
O ABC já enfrenta temperaturas mais baixas, que afetam principalmente a população em situação de rua. Com isso, as prefeituras intensificaram as ações de acolhimento, com objetivo de garantir proteção e dignidade a esse público vulnerável.
Ribeirão Pires, Santo André, São Bernardo, Mauá e São Caetano reforçaram suas estruturas de atendimento, ao mobilizar equipes especializadas e promover campanhas de arrecadação de roupas e cobertores para mitigar os efeitos do frio.
O número de atendimentos tem aumentado em Ribeirão Pires. Somente em maio, 94 pessoas foram abordadas pelas equipes da assistência social, das quais 80 aceitaram acolhimento na Casa de Acolhida Márcia Zancaneli. Outras 14 optaram por permanecer nas ruas, mas receberam atendimento e orientações. Em 2024, no mesmo período, foram 70 atendimentos, com 66 acolhimentos.
A Casa de Acolhida oferece 40 vagas fixas (35 para homens e 5 para mulheres), além de permitir a entrada de pets. Durante o inverno, a capacidade é ampliada com 20 vagas emergenciais para as noites mais frias.
A população pode solicitar ajuda pelo telefone (11) 4829-3090, informando o local e características da pessoa em situação de rua. Além de abrigo, a unidade oferece banho, alimentação, apoio social, emissão de documentos e recâmbio para cidades de origem. O Fundo Social do município também distribui cobertores, embora sem controle rígido da quantidade.
Mauá inicia Operação Inverno
Em Mauá, as ações de inverno foram antecipadas. A Operação Inverno 2025 e a campanha Inverno Solidário tiveram início oficial em 1º de junho, mas as equipes já estavam atuando desde o fim de maio, em noites com temperaturas abaixo de 15 °C.
Na noite de 28 de maio, por exemplo, 48 pessoas foram levadas ao Centro POP e 32 ao Albergue Noturno. Outras 21 recusaram o acolhimento, mas receberam lanches e cobertores. A atuação das equipes — compostas por profissionais da Assistência Social, Defesa Civil, Guarda Municipal e Saúde — ocorre das 19h às 22h, com plantão durante a madrugada. Denúncias podem ser feitas pelo Disque 153.
O Centro POP, na avenida Washington Luiz, 625, funciona 24 horas durante o inverno. A campanha Inverno Solidário arrecada roupas masculinas, cobertores, luvas, cachecóis e meias, com pontos de coleta na Secretaria de Assistência Social e no próprio Centro POP.
São Caetano amplia estrutura
São Caetano registrou aumento no acolhimento em 2025. Em maio, foram ofertadas 11 vagas (9 na Aevida e 2 no Lar Bom Repouso), além de 33 pernoites — no mesmo mês de 2024, havia 18 vagas fixas, sem registros de pernoite. Desde 30 de maio, a cidade realiza a “Operação Inverno Seguro”, com equipes de abordagem social atuando das 8h às 22h.
A cidade conta com 30 vagas fixas e 12 para pernoite na Aevida, que aceita animais, e 100 vagas fixas e 10 para pernoite no Lar Bom Repouso. O acesso aos serviços é feito por meio de encaminhamento do Creas, após contato com as equipes de abordagem. Em maio, foram distribuídos 10 kits com roupas e higiene, além de 51 cobertores — em 2024, foram 60 cobertores.
Santo André intensifica acolhimento
Com o agravamento do frio, Santo André reforçou o acolhimento à população de rua. O município oferece 50 vagas em abrigo com estrutura para pernoite, alimentação, banho e apoio social.
As equipes atuam diariamente para identificar e encaminhar pessoas em vulnerabilidade. No primeiro semestre de 2025, os acolhimentos aumentaram 15% em relação ao mesmo período de 2024, resultado de ações integradas da Assistência Social e Defesa Civil.
Além do abrigo, o município promove a emissão de documentos, encaminhamentos para a saúde e programas de reinserção social. A população pode colaborar denunciando casos pelo telefone 156. Campanhas de arrecadação de roupas, cobertores e alimentos também estão em andamento.
