
A terça-feira (19/8), véspera dos 472 anos de São Bernardo, foi de forte mobilização política após a Polícia Federal mirar o prefeito Marcelo Lima, e o primo, Danilo Lima, presidente da Câmara, ambos do Podemos e afastados do cargo e o chefe do Executivo com tornozeleira eletrônica. A primeira sessão legislativa, após a operação Estafeta, teve movimento acima do normal, com plateia cheia. O clima impactou nas festividades de aniversário que teve programação reduzida. Os políticos falam em deixar diferenças ideológicas e pregam união, mas a festa perdeu o brilho. Cientista político considera que o Executivo e o Legislativo deve ‘cortar na carne’ para demonstrar seriedade.
Segundo Nilson César Tristão, cientista político e sócio-diretor do Instituto Opinião Pesquisa, situações de corrupção assustam moradores. “Quando se fala em autoestima ela está diretamente ligada ao orgulho que o morador tem da cidade, e no caso de São Bernardo, temos um município pujante, uma das mais importantes economias do Estado, berço das montadoras de veículos e de onde nasceu politicamente o presidente da República. Quando acontecem coisas como essa operação da PF, isso contrasta com a história da cidade e causa estranhamento, por isso a cidade só tem de cortar na carne e tirar quem participava dessa instrumentalização do poder público para interesses privados”, analisa.
Para Tristão, a prefeita em exercício, Jéssica Cormick (Avante), deve estar disposta a romper com qualquer força política que não esteja alinhada com esse momento de recuperar a autoestima do morador para com a cidade. “A história tem rupturas importantes de vices com os titulares do cargo, como Fernando Collor e Itamar Franco ou Dilma Rousseff e Michel Temer. Foram rupturas fortes e a prefeita sai de um cargo de expectativa para comandar a cidade e tem dois caminhos possíveis; a de levar em banho-maria esperar que o prefeito reverta sua situação no Judiciário e volte a comandar a cidade ou reestruturar a Prefeitura e impor o próprio governo”, diz.
Tristão considera que a mobilização política na Câmara, nesta terça-feira, é uma tentativa de dar uma resposta rápida à opinião pública, ainda que a CPI que teve o pedido aceito com a assinatura de todos os vereadores, entre numa fila de espera. O regimento interno da Casa só permite duas comissões de inquérito por vez e o Legislativo já tem duas em andamento.
Segundo Tristão, a democracia funciona em função da opinião pública e os vereadores têm de estar preocupados, além de uma resposta os parlamentarem agem em auto preservação. Em Ilhabela, por exemplo, todos os vereadores que não concordaram com o impeachment do prefeito (em 2019) não foram reeleitos, então eles têm de dar respostas e mostrar que não estão apartados dos fatos”, diz. Tristão considera precoce um processo de impeachment, antes da conclusão das investigações pelo Judiciário. “Precisa primeiro concluir a investigação, pois são informações graves numa clara atitude de usar o poder público para interesses particulares”, completa.
O PSol protocolou pedido de impeachment para cassar o mandato do prefeito Marcelo Lima, mas o documento ainda tramita na Câmara e não tem prazo para ser votado, conforme informou a presidente interina da Câmara, Ana Nice (PT).
CPI x festividades
A CPI que vai investigar a conduta do prefeito e de agentes públicos, dentro do que a PF e o Ministério Público já investigam, foi aprovada na Câmara e proposta pelo líder do governo na Câmara, vereador Julinho Fuzari (Cidadania). Antes, outro pedido tinha sido proposto pelo vereador João Viana, do mesmo partido, mas que faz oposição ao governo. Viana disse que não importa o autor, desde que a Câmara apure quem teria participado do esquema de corrupção. Mesmo com a ação do Legislativo ele vê que não há mais clima de festa para comemorar o aniversário da cidade.
“Nos causa estranheza o líder do governo querer investigar o governo, mas não estou preocupado em quem vai abrir a CPI, fiquei feliz por ter incitado uma mobilização que culminou com a instalação da comissão, eu mesmo assinei, a preocupação é se a CPI vai ser protagonista em auxiliar a Justiça. O que me abala é que essa crise política atrapalhe os serviços públicos”, diz Viana.
Cancelamentos
Sobre o aniversário, o vereador da oposição disse lamentar que eventos na programação ser prejudicados. “Tenho visto o cancelamento de vários eventos previstos, como a corrida na ponte estaiada que eu queria participar, mas me disseram que não vai ter mais. O aniversário de São Bernardo está manchado, a autoestima da população, com tantas notícias negativas, está lá embaixo”, comenta. Sobre a CPI não avançar até que as outras duas terminem, o oposicionista diz que é necessária urgência. “Quanto mais tempo demora mais dinheiro é saqueado e atrasa a vida das pessoas comuns”, completa.
A vereadora Luana Eloá (MDB), que se considera independente, mas que tem votado favorável em projetos do governo, também defende maior agilidade na apuração dos fatos investigados pela Polícia Federal. Luana sugere mudança no regimento interno. “Vejo que o nosso regimento interno é muito arcaico, permitir apenas duas CPIs funcionarem ao mesmo tempo trava o sistema e isso não é o que a sociedade quer”, aponta.
A emedebista diz que a grande dimensão que a investigação contra o prefeito e outros agentes públicos tomou apaga a alegria da festa de aniversário da cidade. “É um momento de muita tristeza, estamos em um momento de instabilidade que não é bom para ninguém. Eu me coloco como uma cidadã que não quer que o barco afunde e agora não temos opção senão deixar de lado as questões ideológicas para o bem da cidade”, analisa.
Luana e outros vereadores pediram série de documentos à Prefeitura durante essa primeira sessão após o afastamento do prefeito e do presidente da Câmara. A parlamentar explica que são documentos inclusive da gestão anterior, de Orlando Morando (sem partido). “Muitos contratos derivam da gestão anterior por isso há necessidade de verificar esses contratos”, completa.
Programação
Eventos que estavam previstos na programação de aniversário antes do afastamento de Marcelo Lima não estão mais a lista de comemorações. O RD indagou a Prefeitura sobre as mudanças, mas não teve resposta.
Aviso da Prefeitura, distribuído à imprensa no dia 6 de agosto, informava que a programação do dia de aniversário incluía o tradicional Desfile Cívico, na rua Marechal Deodoro; a entrega da Praça da Cidadania, junto ao governo do Estado; e a entrega do Viaduto Estaiado da avenida Robert Kennedy.
Nesta terça-feira (19), a Prefeitura confirmou apenas missa especial na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem (Matriz) seguida do desfile, ambas atividades com a presença da prefeita Jéssica Cormick. Os shows previstos para o Paço Municipal, com a presença da cantora sertaneja Ana Castela também estão confirmados, porém a entrega da praça e a inauguração do viaduto não constam mais na programação.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
