, que era bom, eu liguei para o antigo emprego e me disseram que ela era uma boa funcionária e que só saiu porque pediu a conta”, explica a diretora que não suspeitava da atitude da funcionária. Zenolia Adriana disse, no entanto, que viu apenas uma criança morder de fato a menina, porém definiu como “gravíssima” a atitude da profissional ao dar um toque de mão à criança que mordeu, como se ela tivesse feito um bom trabalho.

Após o fato ter chegado ao conhecimento de outros pais, a diretora se dispôs a conversar com todos. “No dia seguinte abri a escola normalmente porque não temos nada a esconder e para os pais que quiseram conversar eu dou toda a atenção”, diz. A diretora contou que depois do episódio quatro pais decidiram tirar os filhos da escola, incluindo a mãe da criança que foi mordida.

Lesão corporal

O caso foi registrado no 4° Distrito Policial de Diadema como lesão corporal. O RD solicitou entrevista com o delegado do caso, mas a Secretaria de Segurança Pública preferiu mandar uma nota. “A mãe da criança e os funcionários da creche foram intimados a prestar depoimento e a autoridade policial solicitou as imagens das câmeras de segurança do local. As diligências seguem em andamento para o completo esclarecimento dos fatos”, diz a nota.

A Prefeitura de Diadema informou, também em nota, que mandou equipe de fiscalização à escola. “Ao tomar conhecimento da denúncia, a Secretaria de Educação de Diadema enviou uma equipe técnica para fiscalizar as condições de funcionamento da unidade e, se apuradas irregularidades, tomará as providências cabíveis”, diz o comunicado. “Informações específicas dependem, portanto, de consulta direta aos setores responsáveis e, quando se referem a estabelecimentos privados, podem estar protegidas por regras de acesso restrito. Denúncias de maus-tratos envolvendo crianças são tratadas por órgãos com competência legal para apuração, como Ministério Público, Conselho Tutelar e autoridades policiais. Eventuais informações sobre providências adotadas, andamento de apuração ou medidas aplicadas não podem ser divulgadas por outros entes públicos, em razão do sigilo legal previsto no ECA. A eventual responsabilização administrativa ou judicial de pessoas ou instituições só pode ocorrer após a conclusão das apurações pelas instâncias competentes”, completa a nota da administração municipal .

Mordidas têm explicação na faixa etária

Episódios com crianças pequenas que mordem não são raros. Para a neuropsicóloga com especialidade em autismo pela Universidade Federal de São Carlos, Maria Luiza Brito Mastandrea, morder faz parte do processo de conhecimento do mundo por crianças menores. “De maneira geral, as crianças tendem a morder entre 1 até 3 anos idade, como tentativa de explorarem o mundo com a boca, a fim de descobrir sensações e a reação do outro. A maioria das crianças ainda não domina a linguagem como forma de comunicar seus sentimentos, emoções e frustrações, desta forma utilizam a mordida para expressarem raiva, ansiedade, tédio e frustração. A mordida também pode servir como forma de reivindicar um brinquedo. O comportamento de morder pode ter como objetivo também chamar a atenção de um adulto”, aponta.

Para a neuropsicóloga, acostumada a lidar com crianças, a atitude do profissional de educação deve ser a de fazer com que a criança que mordeu entenda que esse não deve ser o jeito de expressar as emoções e fazer pedir desculpas. “O primeiro passo é entender o que motivou o comportamento de morder. Para ajudar é importante explicar a criança que ela precisa falar sobre suas emoções, ensinando maneiras de falar sobre elas, como ‘estou bravo’ ou ‘preciso de ajuda’. Quanto à criança que foi mordida, é importante explicar que a coleguinha se comportou de maneira equivocada e sugerir a criança que mordeu peça desculpas à colega. Em caso do comportamento de morder ser repetido diversas vezes, sem sinal de melhora, o ideal é que faça uma consulta com o psicólogo para realização de análise funcional e entender a motivação inicial da mordida”, explica Maria Luiza.

Sobre a atitude da educadora da escola de Diadema, a psicóloga diz que a agressão física não deve ser a solução. “A agressividade nunca é a melhor resposta para o indivíduo, não é indicado utilizar qualquer tipo de agressão com as crianças, sejam elas físicas ou verbais”, completa.

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