São Bernardo realiza 947 atendimentos
Em São Bernardo, foram registrados 288 atendimentos a pessoas em situação de rua em maio, totalizando 947 abordagens — números que já superam os de 2024 (278 pessoas e 884 atendimentos). A operação de inverno começa oficialmente neste domingo, 1º de junho, com acolhimento 24 horas, em parceria com a GCM e a Secretaria de Saúde.
A Casa de Passagem, no Centro, oferece até 150 vagas, com alimentação e acolhimento para pets. Já a Moradia Provisória do Riacho Grande dispõe de 30 vagas para homens.
Durante o inverno, os abrigos funcionam em modelo “porta aberta”, ou seja, sem necessidade de encaminhamento prévio, com capacidade para até 180 pessoas por noite — número que pode ser ampliado. Para quem recusa o acolhimento, as equipes entregam cobertores e roupas de frio.
Denúncias e solicitações podem ser feitas pelos números (11) 99231-7784, (11) 99231-6599 ou pelo Disque 153. O Centro POP, na Avenida Redenção, 271, funciona das 8h às 17h, oferecendo oficinas, apoio jurídico, social e de saúde.
Diadema e Rio Grande da Serra não enviaram resposta às solicitações da reportagem.
ONGs denunciam precariedade dos abrigos
Thiago da Silva Quintanilha, coordenador do Movimento Nacional População de Rua no ABC, afirma que São Bernardo tem a segunda maior população de rua do País, com cerca de 2.700 pessoas, atrás apenas da capital paulista, e, ainda assim, o número de vagas em abrigos não corresponde à demanda.
“Na Coliseia, há 40 vagas, mas apenas 30 estão ocupadas. Isso não se deve à recusa da população, mas à má qualidade dos serviços. Muitos preferem dormir na rua a se submeterem a abrigos degradantes”, critica. Quintanilha também aponta a resistência de prefeituras em aderir ao Plano Ruas Invisíveis.
Quando o diálogo com o poder público não avança, a ONG recorre à Justiça para garantir direitos básicos, como o fim da expulsão forçada e da chamada arquitetura hostil, como pedras e grades em locais usados pela população de rua para dormir.
“Anjos da Sopa” serve 8 mil refeições por mês
Em Santo André, a ONG Anjos da Sopa, coordenada por Gisele Catelli, reúne 160 voluntários que servem mais de 8 mil refeições por mês, além de distribuir roupas, cobertores e calçados. O atendimento é feito 24 horas por dia, em um espaço mantido com recursos do salão de beleza de Gisele.
“A gente oferece café da manhã de segunda a sábado, marmitas, bolos e kits de emergência. Às vezes, as pessoas chegam encharcadas e trocam de roupa na frente da ONG. É um socorro imediato que salva vidas”, relata Gisele.
Legislação garante direitos, mas aplicação ainda é falha
A população em situação de rua é protegida por leis como o Decreto nº 7.053/2009, que institui o Plano Ruas Invisíveis, e o Decreto nº 976/2022, que proíbe remoções forçadas e práticas de arquitetura hostil. Ambos asseguram o direito à permanência em espaços públicos sem repressão ou violência.
Apesar disso, muitas cidades ignoram as diretrizes. A fiscalização por parte do Ministério Público, da Defensoria Pública e da sociedade civil é essencial para garantir que essas pessoas tenham acesso a serviços dignos e sejam protegidas conforme prevê a legislação.
Como ajudar?
A ONG Anjos da Sopa fica na rua Javri, 449, Vila Assunção, Santo André. Doações são aceitas de segunda a sábado, das 9h às 19h.
Pix: (11) 97215-4434 – Bradesco – Ag. 2715-4 – C/C 32669-0 – CNPJ: 44.687.154/0001-79
Doações também podem ser enviadas a Thiago da Silva Quintanilha, via Pix: (11) 98478-9375, ou entregues na rua Beta Dragões, 14, Bloco 1, Ap. 21, bairro Cooperativa Três Marias.
Em Ribeirão Pires, o Fundo Social recebe donativos para a Casa de Acolhida. Em Mauá, a campanha Inverno Solidário segue ativa. A população pode ainda denunciar casos de pessoas em situação de rua aos canais oficiais das Defesas Civis e Guardas Municipais, contribuindo com a resposta rápida dos serviços públicos.
RD – Jornal Repórter Diário Notícias sobre o ABC. Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra
