ABC - sábado , 20 de julho de 2024

Pobreza faz disparar abordagem de pedintes em estabelecimentos comerciais

ABC concentra 60,1 mil pessoas em situação de pobreza (Foto: imagem ilustrativa/Canva)

Do total de 1,1 milhão de pessoas consideradas extremamente pobres no Estado de SP, com renda per capita inferior a R$ 70, cerca de 60,1 mil vivem no ABC, e as condições mais extremas estão em Rio Grande da Serra e Diadema, que registram 4% e 3,1% dos habitantes, respectivamente, segundo a Fundação Seade. O quadro reflete num maior índice de pedintes dentro e fora de estabelecimentos comerciais como supermercados e farmácias, assim como vendedores ambulantes.

Sem políticas públicas e diagnóstico sócio territorial com devidas abordagens, acolhimento e acesso a serviços públicos para reinserção desse público ao mercado de trabalho, o número tende a subir, e as queixas referentes a abordagens. Para se ter ideia, somente entre Ribeirão Pires, Santo André e São Caetano, pelo menos quatro supermercados foram alvos recentes de reclamações sobre a prática de pedintes.

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Em Ribeirão Pires e São Caetano, o Joanin Supermercados tem afastado consumidores em razão da sensação de insegurança proporcionada a quem acessa as lojas. Na primeira cidade, um cliente que prefere não se identificar conta que esteve no local este ano e, além da catraca de acesso do estacionamento, não funcionar, havia uma família de pedintes que abordava consumidores nas duas entradas da loja, o que trouxe sensação de insegurança.

Joanin Ribeirão Pires é alvo de reclamação de clientes (Foto: Reprodução/Google)

O consumidor conta que guardava as compras no porta-malas do carro quando uma senhora o abordou e pediu que comprasse um pacote de leite em pó para o filho pequeno. “Quando disse que não poderia ajudar, ela viu as compras no meu porta-malas e pediu um pacote de feijão que estava à mostra. Tive de entregar depois do constrangimento”, relata. Após o ocorrido, o reclamante diz ter procurado a administração da loja, mas sequer apresentaram preocupação. “No outro dia quando minha mulher foi até o mesmo mercado viu não só a mesma senhora, como o filho dela na outra entrada, também abordando os clientes”, comenta.

Num cenário parecido, Francisco Alves Leão, 61, conta que deixou de frequentar a unidade do Joanin em São Caetano. O aposentado comenta que, apesar dos preços pouco mais elevados, sempre optou por fazer compras no local em razão da tranquilidade e filas menores, mas a abordagem de pedintes tem incomodado. “Surgem de trás dos carrinhos e dão um baita susto em você. E quando não ajudam, te encaram. Isso dá medo”, reclama. Diferente do outro reclamante, Francisco não registrou reclamação, mas diz evitar a opção desse supermercado. “Agora só vou quando estou acompanhado”, salienta.

Abordagem nas gôndolas

No Hipermercado Carrefour, na avenida Pedro Américo, em Santo André, a situação se repete, mas no interior da loja, entre as gôndolas e caixas. O morador da Vila Bastos, Leonardo Brandão, comenta que enquanto fazia compras percebeu a movimentação dos pedintes entre os corredores e caixas, mas continuou atrás do produto que procurava sem dar importância pra situação. “No começo já achei estranho pela quantidade de pedintes e ninguém pra fiscalizar, mas como fui comprar só um mouse e chocolate pra minha namorada, nem liguei muito”, conta.

Ao chegar no caixa para passar as compras, relata que um garoto começou a guardar o que ele havia comprado, e assim que viu o chocolate entre os produtos, pediu a Leonardo. “Disse que não, que era pra minha namorada, e então ele pediu pra que eu comprasse mais um pra ele. Tudo isso aconteceu na frente da atendente de caixa e sequer fizeram alguma coisa”, reclama ao citar que desde então não voltou ao supermercado. “Registrei a reclamação no Google, entraram em contato com uma resposta genérica e desde então não sei se alguma coisa mudou”, salienta.

