ABC - quinta-feira , 13 de junho de 2024

Falta de lugar para guardar bicicleta dificulta seu uso como meio de transporte

Mário de Souza Cruz pedala 22 quilômetros para ir ao trabalho. (Foto: Arquivo Pessoal)

As prefeituras fizeram, nos últimos anos, faixas exclusivas para bicicletas, ampliaram ciclovias, como forma de incentivar o uso da bicicleta não apenas como lazer, mas como modal de transporte, porém a sua integração com os sistemas de ônibus e trens enfrenta uma barreira, que é a falta de bicicletários. A região tem pouco mais de 2,3 mil vagas para os ciclistas guardarem suas “magrelas”, e seguirem viagem por trem ou ônibus. Quem está acostumado a pedalar vê muita dificuldade nesta situação, pois nos trens ainda é possível embarcar com a bike, o que não acontece nos ônibus.

O maior bicicletário da região é o de Mauá, com 1.968 vagas. Trata-se de um local da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) que é administrado por uma empresa terceirizada, mesma situação do que funciona junto à estação de Santo André, que tem 334 vagas.

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Em Santo André o uso é gratuito e o horário de funcionamento é das 6h às 22h. Já em Mauá o funcionamento é 24 horas, todos os dias, mas existe cobrança. O ciclista pode pagar R$ 30 mensais ou R$ 3 por dia se tiver cadeado e chave, se não tiver, serão cobrados R$ 5 por dia.

Já as prefeituras dão menos importância a esses locais, o município que tem mais espaço para a guarda das bicicletas é São Bernardo que tem três bicicletários instalados nos parques Raphael Lazzuri, no Jardim do Mar, Engenheiro Salvador Arena, no Rudge Ramos, e Parque das Bicicletas, no Jardim do Mar, onde a estadia das magrelas é gratuita. A administração não informa o número de vagas em casa um.

Segundo dados da Prefeitura, São Bernardo tem a maior malha de vias para bicicletas, são 13.780 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas. “A Prefeitura tem buscado incentivar moradores ao uso de meios alternativos de deslocamento com a ampliação da malha cicloviária, criação de corredores exclusivos de ônibus e aprimoramento do serviço de transporte coletivo do município. A ampliação tanto da malha cicloviária quanto de bicicletários está prevista no âmbito do Plano Municipal de Mobilidade Urbana”, diz a nota.

Falta total

Rio Grande da Serra tem apenas 6 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas e um bicicletário com 15 vagas. São Caetano, Diadema e Ribeirão Pires não contam com local para a guarda das bikes e Mauá não informou se tem outros locais além do bicicletário da CPTM. Em São Bernardo, junto ao terminal metropolitano há um bicicletário, sob a gestão da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos) e que tem 68 vagas e funciona das 6h às 22h, todos os dias inclusive feriados. O uso é gratuito.

O ciclista Valdir Soares da Silva disse que por lá encontra dificuldade para encontrar vaga. Ele mora em Diadema, cidade com dois terminais de ônibus da EMTU, mas sem um bicicletário sequer. “Deveriam fazer um bicicletário e cobrar uma taxa para a manutenção e para o seguro da bicicleta”, comenta. O ciclista diz que também costuma pedalar no sentido da Capital, até o terminal Jabaquara, onde há local para guardar a bike, mas também encontra dificuldade para conseguir vaga. “Está sempre muito lotado”, comenta. A EMTU informa que o bicicletário do Jabaquara tem 230 vagas e também funciona todos os dias das 6h às 22h, menos feriados e o seu uso é gratuito.

Bicicletário de Mauá é o maior da região. (Foto: Banco de Imagens)

Para quem deseja ter um estilo de vida mais saudável e aliar o exercício à economia com a condução, a integração entre os modais é mais do que necessária. Adonias Oliveira adotou a bicicleta como rotina na sua vida por orientação médica. Ele tinha problemas de pressão alta, se aproximou de um grupo de pessoas que pedalam em rotas turísticas e gostou. Hoje ele, a esposa Roseneia e o filho Nathan não perdem passeios. “Comecei a andar e não parei mais; a bicicleta me proporcionou mais saúde e até a minha auto estima e também a disposição para o trabalho melhoraram”, conta.

A família de Adonias é de Santo André, e costumava usar o trem como meio de transporte quando iam de bicicleta para os passeios. “Eles deixam um vagão para isso, o que é bom, mas para quem usa diariamente e um bicicletário faz falta. Ajuda muito”, comenta. “Ter infra estrutura para o ciclista como uma ciclovia segura e bicicletários faz a diferença. Eu acredito que mais pessoas não aderem à bicicleta como meio de transporte por causa disso. Acho que se as empresas deixassem um espaço para os funcionários guardarem faria muita diferença também”, completa. Recentemente a família se mudou para Indaiatuba, onde usam ainda mais a bicicleta, não apenas para o cicloturismo, mas para trajetos mais curtos.

Mário de Souza Cruz, de 46 anos, começou a pedalar há sete anos, e transformou o gosto por pedalar em um negócio. Ele tem uma empresa de cicloturismo, a Oiê Bikers, que leva pessoas para andar em locais turísticos por todo País e fora dele também. Cruz mora na Vila Scarpelli, em Santo André. A ligação dele com o veículo de duas rodas é tão grande que se casou com uma colega de pedalada.

“Conheço a situação de Santo André, São Bernardo e São Caetano e uma coisa que é bem difícil é bicicletário próximo aos terminais de ônibus, já tivemos vários movimentos para mudar isso, mas pouca coisa foi feita. A gente não pode contar muito com as prefeituras e a gente acaba improvisando. Se eu tiver que me deslocar de bike e fazer esse modal de trem ou ônibus, eu tenho de arrumar algum estacionamento de carro, particular, para deixar a bike e pagar. A dificuldade é bem grande”, reclama.

Cruz deixa o carro em casa e faz o trajeto de ida e volta do trabalho de bicicleta todos os dias. “Trabalho próximo ao Aeroporto de Congonhas (Capital), dá 22 km da minha casa até lá. No trajeto não tem ciclofaixa, vou pela Lions, depois corredor ABD, e próximo da avenida Santo Amaro eu acesso o campo belo onde eu trabalho. Quando venho pelo Jabaquara pego quatro ou cinco km de ciclofaixa até chegar em Diadema”, explica. A ciclovia da Capital chega somente até o limite com o município do ABC e para abruptamente.

“Divido o espaço com os carros todos os dias. Uso a bike todo dia mais para treino, para ter mais reflexo com a bike, porque não é nada fácil, é bem perigoso, mas até hoje não aconteceu nada. Eu creio que se tivesse uma estrutura melhor para a bicicleta desafogava o trânsito e muitas pessoas trocariam, deixariam o carro em casa como eu faço, para optar pela bicicleta”, completa o ciclista.

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