Outra reclamante que prefere não se identificar ainda acrescenta que os pedintes são importunos. “Pedem produtos caros, xingam quando dizemos não e ameaçam”, relata. Segundo ela, não existe um perfil específico de pedinte. “São crianças, homens, mulheres, todos importunam e insistem para comprarmos produtos pra eles. Não vejo acontecer isso em nenhum outro supermercado, só lá”, relata.

Falta assistência pública 

A advogada Shirley Van Der Zwann, presidente da Comissão da Infância e Adolescência, da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em Santo André, avalia que raramente estes pedintes são amparados, e nas ocasiões que as organizações não governamentais tentam auxiliar, não é suficiente para dar conta da demanda. “As doações são poucas, o assistencialismo é escasso e a assistência social oferecida pelos CRAS ou CREAS, por si só, são mínimas, e não dão conta da proporção da questão”, diz.

Em sua avaliação, os órgãos municipais competentes devem fiscalizar as instituições governamentais e não governamentais que recebem verbas públicas para exercer a função de atendimentos para esta classe, pois se vendem produtos na rua, pedem doações ou procuram trabalho neste sentido, é porque precisam do mínimo para sobreviver. “Com certeza há necessidade de capacitação em toda a rede para poder trabalhar com jovens e adolescentes”, diz.

Pedinte como sujeito de direitos

Já na opinião da assistente social Gabriela Regina Xavier, do Lar Maria, entidade assistencial que atende 1,5 mil crianças em Santo André, é preciso ter um olhar social e enxergar o pedinte como um sujeito de direitos, pautado no respeito e o contexto que o levou a essa situação. “Acredito que os números são significativos, uma vez que não existem investimentos e políticas que atendam as demandas da população que estão em situação de desemprego”, diz.

Segundo Gabriela, é possível observar que as razões para que cheguem a essa situação degradante são as mais diversas, desde a falta de trabalho para os mantenedores das famílias nos seus locais de origem ou mesmo a entrega ao vício em álcool ou a outras substâncias. Assim, a sugestão da assistente social é olhar como este problema traz um impacto na sociedade, pois é uma questão social que pede luta pela efetivação de políticas públicas, diálogos e ações que gerem emprego e discussões de maneira coletiva. “A postura dos clientes é de fato ter um olhar empático e entender que o pedinte é um sujeito que carrega sua história, lutas, e que este problema é nosso, da sociedade e do Estado”, ressalta.

Carrefour

Diante dos relatos no interior dos supermercados, somente o grupo Carrefour Brasil respondeu. Em nota, a rede informa reconhecer a responsabilidade da questão e comenta ter criado um “Programa de Alocação de Assistentes Sociais” nas lojas com alta incidência de públicos em situação de vulnerabilidade social, incluindo a loja de Santo André. “O programa prevê abordagem humanizada e qualificada desses públicos com acolhimento e encaminhamentos à rede socioassistencial”, informa.

Questionada sobre a situação, a APAS  (Associação Paulista de Supermercados) não se posicionou sobre as medidas adotadas para enfrentar o problema até o fechamento da reportagem.

Na contramão

Para garantir a segurança de clientes, o professor da Faculdade de Direito de São Bernardo e mestre em Direito, Arthur Rollo, especialista em Defesa do Consumidor, defende que a denúncia pode trazer solução. “Qualquer problema no estacionamento do supermercado (se fechado), assim como no interior da loja, o estabelecimento deve responder, assim como trazer segurança ao consumidor”, afirma. O ideal, segundo o advogado, é reclamar de forma que se tenha provas. “Mandar e-mail para a gerência do estabelecimento ou ouvidoria e deixar isso de uma forma documentada, comprovada pelos canais de atendimento do supermercado”, diz. Já quando a situação não for resolvida, a indicação é trocar de supermercado.

Já na visão do advogado terapêutico, Victor Paulo Ramuno, especialista na defesa e recuperação de dependentes e compulsivos, quando envolver crianças neste tipo de prática, é fundamental acionar o Conselho Tutelar da cidade. “Já presenciei uma situação parecida em que uma mulher buscou ajuda da polícia, nada foi feito, e eu a orientei que o Conselho Tutelar fosse acionado, porque em muitos casos os pais utilizam os próprios filhos para fazer o tipo de abordagem”, afirma. Nestes casos, também se deve seguir a orientação de acionar o gerente e/ou administração da loja para providências.

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